Foi um tiroteio, em 2007, perto da escola frequentada pelo filho Lucas, que levou Lucia Pereira, de 50 anos, e Alessandro Pereira, de 52, a perceberem que o Brasil já não era o País onde queriam viver. Nesse mesmo ano mudaram-se para Portugal e começaram uma nova vida. Anos mais tarde, depois de vários trabalhos e de um burnout, Lucia acabaria por criar um projeto pioneiro no mundo do surf: a ReSurf Wax, uma marca sustentável de wax, a cera à base de parafina que os surfistas aplicam nas pranchas para aumentar a aderência e evitar escorregadelas.
“O Alessandro trabalhava com comunicação visual e eu estava há 10 anos numa agência de publicidade. Mudámos a nossa vida por completo porque o nosso principal objetivo era dar segurança ao nosso filho. Saímos de Florianópolis para vir para Alcântara”, conta Lucia à NiO.
Quando chegou a Portugal, Lucia começou a trabalhar na área do retalho, enquanto Alessandro entrou para uma agência de eventos. “Faço surf desde os 12 anos e, assim que cheguei a Portugal, tinha vontade de voltar. Comecei a surfar na Costa da Caparica e surgiu uma oportunidade para trabalhar numa fábrica de reparação de pranchas”, explica Alessandro.
Em poucos anos percebeu que existia uma oportunidade de negócio. “Fui percebendo que, em Portugal, a maioria dos surfistas pedia a empresas externas para repararem as pranchas e que muitas não eram tratadas da melhor forma. Eu tinha experiência e percebi que era fácil conquistar clientes.”
Em 2013 criou a AC DC, sigla para “Antes do Conserto, Depois do Conserto”, numa referência à sua banda preferida. A empresa dedicava-se a reparações e arranjos de pranchas de surf.
Em 2022 sentiu necessidade de abrir um espaço fixo. Além das reparações, Alessandro já vendia pranchas em segunda mão e outros artigos ligados ao surf. Foi em Queijas que encontrou o local ideal. “Na altura, eu trabalhava como gerente de cinco lojas e tive um burnout. Vim para casa durante algum tempo, mas não conseguia ver o Alessandro a trabalhar tanto sem o conseguir ajudar”, recorda Lucia.
Um ano depois, decidiu começar a ajudá-lo na loja com pequenas tarefas. “Comecei por limpar pranchas, que no fundo é retirar o wax antigo. Por dia limpava mais de 20 pranchas e demorava cerca de 20 minutos em cada uma”, conta. Foi então que começou a reparar num detalhe. “Retirava muito wax, fazia pequenas bolas e percebia a quantidade absurda de resíduo que ia para o lixo. Deixou de fazer sentido, sobretudo porque o surf é um desporto muito ligado à natureza.”
Depois de algumas pesquisas, encontrou números que reforçaram a ideia. Em Portugal existem cerca de 150 mil surfistas regulares e cada um utiliza, em média, nove barras de wax por ano. “As trocas são constantes, mas os atletas de competição podem usar até 15 barras anuais, o que é imenso.”
Lucia começou então a procurar uma solução sustentável. “Lembrei-me de que o Alessandro, quando era mais novo, guardava o wax no frigorífico para durar mais tempo. Funcionava, mas não era o ideal porque já estava gasto e sujo.”
Decidiu fazer testes. Numa das limpezas guardou o wax retirado das pranchas, derreteu-o e voltou a colocá-lo em moldes para reutilização. “Dei ao Alisson para experimentar num treino, mas percebia-se que ainda não estava bem. Tinha areia, cabelos e partículas dos fatos.”
Mesmo assim, não desistiu. Começou a usar peneiras e filtros para remover todas as impurezas até chegar à fórmula certa. “O processo é simples. Depois de remover o wax, ele passa por filtros e peneiras, volto a aquecê-lo, coloco nas formas e deixo secar. Fomos dando a amigos para testarem até chegar ao resultado final. O mais importante era garantir aderência, uma cor esbranquiçada e um cheiro a tutti frutti, para lembrar a infância.”
Demorou cerca de um ano até chegar ao produto final. Em 2024, aos 50 anos, Lucia lançou oficialmente a ReSurf Wax, pioneira na reciclagem de wax para surf. “Conseguimos reciclar cerca de 70 por cento do produto, o que é ótimo.”
Desde então, já venderam mais de 500 barras. “Fomos convidados para participar em eventos como uma conferência sobre sustentabilidade na NOVA SBE e também no Surf Festival, na Ericeira, que aconteceu este mês.”
Lucia produz cerca de 18 barras por fornada. “Demoro praticamente um dia inteiro. Entro de manhã, por volta das 11 horas, e só saio à noite.” Cada barra pode durar entre um mês e um mês e meio, dependendo da frequência com que a prancha é utilizada.
As barras têm 70 gramas e custam 4,20€. Além da loja em Queijas, estão disponíveis na 58 Surf e em duas lojas Ericeira Surf Shop, no Algarve. “Os clientes podem deixar os resíduos de wax nas lojas ou trazer aqui para voltarmos a transformá-los.”
A ReSurf Wax tem atualmente duas versões. A azul foi pensada para o inverno e é indicada para águas mais frias. “É mais mole e acaba por ganhar mais aderência. Quando entra em contacto com a água fria endurece.” Já a verde foi criada para o verão. “É indicada para temperaturas mais altas e por isso é mais rígida”, conclui.








