Glória Anselmo, de 60 anos, viveu toda a sua vida em Oeiras. Em 1981, com apenas 16 anos, começou a trabalhar pela primeira vez na copa de um restaurante que viria a marcar muitas gerações. “Lembro-me de ser bem pequena e de se falar muito do novo restaurante que ia abrir em Caxias. Fui trabalhar para a copa, foi o meu primeiro emprego”, contou em exclusivo à New in Oeiras. O restaurante chamava-se Mónaco e viria a tornar-se um marco, tanto pela importância política, como pelas diferentes personalidades que recebeu e que ajudaram a fazer deste um espaço icónico, que ficou até hoje na memória de muitos portugueses.
Fundado em 1956 por dois sócios, o empresário Manuel Outerelo Costa e o maestro Shegundo Galarza, fez correr muita tinta nos jornais nacionais e internacionais por ser frequentado tanto pela alta sociedade, como por estrangeiros famosos. Hoje, permanece a dúvida: qual será o destino do mítico edifício que deu nome à famosa curva com vista para o Tejo?
Já se contaram muitas histórias, principalmente sobre quem por lá passou. Esta será diferente — é a história de quem trabalhou durante muitos anos naquele espaço emblemático.
“Foram os melhores anos da minha vida”
“Estive naquela casa mais de 15 anos e arrisco-me a dizer que foram os melhores da minha vida”. A oeirense acabou por sair do restaurante poucos meses antes deste falir e ficaram muitas histórias.
“Era considerado o melhor restaurante da linha naquele tempo e sentíamos o peso disso. Recebemos pessoas de vários cantos do mundo e, na altura, não era assim tão comum ouvir-se falar em inglês aqui em Portugal”, confessa.
O espaço era amplo, com dois pisos, sendo o primeiro reservado para a área das refeições e o segundo, no rés do chão, para as duas cozinhas, o refeitório dos empregados, a lavandaria, os escritórios e as salas de arrumação.
“O primeiro piso tinha muitas salas, só com mesas redondas com vista para o Tejo. O restaurante era todo em vidro, com janelas por todo o lado, ninguém queria ficar de costas para o mar. Lembro-me bem que foi das primeiras vezes que vi um chão em alcatifa, todo forrado, e a pista de dança era em madeira, para se ouvirem as pessoas a dançar.”
Por lá fizeram-se muitos almoços icónicos, como o de Mário Soares e Cavaco Silva, em 1986, bem como batizados, casamentos, copos de água e festas privadas. “Nunca sabíamos que figuras públicas vinham ao restaurante, não havia nenhuma preparação especial porque nós já estávamos preparados. Tínhamos orgulho em representar aquele espaço e éramos sempre profissionais”.
Quem frequentava o restaurante Mónaco eram figuras da alta sociedade e do jet-set lisboeta. “Passou por aqui muita gente, lembro-me de ver o Herman José, Tozé Brito, Lili Caneças, entre muitos outros artistas. E depois vinham os mais importantes, como deputados, arquitetos, engenheiros, médicos, que não conhecíamos, mas sabíamos que tinha muita relevância”, confessa.
Os jantares aparentavam ser “normais”, mas a elegância do espaço refletia-se no comportamento dos clientes, que pouco se notavam, mesmo em dias de maior movimento. “A maioria das vezes tínhamos a casa cheia, mas não se ouvia um barulho. As pessoas eram silenciosas, calmas, via-se que eram clientes com um requinte fora do comum — só se ouviam os talheres”, recorda.
Havia música ao vivo todas as noites, com bandas convidadas, e o espaço estava aberto até às duas horas da manhã, altura em que se tornava um bar dançante. E apesar de discretos, eram poucos os clientes que não aproveitavam a pista de dança.
Os funcionários estavam vestidos a rigor e a função era servir da melhor forma. “Os clientes não faziam nada, só tinham de levar o garfo à boca. Eles preparavam o prato nos carrinhos de apoio, tiravam as espinhas aos peixes, cortavam as carnes, faziam tudo.”
A primeira vez que viu servirem um café no Mónaco, Glória ficou chocada. “O funcionário trazia um balão de vidro com café e no carrinho, à frente do cliente, acendia uma vela por baixo, que aquecia o café lentamente e ia mexendo até ficar feito. Demorava quase 10 minutos”, conta.
A comida era requintada, da melhor qualidade, sendo os pratos mais procurados o marisco e peixes. “Um dia, um colega provou um pouco de lagostim que tinha sobrado. Disse que o sabor era tão bom que ficou a recordar o sabor durante uma semana”, diz Glória, entre risos.
Além do espaço de refeições, a casa tinha elevador de cargas e descargas, pouco visto naqueles tempos, e uma das poucas coisas que se sabe: havia uma sala própria para guardar as loiças. “Tínhamos de guardá-las porque algumas peças, como pratos e taças, tinham o nome do restaurante e certos detalhes em ouro”.
A tragédia no Mónaco que poucos conhecem
Como eram uma casa de prestígio, sofreu várias tentativas de assalto, mas a maioria passava despercebida, porque acabavam por não correr bem. Ainda assim, há uma madrugada nos anos 80 que nunca se apagou da memória de Glória. “O Manuel, um colega nosso, ficava de vigia à noite no restaurante. Uma noite, dois rapazes de Lisboa entraram pela janela da cozinha que ficava virada para a linha do comboio e bateram-lhe”, recorda.
“Ele tinha uma hérnia e, depois do espancamento, precisava de ser socorrido. Tal não aconteceu, acabou por falecer no bar do restaurante”, diz.
Na tentativa de fazerem aquele que seria o assalto do ano, os dois jovens depararam-se com um cofre vazio e o que tinham era apenas comida. “Como havia muitas tentativas de assalto, os patrões nunca deixam lá dinheiro. Sem conseguirem roubar o que queriam, decidiram comer tudo o que já estava preparado para o dia seguinte, desde marisco a cataplanas. Comeram do melhor e fugiram”.
Com o passar dos anos, a fama do restaurante acabou por se desvanecer, tendo o espaço sido encerrado em 2008.
Já foi uma fábrica de conservas que virou casa de chá. Ficou famoso quando se tornou no Restaurante Mónaco e, depois de tantos anos, está atualmente num adiantado estado de degradação. Em 2013, acabou por ser vendido a uma empresa espanhola por 800 mil euros, mas ainda assim foi mantido ao abandono.
De acordo com o Jornal de Negócios, em 2021, um franchisado da Remax (Maxgroup) estava a comercializar o imóvel, mas pouco se sabe sobre o desenvolvimento do negócio.
Carregue na galeria para ver fotografias inéditas do interior do espaço nos anos 50.

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