fora de casa

fora de casa

Nem o coração o pára: Artur é o carteiro mais conhecido de Paço de Arcos

A saúde obrigou-o a optar por um giro menos exigente, mas continua a fazer 11 quilómetros por dia, entre cartas e abraços dos moradores do bairro.

São cerca de 15 mil passos por dia, mais de 11 quilómetros percorridos pelas ruas que conhece como a palma da mão. Naturalmente, Artur Alves é também uma das caras mais conhecidas entre os oeirenses de Paço de Arcos. O carteiro de 60 anos tornou-se uma figura familiar no bairro e garante que, para muitos, já é quase um amigo.

“Há quem vá ao ginásio todos os dias, este é o meu e pagam-me para o fazer”, conta à New in Oeiras, que o acompanhou num dos seus percursos, preenchido com cumprimentos, acenos e conversas rápidas com os moradores.

Trabalha nos CTT há 27 anos, mas a vida profissional começou muito antes, aos 21, depois de terminar a escola. Entrou para a Lisbonense, uma conhecida sapataria no centro de Lisboa, onde ficou durante 16 anos. “Trabalhei todos aqueles anos na parte do balcão e no escritório. Foram bons anos”, recorda.

Em 1999, decidiu mudar de vida. “Soube que havia uma vaga nos CTT através do meu irmão e aventurei-me.” Começou por trabalhar na zona mais central de Oeiras e, há cerca de 10 anos, passou para Paço de Arcos.

Um enfarte obrigou-o a mudar de percurso e procurar um giro menos exigente fisicamente. “Como tive um problema de saúde colocaram-me neste giro. É mais plano, não tem tantas subidas e faz-se melhor”, explica.

Cada giro divide-se até três zonas. No caso de Artur, o trabalho passa sobretudo pela área junto ao Mercado de Paço de Arcos e ruas circundantes. Faz todo o percurso a pé, sempre acompanhado pelo carrinho de distribuição. “Venho de carro de Oeiras, onde fica o centro de distribuição. Depois faço tudo a pé. Demoro uma manhã a distribuir centenas de cartas e encomendas.”

  

O percurso raramente muda, embora o volume de trabalho seja imprevisível. “Depende muito dos dias e da quantidade de encomendas que os moradores façam.” Nos últimos tempos, as cartas das Finanças e os avisos de IMI têm dominado as entregas. Já no início do ano, o destaque vai para a correspondência dos condomínios. E depois há a época mais intensa de todas. “Se há dúvidas sobre a nossa melhor altura, é o Natal.”

Faça chuva ou faça sol, Artur continua a cumprir o giro com afinco. E garante que o inverno é a verdadeira prova de resistência. “Costumo dizer que no verão toda a gente gostava de ser carteiro, agora no inverno é outra história.” O último foi particularmente duro. “Não me lembro de um inverno tão rigoroso desde que trabalho nos correios.” Houve dias seguidos de chuva intensa que ainda não esqueceu. “Depois de me molhar a primeira vez, já não sinto o resto. O problema é quando chego a casa. Este ano cheguei a usar mais de cinco pares de sapatos por semana, porque não secavam para o dia seguinte.”

A pandemia trouxe outro tipo de desafio: o silêncio. “Foram tempos muito tristes, éramos os únicos na rua. Havia muito silêncio e pouca vida.” Recorda também a desconfiança inicial das pessoas. “Pediam para deixarmos os pedidos à porta e afastarmo-nos.”

Apesar de ser um trabalho muitas vezes solitário, Artur acabou por criar laços com muitos moradores. “Há quem me ofereça cafés e doces. Acabo por conhecer muitas pessoas e ser também uma companhia.” Há gestos simples que se repetem há anos: “Tenho uma moradora que vem sempre à janela dar-me os bons dias”.

Ao longo de uma década, viu miúdos crescerem, famílias mudarem e vizinhos desaparecerem. Vai acompanhando, à distância, a vida de quem mora em Paço de Arcos e mantém especial atenção aos moradores mais isolados.

Embora continue a gostar do que faz, admite que o esforço físico pesa cada vez mais. “Quero fazer mais uns três anos e depois parar. Já não tenho capacidade para andar tanto e carregar tanto peso.” Ainda assim, preocupa-se com o futuro da profissão. “Espero que a profissão de carteiro nunca acabe, mas tenho medo. Mais até por quem fica sem a companhia ou o hábito de nos ver todos os dias.”

ARTIGOS RECOMENDADOS