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Entrevistámos a família oeirense que está a dar a volta ao mundo num barco à vela

Os Outeiro partiram da Marina de Oeiras em outubro. Vão estar dois anos em viagem contínua, com paragens em destinos de sonho.
De Oeiras para o mundo.

À primeira vista, a família Outeiro é semelhante a muitas outras famílias em Portugal. O pai Tomás, a mãe Patrícia e as duas filhas adolescentes, Maria e Teresinha, têm casa em Oeiras, onde o patriarca nasceu. A grande diferença é que, juntos, decidiram trocar o quotidiano de um emprego fixo e a rotina de uma escola física, por uma vida em alto mar. Pelo menos, durante dois anos. 

Tomás, de 46 anos, um apaixonado pelo mar desde sempre, juntou-se à alma aventureira de Patrícia, 50, que há muito ansiava por explorar os cantos mais remotos do mundo. Desta união resultaram duas filhas que não só partilham estas paixões, como trazem outro olhar sobre as aventuras vividas a quatro. Maria, de 17 anos, com talento para as palavras, viaja através das suas histórias; e Teresinha, de 15, caracteriza-se como uma “pequena caixa de ideias criativas”, com vontade de partilhar o seu mundo com quem a rodeia. 

A grande decisão foi tomada em família. Decidiram abandonar tudo para velejar pelo mundo. “Com o coração cheio de emoções, decidimos batizar o nosso projeto de ‘4 n’alheta’. A ideia é que, quando nos colocamos n’alheta, estamos abertos a novas experiências e oportunidades incríveis por todo o mundo”, referem. 

A partida aconteceu no dia 17 de outubro, com saída da Marina de Oeiras, num barco de modelo Oceanis 473 Clipper da Benneteau, chamado “My Love”. À viagem chamaram: “O Sonho Azul: Uma Jornada de Inspiração e Descoberta”. Durante esta “jornada épica em família”, como a caracterizam, prometem ir partilhando todas as novidades e momentos emocionantes através do Instagram.

Para trás fica a posição de Tomás Outeiro como chefe da divisão de gestão de ativos na Cascais Ambiente e de Patrícia como secretária da administração na mesma empresa. Já as miúdas continuam a estudar, agora com aulas online.

A New in Oeiras falou com o pai, Tomás Outeiro, para saber tudo sobre esta aventura, cujo trajeto irá passar pelas Galápagos, Polinésia Francesa, Austrália, Timor-Leste, Brasil, Cuba, Estados Unidos, entre outros destinos.

Como surgiu esta ideia de dar a volta ao mundo num barco à vela?
Já há algum tempo que falávamos de um dia deixar tudo e arrancar. Eu já tinha feito uma viagem muito grande, da Austrália para Portugal, na altura da Expo98. A Patrícia não tinha quase experiência, apesar de já termos dado vários passeios e feito umas regatas no Tejo. Entretanto iniciou-se uma cadeia de eventos: há dois anos o meu sogro morreu, com o sonho por concretizar de dar uma volta ao mundo, uns amigos e familiares ficaram doentes muito novos, com miúdos pequenos, etc. Tudo isto nos fez parar e questionar para quê ficar à espera da reforma, que quando lá chegarmos nem deve existir. Neste País começa a ser muito difícil ter uma vida e carreira sustentável e conseguir passar os valores corretos aos nossos filhos. Vendemos tudo e arrancámos. 

Que tipo de formação náutica têm?
Eu tenho carta de Patrão de Alto Mar. A Patrícia e as miúdas têm de Marinheiro.

Quanto tempo tiveram para preparar a viagem? E que tipo de preparação fizeram?
Na realidade, fizemos tudo em cerca de seis meses. Inclui a seleção e compra do barco que, se formos a ver, é o meio mais económico de fazer um projeto destes. É um ativo que posteriormente poderá ser vendido. Quanto à roupa que trouxemos é fácil, vamos para sítios quentes, por isso só precisamos de calções e T-shirts e mais umas coisitas. Entretanto, comprámos um contentor marítimo para guardar as restantes roupas e mobílias, etc. Em relação à comida, temos muitos enlatados e conservas, e vamos obtendo produtos frescos nos locais de paragem (e muita água potável!).

O que vos motivou a trocar a segurança pelo desconhecido?
Esta ideia de segurança, é um sentimento enganador. Estamos muito seguros e temos a vida equilibrada e, de repente, podemos ter um acidente, uma doença, seja o que for, e olhamos para trás e nunca chegámos a fazer nada. Os nossos filhos também têm de perceber que existe todo um mundo lá fora. E há experiências que de outra forma não viveríamos. 

A Maria e a Teresinha têm aulas online. Aceitaram bem esta mudança? Como é que se conjuga a escolaridade com esta aventura?
A Maria está no 12.º ano e a Teresinha no 10.º. Inscrevemo-las numa escola americana, a Brave Generation Academy (atualmente tem hub em diversos pontos do mundo), que tem este conceito de escola online com learning coachs que vão acompanhando o desenvolvimento, com reuniões semanais, e as aulas são descarregadas via Internet. Ao início a Maria não queria, mas depois de comentar com os amigos, eles disseram-lhe que tinha muita sorte e, então, foi aceitando. Pelo contrário, a Teresinha adorou logo a ideia e motivou-nos imenso.

Quantos países planeiam visitar?
Não temos bem certeza. Muitos dos que pensámos, podemos ir ou não. Temos uma rota pensada, mas que poderá sempre ser alterada. O trajeto vai acompanhar, tanto quanto possível, a linha do Equador, através do canal do Panamá, sendo uma adaptação da tradicional circum-navegação de Fernão de Magalhães. 

Quais as paragens feitas até ao momento? 
Até final de novembro, estivemos em dois países: Las Palmas, Espanha e Cabo Verde, durante cerca de cinco dias em cada. Estamos agora a caminho de Grenada, nas Caraíbas. Neste momento preciso estamos no meio do Oceano Atlântico (12° 10 N; 52° 18W), há 13 dias (saímos de Mindelo, Ilha de S. Vicente no dia 17 de novembro). Serão 2200 milhas de travessia.

Qual a maior distância que vão atravessar por mar entre um destino e outro, sem parar?
Contamos ser no Oceano Pacífico, do Panamá até às Ilhas Marquesas. São 3300 milhas, que vão demorar cerca de 30 dias a navegar.

Partilham a viagem através de que plataformas?
A rede que temos alimentado com mais regularidade é o mesmo o Instagram. O nosso site está desatualizado, pois a Internet em alto mar é dispendiosa e temos de tentar canalizar para uma só rede e para as escolas das miúdas.

Quando será feito o regresso a Oeiras?
Julgo que deverá ser algures em 2025, mas vamos ver… 

Carregue na galeria para ver algumas imagens desta grande aventura da família Outeiro. 

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