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Uma doença trouxe-o para Portugal. Hoje é um dos jardineiros mais procurados de Oeiras

Sem experiência na área, começou do zero e tornou-se num nome conhecido entre clientes de várias freguesias.

Tinha 15 anos quando reparou nas pequenas manchas nas pernas. Viveu com elas até que, uma década depois, elas se tornaram impossíveis de ignorar. Percebeu que ia precisar de tratamentos médicos, fez as malas e deixou Cabo Verde rumo a Portugal. O que era para ser uma estadia breve prolongou-se por mais 30 anos. Hoje é um dos jardineiros mais requisitados de Oeiras.

Nataniel Évora nasceu na ilha de São Vicente, em 1967, formou-se em contabilidade e, aos 18 anos, já trabalhava na área. Atualmente, com 59 anos, conta com mais de 12 clientes fixos no concelho. “O cliente mais antigo que tenho fica em Caxias, há 25 anos que lhe trato do jardim, quase todas as semanas”, conta à NiO.

“Fui muito feliz em Cabo Verde, vivia com os meus pais e quatro irmãos, a cinco minutos da praia. O meu pai trabalhava numa escola e a minha mãe era doméstica, nunca nos faltou nada”, recorda. Tirou um curso profissional de contabilidade e rapidamente entrou no mercado de trabalho, na empresa Congel. “Lembro-me do meu primeiro ordenado, ganhei 10 contos, que hoje são 55€. Um terço dava à minha mãe, outro guardava e o resto gastava no cinema. Íamos às escondidas, porque a zona pertencia a uma igreja que não era a nossa e o meu pai não gostava”, diz.

Mais tarde, em 1988, mudou-se para a Enacol, ainda na área da contabilidade. Foi nessa altura que percebeu que o problema na perna estava a agravar-se. “Tinha 15 anos quando apareceram umas manchas, tipo eczema, na perna esquerda. Fui ignorando, mas começaram a subir e percebi que tinha de tratar disso a sério”, explica. Decidiu então viajar para Portugal em busca de tratamento.

Instalou-se no Seixal, em casa de uma tia, e começou os tratamentos. Para não ficar parado, inscreveu-se num curso de contabilidade com componente informática, no Barreiro. “Era para ficar dois meses, mas o tratamento demorou mais. Tive de prolongar a estadia”, conta. Com o tempo a passar, começou a fazer pequenos trabalhos. “O primeiro foi no Restelo, deram-me uma picareta para abrir um buraco junto de um cano. Foi complicado, porque eu só sabia trabalhar com uma caneta”, admite.

O diploma que trazia de Cabo Verde tinha pouco peso em Portugal. Ainda pensou seguir programação, por sugestão de um professor, mas acabou por não avançar. “Era muito novo, tinha 24 anos, estava num país diferente e tinha outras prioridades.” Para se sustentar, trabalhou numa fábrica de montagem automóvel em Palmela. Foi aí que percebeu que não iria regressar a Cabo Verde.

O tratamento prolongou-se durante anos e a vida foi acontecendo. Em 1993 conheceu aquela que viria a ser a mãe do seu filho, que nasceu em 1995. Nesse mesmo ano surgiu a oportunidade que mudaria tudo: começou a trabalhar numa cooperativa de jardinagem em Paço de Arcos, a convite do sogro. Mudou-se para Tercena e entrou num mundo totalmente novo.

“O meu primeiro trabalho foi a 1 de maio de 1995, no Dia do Trabalhador. Foi um teste, num jardim público em Caxias”, recorda. Aprendeu com colegas mais experientes e foi assim que se adaptou. “Custou-me pensar que podia ter seguido outro caminho, ganhar mais dinheiro e ter uma vida mais fácil. Sentia que tinha perdido o comboio. Mas hoje vivo em paz e sou feliz.”

Os primeiros anos foram exigentes. Trabalhava das 8 às 17 horas na cooperativa e, depois, fazia trabalhos por conta própria para criar a sua carteira de clientes. “Não tinha carro, andava de transportes com as máquinas em sacos. Cheguei a fazer mais três jardins sozinho depois do trabalho”, conta. Sempre focado no concelho de Oeiras, foi ganhando clientes em zonas como Paço de Arcos, Caxias e Oeiras São Julião da Barra. Em 2012, quando a cooperativa fechou, já estava preparado para seguir sozinho.

Hoje tem mais de 12 clientes fixos e vários trabalhos pontuais. “Neste momento estou com mais de 20 trabalhos ao mesmo tempo. Vou gerindo a agenda, normalmente com rotatividade de duas semanas. Num dia, com ajuda, consigo fazer sete ou oito trabalhos”, explica. Faz de tudo um pouco: “corto e aparo a relva, faço plantações, limpo folhas, monto jardins de raiz, trato dos arbustos”.

Nos meses de inverno, adapta-se. “Trato dos lixos e ajudo no que for preciso, para compensar quando não posso trabalhar com as máquinas. Nunca tive um cliente que deixasse de pagar por causa da chuva, e isso vale muito.”

A reputação tem crescido e já ultrapassa Oeiras. “Tenho pessoas a ligar-me de vários sítios, nem sei como conseguem o meu número. Há pouco tempo ligou-me uma senhora do Estoril para fazer um jardim. Ainda hoje não sei como me encontrou”, diz, entre risos

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