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Cuidado com as burlas nas casas: há sites falsos em Portugal a imitar o Airbnb

A NiT descobriu um anúncio de arrendamento no Facebook. Para marcar uma visita, era preciso pagar renda e caução. Tudo falso.
Uma das fotografias da casa.

“Quando a esmola é grande o pobre desconfia” é um dos ditados populares mais conhecidos no nosso País. E foi exatamente isso que aconteceu no dia 10 de maio, segunda-feira, quando a NiT descobriu um anúncio de arrendamento através do Marketplace do Facebook. 

Com o título “Apartamento/Condomínio com 1 quarto e 1 casa de banho”, o anúncio dava conta de um apartamento na Rua Prof. Simões Raposo, no Lumiar, em Lisboa. As fotografias mostravam um espaço renovado, todo decorado, e a descrição referia o preço de 500€ de renda mensal, incluindo aquecimento central, água, eletricidade, Internet, TV, e um lugar de estacionamento na garagem do prédio.

Além disso, eram referidos os “acabamentos de luxo”, aspiração central, cozinha totalmente equipada Bosch, vidros duplos e estores elétricos. Não é preciso morar na capital para saber que este valor, sobretudo com estas indicações, é algo impossível de achar.

Foi aí que decidimos investigar melhor. Após um contacto via Messenger, a proprietária do apartamento apresentou-se como Maria, fornecendo um email para mais informações.

Depois de pedir que o contacto fosse feito em inglês, Maria apresentou-se como sendo uma italiana com 54 anos e diretora de uma farmacêutica em Milão. Afirmou que o apartamento tinha sido comprado para a filha, que teria estudado em Lisboa, mas que estaria de regresso a Itália, de forma permanente.

Devido ao seu emprego, Maria não poderia vir a Lisboa mostrar a casa a nenhum interessado, mas teria uma solução — num outro email, o problema da visita já se devia à pandemia do novo coronavírus. A alegada proprietária acabaria por enviar um link e explicar que estaria a trabalhar com o Airbnb.

Para marcar uma visita ao apartamento era muito simples: bastava reservar uma estadia através desse link, pagar um mês de renda e a caução (num total de 1000€) e só depois agendar com a equipa. Prometia Maria que se a visita não agradasse ao interessado, o próprio Airbnb devolvia o valor total (os 1000€).

Não foi muito difícil perceber que se tratava de uma fraude, se por acaso existissem dúvidas até aqui. O link enviado era em tudo igual a uma página de alojamento do Airbnb, com possibilidade de estadia prolongada, mas era falso. Maria está assinalada como Super Host, existem comentários de quem já teria ficado na casa por um mês ou mais, e no segmento final da página, as hiperligações remetem mesmo para o Airbnb — como é o caso dos Termos de Serviço.

Porém, a própria página é que não pertence à plataforma de alojamento. O Airbnb tem como homepage o site “airbnb.pt”, enquanto que este link começa com “alrbnb-pt”. Se pesquisarmos por essa homepage, ela simplesmente não existe. Se carregarmos no logotipo do Airbnb também não nos remete para a homepage da plataforma, como seria normal.

No entanto, as semelhanças entre esta landing page e um alojamento no site oficial da plataforma são assustadoramente reais. A página que permite a tal reserva e pagamento foi enviada através de um email, também ele semelhante a uma comunicação do próprio Airbnb, com a referência que irá expirar em 24 horas, mas com um endereço que não pertence à plataforma. Quanto ao anúncio no Facebook, a NiT deixou de o encontrar esta manhã, dia 12 de maio, acreditando que tenha sido retirado.

A NiT entrou em contacto com a Deco para perceber o que se pode fazer neste tipo de situações, e como denunciá-las. “Existem dois cuidados a ter, um de prevenção e outro de reação. Para se tentar percecionar uma fraude no digital, existem dois indicadores nos sites que são muito importantes. Por um lado o ‘S’ de security, e por outro o cadeado verde, que indicam que o site onde navegamos é seguro”, explica-nos Mariana Almeida, jurista da Deco.

Tipos de letras estranhos, ou muitos erros ortográficos podem ser outro indicador de que algo não está bem. “No caso de um arrendamento no Airbnb, podemos sempre tentar recorrer ao apoio ao consumidor da própria plataforma, caso duvidemos da veracidade de um determinado anúncio.”

Seja para arrendamento, ou qualquer compra digital, tente sempre que a conversa saia exatamente do online. Peça um número de telefone ou caso não consiga, então um email, e tente perceber se quem está do outro lado está dentro do assunto e parece de confiança. “Dentro das redes sociais é mais difícil de percebermos com quem estamos a falar. E a regra de ouro, claro, é nunca dar dinheiro sem ter o produto. No caso das casas, o mais seguro é pedir uma visita; caso more alguém na casa, pode-se pedir um encontro à porta para ver o imóvel por fora, ou então pedir um contrato prévio.”

Caso note que está perante uma burla, tendo ou não efetivado o pagamento, dirija-se à esquadra da polícia mais próxima de si para proceder a uma denúncia, explica a jurista. Mas atenção, deve ir munido de todos os recursos que comprovem a fraude. “Assim que começamos a notar alguma estranheza, devemos logo começar a fazer print screens de tudo. Se acabar por se verificar ser uma burla, devemos levar todos os print screens, conversas e horários para a polícia, sob o risco de não existirem provas suficientes para a denúncia avançar.”

A NiT entrou ainda em contacto com a plataforma de alojamento de Airbnb. “Os websites de terceiros não têm nada a ver com a Airbnb. A Airbnb fornece uma plataforma segura para as pessoas encontrarem, reservarem e listarem alojamento único em todo o mundo”, responderam.

Em declarações, a plataforma adiantou ainda que no seu site se encontram técnicas para identificar um link ou email genuíno do Airbnb, e que é ainda possível reportar este tipo de fraudes, que seguem depois para investigação e remoção. “Se chegar a um site que parece o Airbnb através de um link via email, assegure-se que o endereço contém ‘https://’ e não contém outros caracteres ou palavras estranhas”, acrescentam.

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