Tinha apenas 20 anos quando teve o primeiro e, até à data, o único acidente de carro da sua vida. Estava na recruta em Vila Velha de Ródão, seguia “no lugar do pendura” e um despiste provocou o pânico. Não foi um incidente menor. Todos ficaram feridos, menos António Galveia. Já o carro, “foi para a sucata”, recorda o mecânico de 72 anos, oeirense não de gema, mas orgulhoso morador do concelho desde 1993.
A paixão pelos carros começou aos 13 anos, altura em que iniciou, de forma precoce, a profissão como mecânico. A sua primeira oficina, aliás, nasceu precisamente em Oeiras, em 1993; mas essa é apenas uma das muitas aventuras que viveu e que envolveu muitos carro, das 12 viagens atribuladas aos Picos da Europa, até à organização de vários ralis pelo País fora.
“Sou apaixonado por automóveis e por perceber como eles funcionam. Comecei com 13 anos. Nunca tive muito jeito para a escola então comecei a trabalhar numa oficina perto de casa.”, conta à NiO. Nascido em Coruche, chegou a Oeiras depois da tropa, tinha pouco mais de 20 anos, “à procura de melhores condições de trabalho”. Trabalhou na Fundição de Oeiras como bate chapas durante 12 anos, até encontrar uma oficina perto do centro histórico da cidade para continuar a fazer o que mais gostava.
Depois de estabilizar, encontrou mais tempo para explorar a paixão pelos automóveis. Decidiu, em 1990, juntamente com um amigo, fundar o Clube Todo o Terreno de Oeiras, que ainda está ativo. Foi a quase todo o lado e recorda, ainda hoje, as viagens a Marrocos, onde uma enorme comitiva viajava de barco até à fronteira do país africano, que depois exploravam entre rotas arriscadas e passeios.
Foi nessa altura que comprou um dos seus mais queridos automóveis, o seu primeiro todo o terreno, o bem português UMM, sigla da União Metalo-Mecânica, onde foi criado o modelo em 1977, para se tornar numa das criações automóveis mais emblemáticas de Portugal. Feito com o objetivo de servir como trator agrícola, rapidamente se afirmou como um todo o terreno, utilizado por polícias, bombeiros e militares. Hoje é um clássico de culto e símbolo de aventuras.
Para António, o todo o terreno foi um símbolo de memórias e loucuras entre amigos. “Fiz os melhores passeios da minha vida: a Rota das Mós, um trajeto de cinco quilómetros em Porto de Mós, Leiria, com amigos. Fazíamos percursos no meio da vegetação, em poças e mato. Tivemos várias vezes que desatascar os carros e chegámos a ficar mais que uma hora presos na lama”, recorda.
Na memória guarda a dúzia de incursões todo o terreno pelos acidentados Picos da Europa, no norte de Espanha. “Eram passeios difíceis porque íamos sempre no inverno e estava muito frio, mas eram trajetos acessíveis até porque nessa altura íamos com a família, mulheres e filhos.”, conta.

Além dos passeios, os anos 90 ficaram marcados na vida de António por ter conseguido fazer o “melhor negócio de sempre”, isto é, trocar um Carocha por um mero tubo de escape. “Houve um cliente que me apareceu na oficina a precisar de um tubo de escape para um carro, mas era muito caro e com a mão de obra ainda ficava mais”, recorda. “Disse-me que não tinha aquele dinheiro e eu sabia que ele tinha um Carocha, já velho. Fiz a proposta e ele aceitou”, relembra entre risos. Apesar de ter necessitado de muito trabalho, hoje, o veículo é a sua “maior relíquia”.
Nem sempre as aventuras o colocavam ao volante. Já no final dos anos 90, entrou para o Clube Aventura, um grupo que organizava passeios de automóveis e fazia parte da organização de ralis e corridas. “Fiz mais de 25 corridas e rallys, como ajudante dos técnicos oficiais. Estávamos lá para apagar fogos, como trocar pneus ou ajudar na mecânica”, conta.
As bajas, termo utilizado para nomear os rallys, consistem em corridas de mil quilómetros pelo País. Acontecem em diferentes terrenos, mas António cobriu a maioria “no baixo Alentejo e Ribatejo”. “Lembro-me de um episódio, em que tivemos de desatascar o carro do piloto Carlos Sousa, no rio Sorraia, que ficou preso num rio e nem o trator o conseguia puxar. Perdeu uns 30 minutos de corrida”, diz.
“Foram anos muito felizes, parecia que vivia naquele mundo das corridas”, recorda, antes de revisitar as provas 24 horas, que eram “as mais desafiantes”. Tal como os pilotos, os mecânicos têm de ficar acordados durante todo o dia. “Eram exigentes, ficávamos ao frio e estávamos distribuídos por quilómetros. Éramos dois a cada 20 quilómetros e tínhamos de revezar os sonos, as horas de refeições.”
Nesses eventos, havia corridas mais calmas, em que não tinham de intervir, mas outras eram mais difíceis. “Chegámos a ter de socorrer carros capotados umas cinco vezes e era complicado porque, muitas vezes acontecia durante a noite e eram precisos mais de quatro homens”, conta.
A última corrida que fez foi em 2018, em Fronteira, uma localidade a 50 quilómetros de Portalegre, mas o entusiasmo mantém-se. “Quando não ia trabalhar ia ver, levava tendas, ficava a dormir por lá só para assistir. Por agora estou numa pausa, mas quero e sei que vou voltar às corridas e passeios. É a minha paixão.”
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