Se num dia de semana pela manhã, ou até mesmo a um sábado, atravessar a pé a Praceta Dionísio Matias, é provável que repare num cheiro característico e que leva a perceber que está perto de um mercado. O responsável é João José Bértolo, vencedor de peixe fresco no Mercado de Paço de Arcos há mais de 40 anos.
Chegou a Lisboa com apenas quatro anos, acompanhado da família, que trouxe de Vila Viçosa, no Alentejo, pouco mais do que uma mala cheia de sonhos e a personalidade bem vincada dos conterrâneos que deixaram para trás.
“Viemos morar para a Abóboda e fui estudando até ingressar na Força Aérea, em 1978”, conta João, de 65 anos, à New in Oeiras. Depois de oito anos, o jovem alentejano decidiu escolher o amor em vez da carreira profissional. “Na altura fiquei classificado entre os 10 melhores alunos e tinha de i viver para os Açores, mas desisti da Força Aérea para casar”.
Começou por trabalhar noutro mercado, também como vendedor de peixe, mas foi há cerca de 40 anos que se mudou para o Mercado de Paço de Arcos, onde detém até hoje detém o título de um dos comerciantes mais antigos do espaço. “Quando vim para cá não havia uma banca vazia. Agora está ao abandono, sem condições e com pouca oferta”, lamenta.
Acordar de madrugada para receber o peixe no mercado
Apesar dos tempos difíceis que o comércio local atravessa, há rotinas que não mudam e as de João são iguais há muito anos. “De segunda para terça-feira e de quinta para sexta-feira levanto-me à meia-noite. Nos restantes dias tenho de estar no mercado pelas 3h30 ou quatro da manhã para receber o peixe”.
Na banca do alentejano é possível encontrar os peixes habituais, de mar ou viveiro, como “garoupas, douradas, chocos ou sargos. Tenho tudo, desde peixe fresco e marisco”, conta.
Por lá não falta opção e bom aconselhamento, o que para João é um dos pontos fortes do comércio local. “Aqui recebemos as pessoas e damos soluções para o que procuram, com opções mais baratas, se necessário, e os melhores peixes para os diferentes cozinhados”, explica.
“Tenho clientes muito antigos, que se tornam amigos. E isso é o ponto positivo do comércio local. Às vezes faço entregas a clientes que já não conseguem vir até aqui, outros que podem estar a passar períodos com mais dificuldades. Deixo que me paguem quando tiverem dinheiro. Estamos aqui para sermos uns para os outros”, diz.
Além da profissão antiga, segundo João, “o alentejano só descansa, não dorme”. Como tal, ao longo dos anos cultivou uma paixão que poucos conhecem. “O meu maior hobby é o de ontem”.
João Bértolo apaixonou-se pela fotografia depois de uma oferta especial do pai: uma máquina digital. “Tenho um portfólio de Cascais e Oeiras com fotografias antiquíssimas, algumas peço à população mais velha para guardar.”
Da coletânea, as imagens que mais gosta são as do Mercado de Paço de Arcos, onde eram feitos antigos bailes com petiscos, com a banda Carlos Ribeira mais 4. “São tempos únicos que gosto de recordar com carinho”.
Carregue na galeria para ver as fotografias da banca.

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