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Há mais de 20 anos que os vizinhos de Nova Oeiras transformam o bairro numa grande feira de rua

Organizam passeios para observar aves, oficinas e noites de jogos. A próxima festa é a feira de rua, no domingo, 11 de outubro.

Miúdos a vender os brinquedos com que já não brincam, vizinhos com compotas e bijuteria e pequenos negócios do bairro que aproveitam para se dar a conhecer. No domingo, 11 de outubro, as bancas voltam a ocupar o Átrio Central para mais uma edição da Nova Oeiras Acontece, uma feira de rua criada pelos próprios moradores.

Entre as 11 e as 19 horas há também ioga, zumba e uma conversa com a artista Raquel André. A iniciativa é organizada pela Associação de Moradores de Nova Oeiras (AMNO), que há mais de 20 anos tenta aproximar quem vive no bairro, ao mesmo tempo que acompanha os problemas locais e leva propostas dos moradores à Câmara.

A associação foi fundada em 2004 por um grupo de vizinhos que queria preservar a identidade de Nova Oeiras, o bairro desenhado pelo arquiteto Luís Cristino da Silva, marcado pelas seis torres, galerias cobertas e jardins. Desde então que a AMNO tem servido de ligação entre os moradores e a Câmara Municipal de Oeiras, a junta de freguesia e o Gabinete de Apoio Local de Nova Oeiras (GALNOV). “É um bairro muito residencial, com pouco comércio, um bocadinho fechado sobre si mesmo. Queremos protegê-lo, mas também dinamizar a vida de quem cá mora e trazer quem não o conhece”, explica à NiO Rita Sousa, arquiteta de 53 anos e tesoureira da direção.

A Nova Oeiras Acontece é provavelmente a iniciativa mais visível desse trabalho. As bancas instalam-se debaixo das palas do Átrio Central, à volta de um jardim e de um lago, numa zona sem carros. “Isto é do bairro. Vende-se de tudo um pouco. Coisas em segunda mão, doces, bijuteria. Há moradores com pequenos negócios que nós nem conhecíamos, coisas mais manuais”, diz Rita.

Enquanto conversava com a NiO, a tesoureira foi ao arquivo do site da associação tentar descobrir quando tinha acontecido a primeira edição. Acabou por encontrar uma coincidência que nem a própria organização tinha percebido: a primeira Nova Oeiras Acontece realizou-se precisamente a 11 de outubro de 2008. Este ano, 18 anos depois, a feira regressa no mesmo dia.

Na estreia, participaram 28 bancas, 20 delas de moradores, e centenas de pessoas passaram pelo átrio, que tinha acabado de ser recuperado. Nos anos seguintes, a feira chegou a ter duas ou três edições anuais, acompanhadas por música ao vivo, pinturas faciais para os miúdos e aulas de kizomba no relvado junto ao lago. “Antes da Covid, cheguei a ter de recusar feirantes, porque não havia espaço físico para se instalarem como deve ser”, conta Rita, que gere as inscrições.

A pandemia interrompeu esse crescimento. A edição prevista para maio de 2020 foi cancelada e a feira só começou a recuperar o ritmo nos últimos dois anos, embora ainda com menos bancas. “Sabemos que agora há muita oferta, muitas outras atividades. Vamos tentar que a coisa continue a acontecer.”

A edição de 11 de outubro será a 34.ª e começa às 11 horas com uma aula de ioga dada pela professora Bia, do Ginásio Palmeiras, que funciona no Clube Escola de Ténis de Oeiras, no próprio bairro.

Às 15 horas, a artista Raquel André, autora do projeto “Coleção de Pessoas” e de espetáculos como “Belonging” e “Começar Tudo Outra Vez”, participa numa roda de conversa aberta a todos e sem tema definido. Uma hora depois, às 16 horas, o professor Telmo, também do Ginásio Palmeiras, dá uma aula de zumba. Todas as atividades são gratuitas e não exigem inscrição e quem quiser ter uma banca pode inscrever-se através do e-mail eventos@nullamno.pt.

O programa começa bem antes da abertura das bancas. Às 8h30, o ornitólogo Ricardo Tomé guia um passeio de observação de aves que parte da porta do Centro Social Paroquial de Nova Oeiras e termina precisamente no Átrio Central. “Não foi programado, calhou assim, por causa da disponibilidade do guia. Acaba por ser um dia inteiro mais ocupado”, diz Rita. O passeio também é gratuito e não exige inscrição.

As aves fazem parte da história da associação há quase duas décadas. Em 2007, a AMNO lançou o Projeto Jardim Vivo, fez um levantamento das espécies existentes no bairro e colocou caixas-ninho nas árvores. Dois anos depois, publicou a brochura “Aves de Nova Oeiras”, em parceria com a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. O último passeio de observação, realizado no domingo, 22 de março, juntou dezenas de participantes.

Só em 2026, a associação levou cerca de 20 moradores a descobrir as árvores do bairro com o botânico Fernando Catarino, organizou uma oficina de bunho com o artesão Manuel Ferreira, um dos últimos em Portugal a trabalhar esta planta, e recebeu os Urban Sketchers, que passaram uma manhã de fevereiro a desenhar as ruas de Nova Oeiras.

Na quinta-feira, 24 de setembro, estreou ainda uma noite de jogos de tabuleiro no Tigre Utópico, espaço do bairro que também cede à associação a sala onde a direção se reúne. A primeira sessão juntou cerca de dez jogadores e a intenção é repeti-la na última quinta-feira de cada mês. “Quanto mais gente souber que estas atividades existem, melhor. A ideia é mesmo promover o contacto entre os vizinhos.”

Mas nem todo o trabalho da AMNO passa pela organização de atividades. A associação acompanha também as mudanças no bairro e apresenta propostas para melhorar a zona. Participou, por exemplo, na consulta pública sobre o projeto imobiliário previsto para a antiga Fundição de Oeiras e, a 29 de março, organizou um passeio de esclarecimento que reuniu 25 moradores. Em junho, entregou à Câmara uma proposta para requalificar a Avenida Salvador Allende, com medidas para reduzir a velocidade do trânsito, criar uma ciclovia contínua e plantar mais árvores.

Está também a preparar a criação de uma comunidade de energia renovável no bairro, com candidaturas a programas europeus e os custos de instalação já orçamentados.

Podem tornar-se sócios da AMNO todos os residentes de Nova Oeiras, assim como os proprietários de casas ou frações no bairro, mesmo que não vivam ali. A inscrição é feita através de um formulário no site da associação e custa 20€: 5€ de joia e 15€ de quota anual. O pagamento pode ser feito por MB WAY ou transferência bancária.

As reuniões da direção realizam-se na última segunda-feira de cada mês, às 21 horas, no Tigre Utópico, e estão abertas a quem quiser colaborar. Basta confirmar a presença através do e-mail geral@nullamno.pt. As novidades também são divulgadas no Instagram, que a nova direção começou a alimentar em 2025.

Rita Sousa nasceu em Lisboa, mas sempre viveu em Nova Oeiras. Entrou para a associação há mais de dez anos e chegou a organizar peddy papers que levavam os miúdos das escolas do bairro a conhecer o comércio local, do barbeiro à lavandaria.

Quando o filho nasceu, afastou-se da parte mais prática, embora tenha continuado a integrar os órgãos sociais. Regressou à linha da frente quando a atual direção tomou posse, em 2025.

“Sempre morei neste bairro e acho que é, de facto, um bairro muito especial. Se eu puder dar o meu contributo para manter esta qualidade urbana e tornar o bairro um bocadinho melhor, vou fazê-lo.”

Carregue na galeria para conhecer algumas das edições anteriores da Nova Oeiras Acontece.

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