na cidade

A incrível história dos seis adolescentes que sobreviveram numa ilha deserta

Queriam viajar mas acabaram presos no meio do Pacífico. A aventura dos miúdos de Tonga continua a fascinar 50 anos depois.
A experiência foi recriada para os fotógrafos

Cansados da escola e do seu pequeno mundo na ilha de Ha’afeva, no arquipélago de Tonga. Entre os seus habitantes, que não ultrapassavam as duas centenas, estavam seis adolescentes que numa tarde de 1966 decidiram meter-se numa aventura.

Sonhavam com as grandes ilhas que rodeavam a sua terra natal, Fiji, Nova Zelândia, Austrália. Terminadas as aulas, os seis amigos foram até à praia, roubaram um barco e lançaram-se ao mar.

Não sabiam, então, que só regressariam a casa 15 meses depois. E que mais de 50 anos depois, ainda estariam a responder a perguntas sobre tudo o que lhes aconteceu durante esse louco e selvagem período da sua vida.

“Quando deixámos de ver as luzes de Nuku’alofa [o porto de onde saíram] era já madrugada e o vento começou a soprar mais forte, as ondas começaram a crescer. Uma tempestade veio e não nos lembrámos de fechar a vela, que acabou por ser arrancada pelo vento”, explica à “Vice” Sione Filipe Totau, conhecido por Mano, hoje com 74 anos. 

Assustados, alguns choravam, outros tentavam usar pequenas latas para armazenar água da chuva. “Tentámos manter-nos esperançosos, mas eu estava preocupado com a possibilidade de morrermos ali.”

Sem forma de o conduzir de volta a terra, o grupo ficou à deriva sem água ou comida. Ao fim de oito dias, a 160 quilómetros do local de partida, avistaram terra. Não sabiam onde estavam, apenas que tinham rapidamente de sair do barco para sobreviver.

O vento aproximava-os lentamente da costa da pequena ilha, onde chegaram já de noite. Mano decidiu tomar o assunto pelas próprias mãos e nadar até à ilha sozinho. “Não saiam do barco até eu perceber o que se passa na ilha”, disse antes de se atirar à água.

Quase uma semana sem comer e beber, foi um milagre ter conseguido combater as ondas para chegar até à ilha vulcânica. Estava tudo seguro. Os outros cinco seguiram o exemplo e reuniram-se finalmente em terra, abraçados e a chorar. Escaparam à morte no alto mar — mas não estavam salvos.

Vida de náufrago

Acordaram ainda confusos com o nascer do sol. Foram obrigados a escalar as escarpas montanhosas. “Calquei um pedaço de madeira que estava encharcado. Peguei nele, parti-o aos pedaços e espremi-os na mão, que depois lambia. Era a primeira água que bebia em oito dias”, confessou Mano.

“Quando chegámos ao topo, sentimo-nos vivos. Calcávamos terra firme e isso deu nos mais esperança do que quando estávamos à deriva no mar.”

Depois do descanso e das orações, era necessário planear uma possível longa estadia na ilha de Atu. Caçaram aves marinhas, beberam-lhes o sangue para matar a sede e comeram os seus ovos. Acabaram por construir uma pequena cabana, precisaram de três meses para conseguirem fazer a primeira fogueira e habituaram-se a caçar. A dieta era simples: peixe, bananas e papaias. Era suficiente para sobreviver.

A vida na ilha nem sempre foi pacífica — e nunca, de todo, divertida, explica Mano. Apesar de estarem sozinhos, os seis adolescentes nem sempre se entendiam.

Desesperados pelo regresso a casa, ao fim de um mês na ilha tentaram construir uma jangada para escapar. A tentativa foi um falhanço: a pequena embarcação de madeira limitava-se a boiar junto às margens. “Percebemos que nunca sairíamos dali.”

“Nunca fomos felizes ali. Estávamos num sítio que não sabemos onde fica, sem a família, claro que não estávamos felizes. Só ficaríamos felizes ao ver novamente a nossa família.” Entretanto, em Ha’afeva, os pais e irmãos organizavam os funerais para os desaparecidos.

A liberdade

Mais de um ano depois de chegarem a Atu, avistaram pela primeira vez um barco. Aproximava-se rapidamente da ilha e um dos rapazes não esperou: atirou-se às ondas e nadou até à embarcação que pertencia a Peter Warner, um aventureiro australiano que navegava pela zona.

Segundo Mano, alguém da tripulação terá dito a Warner ter ouvido uma voz humana. “Não, isso são os pássaros”, terá respondido o capitão. A verdade é que, momentos depois, avistavam um rapaz no meio das ondas. A abordagem foi feita com cautela.

Do barco, viam os outros cinco rapazes na praia, nus e de cabelos compridos. “Eles estavam com medo de nós”, explica Mano ao “The Guardian”. “Nadámos todos em direção ao barco mas o senhor Warner não baixou a escada. Felizmente, um de nós falava inglês e conseguimos responder a algumas questões.” 

Desconfiada, a tripulação colocou-lhes questões sobre Tonga, para se certificar de que diziam a verdade. Quando perceberam que o desespero era real, acolheram-nos e levaram-nos de volta à sua ilha.

“Não consigo explicar como nos sentimos, estávamos lavados em lágrimas, felizes, como se caminhássemos no paraíso.”

O regresso foi agridoce. Chegados a Tonga, foram imediatamente detidos, acusados de roubo pelo dono do barco. Só conseguiram escapar graças a Warner, que vendeu a sua história a um canal australiano e usou o dinheiro para reembolsar o dono do barco, que retirou a queixa.

O grupo voltaria a Ata para alimentar o frenesim da comunicação social, fascinada pela história improvável dos seis miúdos. Mais de cinco décadas depois, a aventura continua a ser relatada pelos sobreviventes.

Apesar do trauma, Mano continua convicto de que aprendeu mais naqueles 15 meses do que numa vida na escola. “Aprendi mais na ilha. Aprendi a confiar em mim próprio, a perceber que não importa quem és, de que cor é a tua pele, qual a tua raça. Se estás metido num problema, farás tudo o que tens que fazer para sobreviver.”

MAIS HISTÓRIAS DE OEIRAS

AGENDA