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Os dois portugueses que fizeram a EN2 à boleia — e contam tudo no YouTube

O Andamente é um projeto sonho, com histórias e viagens contadas em vídeo. A última foi esta aventura pela Route 66 nacional.
Os amigos Francisco e Daniel.

Para quem cresceu nos anos 80, 90 e até no início do milénio, o conceito de boleia poderá despertar sentimentos contraditórios: por um lado, era na altura um meio de viagem natural para milhares de jovens, sobretudo nas suas férias — quem não se lembra de ver dezenas de pessoas com cartazes com o destino escrito, nas bombas de gasolina do Algarve. Por outro, despertava sempre um receio latente: ainda que nem sempre infundado, estava associado em parte a vários filmes que surgiram então.

Hoje em dia, andar à boleia em Portugal deverá ser, é a perceção geral, mais raro — mas será assim tão impossível? Foi essa a dúvida que assolou dois jovens portugueses e que os levou à procura de respostas. O objetivo: descobrir se ainda é possível e viável andar a apanhar boleias, um meio de transporte que em teoria, pelo conceito de partilha, é até mais amigo de ambiente.

A este associado, também outro objetivo: a ideia de alimentarem o seu projeto sonho, ou o Andamente. Trata-se de um canal de YouTube (e página de Instagram), onde Francisco e Daniel, de 23 e 24 anos, partilham regularmente as suas aventuras, viagens, ideias e criações.

Quanto ao local escolhido para a experiência, foi uma decisão fácil: a Estrada Nacional 2, provavelmente a mais conhecida e mítica em Portugal. Ela é, aliás, chamada por muitos de Route 66 nacional pela sua antiguidade, história e dimensão: atravessa o País de norte a sul, de Chaves a Faro.

Os dois amigos de infância decidiram então juntar a sua curiosidade e vontade de fazer a estrada com o repto de descobrir como é, em 2021 (ainda por cima em pandemia), andar à boleia em Portugal.

“Muitos disseram que em Portugal o povo é mais conservador e receoso em confiar num desconhecido. Sem sabermos o que esperar, apanhámos um autocarro para Chaves com o único objetivo; de chegar a Faro, em três dias, só à boleia”, explicam no seu canal.

Aqui, acrescenta-se que o Andamente é um projeto “que ambiciona viver a vida de uma forma espontânea, sem medos e sem arrependimentos”, explicam os jovens. “À medida que temos uma nova história para contar, iremos apontar na nossa lista para que daqui a uns anos possamos olhar para ela e sentir orgulho no que fizemos” adiantam ainda.

Os dois amigos são então Daniel Estima, de 24 anos, um engenheiro biomédico de Lisboa; e Francisco Albuquerque, 23 anos, licenciado em gestão de informação e agora freelancer e editor de vídeos, que também mora na capital.

Os dois são amigos “desde que tínhamos dois anos”, explicam à NiT, até porque sempre viveram perto um do outro, em Macinhata do Vouga. “Em crianças brincávamos na rua e planeávamos aventuras juntos, por isso é uma amizade que já vem de há muito tempo antes de surgir o projeto”, acrescentam.

A NiT entrevistou os criadores do Andamente para saber tudo sobre o projeto e sobre a experiência da EN2, o País de norte a sul, em três dias e à boleia.

O que é este projeto? No que consiste, como surgiu a ideia e quando começou?
No verão de 2018 fizemos um interrail pela Europa e sentimos uma liberdade inexplicável, uma adrenalina que nunca tínhamos sentido antes, além de que terminámos essa experiência com imensas histórias no bolso, que nos irão marcar para sempre.

No entanto, nessa altura não tínhamos pensado em gravar a viagem, pelo que acabámos por ter algumas fotografias mas ficámos com pena de não termos nenhum registo em vídeo, através do qual pudéssemos mesmo reviver aqueles momentos.

Com esse pensamento em mente, decidimos criar um canal de Youtube com o objetivo principal de contar e dar vida a estas histórias, histórias de desconforto, superação, desafios, viagens e acima de tudo, de crescimento. Ao contarmos as nossas aventuras, acreditamos que vamos ser capazes de criar uma comunidade de pessoas que vivem com a mesma filosofia, pessoas que não têm medo de arriscar e de viver o incerto, e até mesmo das que têm medo e que o querem combater, mas não sabem bem como.

Quais são os vossos grandes objetivos? O que já fizeram e concretizaram, o que falta fazer?
O nosso objetivo é ser uma das maiores referências no Youtube em Portugal, porque acreditamos que este tipo de conteúdo ainda tem muito por ser explorado, especialmente a nível nacional.

Das várias aventuras que já fizemos destacamos sem dúvida, a viagem ao Líbano (onde andámos à boleia, conhecemos locais, fomos recebidos para jantar em casa de famílias libanesas). Mas mesmo cá, já criámos um restaurante de 5 estrelas no nosso apartamento, corremos uma maratona com apenas um mês de treino e desafiámos desconhecidos na rua para uma corrida de karts.

Temos uma lista enorme de coisas que ainda nos faltam fazer: subir ao Everest, criar uma série na Netflix, passar uma noite na Antártida e fazer um braço de ferro com o Ronaldo… A lista continua, e por muito que alguns desafios pareçam impossíveis, é precisamente essa sede de desconforto e de provar que é possível que nos move a querer fazer mais e mais.

Porquê a experiência da boleia? Por ser à partida mais amigo do ambiente, pela aventura?
A boleia surgiu precisamente por causa da aventura no Líbano. O nosso “amigo” libanês deixou-nos sem dinheiro, sem telemóvel e sem comida no meio do Líbano. O objetivo era conseguir encontrar o caminho de volta para Beirute, dependendo apenas da bondade das pessoas que fosse conhecendo. A verdade é que foi uma experiência única, não só fomos ajudados e recebemos boleia de imensas pessoas, como algumas até nos convidaram para as suas casas… Acabou por ser extremamente positivo, porque foi uma forma muito próxima de conhecer a vida local de um país novo.

Quando partilhámos o vídeo, muita gente disse que nunca teríamos conseguido fazer este desafio em Portugal, por ser um País mais fechado e menos disponível para ajudar neste tipo de situação. De forma a colocar isto à prova e mostrar que o nosso País não está de todo desconectado e que as pessoas estão sim disponíveis para se ajudar umas às outras, rumámos a Chaves com o objetivo de chegar a Faro em apenas três dias.

Como correu? E o que pensam sobre os riscos desta prática?
Claro que existem sempre riscos, porque cada boleia é uma experiência diferente, que tanto pode correr bem como mal. No entanto, escolhemos acreditar que quando as pessoas vissem alguém a pedir ajuda, a empatia iria prevalecer, e que iríamos efetivamente ser ajudados.

E acabou por correr tudo muito bem  ao longo dos três dias apanhámos boleias de 13 pessoas, cada uma com a sua história. E com todas elas aprendemos um bocadinho.

Para onde vão de seguida e o que planeiam fazer na continuação do projeto?
O Francisco está neste momento no Panamá a fazer voluntariado num hostel e vai partilhar toda a experiência, assim como várias curiosidades sobre a viagem e desafios. Ele quer provar que o mundo é um lugar incrível e que seja no Panamá, no Líbano, ou em Portugal, encontramos sempre pessoas espetaculares que têm o poder de desafiar as nossas crenças e perspectivas.

O Daniel está em Portugal a treinar para um IronMan, uma prova recomendada apenas para profissionais porque equivale a dois quilómetros de natação, 90 quilómetros de bicicleta e 21 de corrida. Ele vai provar que qualquer pessoa pode ser um atleta desde que treine e acredite que é possível.

Quais as vossas inspirações?
A nossa maior inspiração é um canal americano chamado YES Theory! Já assistimos aos vídeos há bastante tempo e até já tomámos grandes decisões na nossa vida por nos identificarmos tanto com a sua forma de encarar a vida. Um dos nossos objetivos é um dia conhecê-los e fazer um vídeo em conjunto com eles.

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