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O desconfinamento pode deixar os animais deprimidos — mas há formas de o evitar

As mudanças na dinâmica da família podem levar a que eles desenvolvam estados depressivos ou outras patologias.
Há cuidados a ter.

Com o desconfinamento a acontecer por fases, os portugueses sonham com um regresso à normalidade possível, o mais breve que for suportável pela crise pandémica; procuram, novamente, readaptar-se, gerir mudanças, ajustar rotinas. Tudo isto nos afeta e, acreditam vários especialistas, afeta também os nossos animais.

Segundo o veterinário Bruno Santos, fundador da Dr. Bigodes —uma empresa que foi das primeiras em Portugal de serviços de veterinária ao domicílio, ainda antes da pandemia —, é importante termos em atenção o que podemos e devemos fazer para “desconfinar” os nossos melhores amigos, ou seja, como é que devemos ajudá-los a adaptarem-se a uma nova realidade.

Na realidade, até aqui, os animais de estimação estiveram sempre com os donos em casa, exceção feita aos passeios quando é disso caso; e foram ironicamente beneficiados pelos dois confinamentos, ao terem muito mais companhia do que o habitual. Contudo, agora a dinâmica da família vai mudar e existem certos cuidados a ter com os animais para que não desenvolvam estados depressivos, ou outras patologias.

A NiT falou com Bruno Santos, sobre os perigos para os animais destas mudanças, os sinais de alerta e os cuidados a ter.

Quais os riscos que os animais correm com o desconfinamento?

O desconfinamento trará de volta rotinas antigas, mas acima de tudo será uma mudança desafiante nas nossas vidas e na dos nossos animais de estimação. Com o desconfinamento à porta e a alteração de hábitos, os nossos animais poderão sentir maior ansiedade e entrar em estado depressivo, além dos riscos que corremos se houver um descuido nas medidas preventivas que até então tínhamos presentes tais como a higienização das patinhas do nosso cão após um passeio.

Desconfinar não pode ser sinónimo de facilitismo. Há que ir preparando o nosso animal para a alteração de rotinas e manter os hábitos de higiene que foram criados até então de forma que o desconfinamento seja o mais seguro possível para todos.

O que podem os animais sentir com estas mudanças?

Os animais foram dos que mais sentiram quando confinámos há cerca de um ano atrás e, serão, agora, durante este desconfinamento, novamente uns dos principais afetados. À semelhança do que se verifica com as pessoas, também os nossos animais são seres que gostam de rotinas e se adaptam bem quando estas existem.

Uma alteração radical nas suas rotinas poderá despoletar comportamentos de ansiedade, medos, ou até fobias que se podem traduzir em situações de ladrar excessivamente a outras pessoas e/ou animais ou até mesmo manifestações de agressividade, esconderem-se, roer objetos, urinar e/ou defecar em locais inapropriados e diferentes dos habituais, deixar de comer/beber…dependerá de animal para animal.

O que é que é diferente para eles quando as pessoas voltam às suas rotinas normais?

Podemos dizer que acima de tudo os animais vão ter os seus tutores menos tempo disponíveis para eles por não estarem em casa e, o tempo que os animais passarão sozinhos bem como a alteração de hábitos como hora da comida, número de vezes que vai à rua com eles, poderá tornar-se num problema, ainda para mais se esta transição for feita de forma abrupta.

A título de exemplo, se durante o confinamento passeia o seu cão três vezes por dia e se após o desconfinamento voltar à rotina que tinha anteriormente, o passeio com o seu cão for somente de uma vez por dia, saiba que esta mudança pode desencadear um estado depressivo no seu animal de estimação.

Que cuidados essenciais devemos ter?

O mais importante será tentar manter as rotinas o mais parecidas possível e ter em atenção que qualquer alteração deve ser introduzida de forma lenta. Desta forma, é importante que mesmo antes de desconfinarmos organizemos o nosso dia de forma a começarmos desde já a introduzir pequenas alterações como, por exemplo, o horário dos passeios do seu cão, assim como, a duração destes. A hora do dia em que alimenta o seu animal, também, deve ser o mais aproximada possível do horário que irá cumprir quando desconfinar.

Neste momento, enquanto não volta à sua rotina antiga pode, em jeito de dica, realizar alguns exercícios/atividades com o seu animal, ou seja, começar a sair de casa durante pequenos intervalos de tempo que vai progressivamente aumentando de dia para dia, sendo, sempre, importante que sempre que saia e entre evite, durante cerca de quinze minutos, o contacto físico com o seu animal.

Os riscos ou efeitos diferem de animal para animal, de espécie para espécie?

Naturalmente que animais diferentes poderão reagir a esta mudança de rotinas de forma distinta. Sendo que alguns reagirão melhor do que outros. Uma grande diferença é entre cães e gatos, os cães precisam mais dos tutores por serem mais dependentes, ao contrário dos gatos que são mais independentes, contudo também estes podem apresentar sinais de estado depressivo semelhantes aos do cão, caso não exista uma preparação adequada para o desconfinamento.

Quais os sinais de alerta de uma possível “depressão”?

No caso dos nossos animais de companhia não podemos falar, necessariamente, de depressão mas sim de estados depressivos que, poderão manifestar-se e traduzir-se em alterações comportamentais que se manifestam de forma variável e individual, não sendo, portanto nada fácil identificá-los, contudo é importante ficar atento a sinais como: lamber excessivamente as patas, urinar ou defecar em locais diferentes do habitual, pequenas mudanças no comportamento, escavar buracos, destruir objetos, comportamentos agressivos com pessoas e outros animais que até então não tinha, anorexia, vómitos, diarreia, prostração ou até recusar festas. Estes ou até mesmo estados mais sérios de doença que decorram das alterações anteriores, podem ser alguns sinais que o seu animal está deprimido.

O estado depressivo, se não for identificado, pode a longo prazo revelar-se um problema sério a nível comportamental que poderá necessitar da intervenção de vários profissionais nomeadamente o médico veterinário e até mesmo um treinador de animais que possa instituir ferramentas que possam ajudar em determinadas alterações comportamentais.

Quão comum é um estado depressivo nos animais e como deve ser gerido?

O facto de o animal representar um ser dotado de sensibilidade poderá trazer-lhe determinados estados depressivos decorrentes de mudanças/ alterações na sua rotina, por exemplo. Podemos referir que a não verbalização do que sentem e a capacidade que possuem para camuflar a doença poderá dificultar a identificação destes estados depressivos, acabando por se subdiagnosticar estes problemas. O diagnóstico e consecutivo tratamento requer muito trabalho e paciência do tutor com o animal. É o tutor do animal que terá o papel principal em identificar pequenas mudanças no seu animal de companhia e transcrever estas mesmas mudanças para o seu Médico Veterinário.

Apesar de existirem vários fatores que podem desencadear estados depressivos, tenha especial atenção aos seguintes: Perdas por morte ou abandono, Introdução de um novo animal sendo ele da mesma espécie ou não, Mudança de ambiente ou de rotina subitamente, Fome, frio ou sede, Exposição a situações traumáticas. De forma a ter sucesso no tratamento deverá trabalhar em consonância com o seu médico veterinário, confiando e seguindo as orientações dadas por ele.

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