Não percebo nada de arte. A minha apreciação de um quadro não vai além do “Ah, tão lindo” ou “Não consigo decifrar esta pintura”. Infelizmente, não tenho o dom da contemplação. Não consigo ficar horas a olhar para um desenho para tentar perceber as emoções e pensamentos do artista. Mas fui ver a exposição “Picasso. Mestre Universal” e adorei.
Não é por se tratar de desenhos, esboços e cerâmicas feitos por Pablo Picasso que me levam a dizer que adorei. Ir visitar uma exposição, um museu, um palácio é sempre uma experiência que deve ser aproveitada ao máximo. De preferência, deve ser um momento partilhado com a família ou com amigos. E esta mostra, que está no Palácio Anjos, em Algés, é de entrada gratuita. Como não ir?
Por isso, num destes dias, quando o meu filho chegou da escola fiz-lhe a proposta da forma mais entusiasmada que consegui: “Vamos ver o Picasso?”. O olhar dele disse tudo: “Por favor, mata-me já, mas não me obrigues a ir ver pinturas”.
Reconheço bem a expressão. Fiz exactamente a mesma quando, no início dos anos 90, fui com os meus pais ao Louvre. Naquela altura, ir a um dos museus mais conhecidos do mundo ou tomar banho com água fria tinham o mesmo efeito em mim.
Não foram as múmias, ou a “Mona Lisa” que me ficaram na memória. Mas uma estátua meia perdida numas escadarias do Louvre. A “Vitória de Samotrácia”, uma escultura de uma deusa grega sem cabeça e com umas asas enormes, fizeram-me ficar de boca aberta. O pormenor era incrível e percebi que havia, de facto, coisas extraordinariamente belas.
Foi esta memória que me fez “arrastar” o meu filho de 13 anos até ao Palácio Anjos, em Algés. Fomos a pé, num caminho de quase 15 minutos em que quase não trocámos duas palavras. Quem tem filhos adolescentes perceberá, certamente, o quão difícil é manter uma conversa longa com estas criaturas.
Assim que passámos a entrada, fomos logo recebidos com um sorriso: “Podem ver a exposição aqui no rés do chão e no primeiro andar”.
As paredes têm o testemunho dos traços, das expressões e do talento de Pablo Picasso. Limitei-me a ver as peças e a apreciar as reações do meu pequeno adolescente.
E foi na cerâmica exposta no primeiro andar, que percebi que os olhos do miúdo se arregalaram. “Olha mãe, a cara que está neste prato tem um nariz que parece uma banana”. E parecia mesmo. Picasso também é isto. É vermos o que ele pintou e aquilo que parece que ele pintou.
De cada vez que convenço o meu filho a ir ver uma exposição, espero que ele encontre a sua “Vitória de Samotrácia”. Não que seja um connoisseur de arte, mas que veja coisas guiadas pela imaginação de outros e que o deixem de boca aberta.
No regresso a casa, não se calou um minuto. “Quanto é que achas que vale aquilo que ali está dentro?”; “Não percebo como é que as pessoas gastam tanto dinheiro em coisas que não são assim tão lindas”, e o clássico “Tenho a certeza de que conseguia fazer melhor do que aquilo”.
Não interessa o que é dito ou as conclusões a que chega. O importante é que ele partilhe ideias e que fale do que vê. Senhores, isto para mim é uma arte. Adorei ver Picasso.
A exposição, organizada pela Câmara Municipal de Oeiras e pela c2c Creación y Gestión de Proyectos Culturales e a Fundação Fran Daurel, está no Palácio Anjos de terça a sexta-feira das 10 às 18 horas. Aos sábados e domingos das 12 às 18 horas, até 30 de abril.








