fora de casa

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Esta agência de Paço de Arcos cria viagens que parecem saídas de um filme

A Premium Travel Transalpino aposta em experiências exclusivas, desde hotéis improváveis a viagens de comboio de luxo pelos quatro cantos do mundo.

“Dou a volta ao mundo várias vezes por dia”, começa por brincar Celeste Ribeiro, de 56 anos, que descreve assim o seu trabalho como Premium Travel Manager da Transalpino, uma agência que aposta sobretudo em destinos e experiências invulgares. Sem sair do escritório em Paço de Arcos, organiza viagens que vão do Sri Lanka à Cappadocia, do Rio de Janeiro à Ilha das Flores, na Indonésia.

A vontade de viajar, essa, vem de longe. Desde pequena que dizia à mãe que queria voar e andar nos aviões. Celeste nasceu em Angola e veio para Portugal ainda miúda, com os pais. A família fixou-se primeiro no Norte, terra do pai, e mais tarde na Grande Lisboa. Casou-se em 1998 e foi nessa altura que passou a viver em Paço de Arcos, onde continua a viver. “Adoro Paço de Arcos”, diz, sem hesitar, quando fala do concelho onde já viveu mais tempo do que em qualquer outro lugar.

A ligação de Celeste ao turismo começou com uma licenciatura tirada no Instituto Novas Profissões, em Lisboa, concluída no início dos anos noventa. Enquanto estudava à noite, trabalhava de dia como guia-intérprete, função que exerceu durante sete anos, em inglês, francês e italiano, a acompanhar turistas estrangeiros por Portugal. Chegou a ter oportunidade de trabalhar numa companhia aérea, mas escolheu terminar antes o curso de guia, por sentir que lhe trazia mais realização profissional.

Ainda nesse período, teve uma experiência que descreve como determinante, uma passagem por um hotel de cinco estrelas na Avenida da Liberdade, em Lisboa, onde acompanhou, semana a semana, diferentes áreas do funcionamento de uma unidade hoteleira. Andou com a governanta, para perceber a logística dos quartos, passou pela equipa de banquetes, responsável pelos grandes eventos e casamentos, e esteve também na receção e nas reservas. “Gostei muito dessa experiência, deu-me a oportunidade de conhecer o outro lado”, conta.

No final da década de noventa, aceitou o convite de um operador nacional especializado nos mercados da Turquia e do Egito para organizar a receção de turistas estrangeiros que chegavam a Portugal através de voos charter. Foi ali que teve o primeiro contacto com o conceito de DMC (Destination Management Company), ou seja, a agência que trata da logística de quem visita um país, e que ainda hoje faz parte da estrutura da Transalpino. Foi também nesse operador que passou a responsável pelo departamento de reservas e, mais tarde, diretora.

Foi já casada e mãe que decidiu abrir a própria agência de viagens, em 2002, em Paço de Arcos, no espaço onde hoje funciona uma barbearia, no edifício azul de azulejo na Rua Costa Pinto. Esteve ali quatro anos, até receber uma proposta de compra de uma marca portuguesa forte no setor, a Abreu, para a qual acabou por trabalhar, com um contrato de exclusividade, durante quase doze anos.

Foi de dentro da Transalpino que surgiu o convite para Celeste liderar um novo projeto dentro do grupo. “Entrei com o projeto ainda sem ele existir”, resume, sobre o momento em que ajudou a definir, desde o início, a cor do logótipo, o site e a localização da agência. O resultado chama-se Premium Travel Transalpino, e abriu portas em Paço de Arcos há cerca de três anos, mantendo o nome histórico da empresa-mãe, mas com uma imagem e um posicionamento diferentes.

viagens à medida

Celeste em Nusa Dua, Bali

A escolha de Oeiras deu-se porque estavam a procura um espaço que respondesse à imagem que queriam transmitir, isto é, a de uma equipa pequena, dedicada, com tempo para cada cliente, longe da confusão do centro de Lisboa. A vila pareceu-lhes o cenário certo.

A Transalpino, a empresa-mãe, nasceu em 1983, com raízes em Itália, e o nome remete diretamente para os Alpes. Nos primeiros anos, dedicava-se sobretudo à venda de bilhetes de comboio para viagens pela Europa, numa altura em que o Interrail era quase um rito de passagem para os finalistas universitários. Com o tempo, quase todas as agências concorrentes dessa área fecharam portas, exceto a Transalpino, que acabou por ser comprada pela atual sócia maioritária, Elisa Carvalho, e que assumiu na altura, também, as dívidas da empresa. Foi ela quem decidiu desenvolver o projeto em Portugal, mais tarde alargado às viagens de avião, hotéis e outras áreas de negócio.

Hoje, o grupo conta com cerca de trinta pessoas, distribuídas entre a sede em Lisboa e uma loja no Porto, e organizadas por diferentes departamentos: o lazer, virado para as viagens de portugueses para o estrangeiro, os grupos, os incentivos e o próprio DMC de receção a visitantes estrangeiros, sobretudo do mercado brasileiro. A Premium Travel Transalpino, em Paço de Arcos, é a vertente mais recente do grupo, mais direcionada a viagens à medida, com um público que procura um serviço mais próximo do luxo e da personalização.

A procura por experiências únicas

Entre os destinos mais pedidos na Premium Travel está a Ásia, com países como o Japão, a Tailândia, o Vietname, o Sri Lanka e a Malásia a surgir com frequência nos pedidos que chegam à equipa. A procura reflete uma tendência mais ampla no turismo português, com cada vez mais viajantes a trocar os destinos tradicionais europeus por roteiros asiáticos, atraídos pela combinação de cultura, gastronomia e paisagens muito diferentes do que encontram por cá.

A América do Sul também tem grande procura, com o Brasil a somar-se a destinos como Peru, Argentina, Chile e Colômbia. África continua a ser um sucesso garantido, sobretudo os safáris. Ao contrário do que possa parecer, a maioria dos clientes da Premium Travel não viaja durante a época alta. As viagens acabam por ser moldadas pelo próprio destino: faz sentido visitar o Japão na época da floração das cerejeiras, entre março e abril, ou no outono, quando as folhas ganham tons quentes, tal como faz mais sentido evitar o Canadá em pleno inverno.

Na Premium Travel, o processo de trabalho começa quase sempre por tentar perceber quem é o cliente, mais do que o destino. A equipa procura saber se a pessoa prefere hotéis boutique ou resorts, cidade ou campo, experiências mais locais ou mais tradicionais, e mantém um horário alargado, até às sete da noite, sem fechar para almoço, para se adaptar à disponibilidade de quem procura o serviço. Quando não é possível uma visita ao escritório, a equipa desloca-se ao encontro do cliente ou recorre a videochamadas. “Precisamos de tempo para conhecer os nossos clientes”, explica Celeste.

Com tanto detalhe, é normal que surjam exigências invulgares, como o de um cliente que pedia sempre quartos de hotel com número ímpar, sem explicar porquê. Outro casal insistia em reservar sempre o mesmo quarto, no mesmo andar, de um hotel em Portugal, por causa da vista do pôr do sol e das boas memórias associadas àquele espaço específico, repetindo a escolha em férias de verão sucessivas.

Para quem ainda não sabe bem o que procura, o site da Premium Travel tem uma página de inspiração chamada “Momentos Únicos”, uma espécie de lista de desejos como dormir numa casa na árvore com todo o conforto, adormecer numa cápsula suspensa a mais de 300 metros de altura, almoçar num restaurante debaixo de água rodeado de fauna marinha, conduzir um carro de Fórmula 1, saltar do edifício mais alto do mundo preso a uma corda, mergulhar com tubarões, sobrevoar o Grand Canyon de helicóptero, ou assistir ao pôr do sol em Angkor Wat com todo o requinte.

Há ainda outra vertente que a equipa gosta particularmente de explorar: os comboios de luxo, entendidos como uma forma de viajar devagar, numa época em que o tempo escasseia. Entre as rotas que recomendam estão o Expresso do Oriente, o Transiberiano, o Belmond Andean Explorer, primeiro comboio-cama de luxo da América do Sul e que percorre a linha férrea mais alta do mundo, entre Cusco, o Lago Titicaca e Arequipa, o Sete Estrelas Kyushu, no Japão, apontado como um dos comboios mais luxuosos do mundo, o Rovos Rail, que atravessa paisagens africanas, e o Rocky Mountaineer, nas montanhas do Canadá.

Celeste nota que, desde a pandemia, os clientes priorizam cada vez mais o investimento em viagens e experiências, em detrimento de bens materiais. “As pessoas cada vez mais querem investir nisto, em viajar, nas experiências, em ter momentos que sabem que vão levar para a vida”, diz. Nota cada vez mais grupos de amigos a viajar juntos como se fossem família, e pais a priorizar viagens com os filhos para criar memórias, uma tendência que, na sua leitura, é o que vai continuar a diferenciar o trabalho de uma equipa humana da inteligência artificial e das reservas feitas em três cliques na internet.

As viagens que ficaram para a história

Entre as experiências mais marcantes que já organizou, Celeste destaca um pedido vindo de Nova Iorque, de um cliente ligado à produção de vinhos, que tinha alguns dias livres entre reuniões de trabalho em Istambul. Sabendo do interesse do cliente por vinho, sugeriu a Cappadocia, onde organizou uma prova de vinhos no meio das formações rochosas conhecidas como chaminés de fada, complementada por um passeio de balão. “Ele adorou, simplesmente adorou”, recorda.

Outro dos exemplos mais recentes foi um grupo de 34 amigos que viajou até à Indonésia, à procura de algo diferente do já conhecido Bali. A viagem começou em Ubud, com jantares de boas-vindas, e seguiu depois para a Ilha das Flores, mais especificamente para Labuan Bajo, onde o grupo ficou hospedado num hotel de referência e alugou um barco só para si, para visitar a Ilha de Komodo, habitat dos dragões que só existem naquela região, e a Pink Beach, praia de areia rosada. A ilha de Flores, na Indonésia, é a principal porta de entrada para ver os dragões de Komodo

A lista de programas personalizados que já organizou inclui ainda pequenos grupos para o Carnaval do Rio de Janeiro, com baile do Copacabana Palace e camarote VIP no Sambódromo, uma edição do festival Tomorrowland na neve, com voo, transfer e alojamento junto ao evento, e um Mardi Gras diferente, em Nova Orleães, entre outros.

Uma das propostas mais recentes da agência combina duas paixões: velocidade e mar. Em junho de 2026, o Grande Prémio de Mónaco de Fórmula 1 pôde ser vivido a bordo do Explora I, navio de luxo da Explora Journeys, ancorado no Porto Hercule, em primeira linha para a corrida mais emblemática do calendário automóvel. O programa juntava a adrenalina do circuito ao conforto de um iate, numa das experiências mais exclusivas do calendário internacional daquele fim de semana.

O escritório em Paço de Arcos

O espaço em Paço de Arcos distribui-se por dois pisos, decorados com fotografias de destinos como campos de arroz, piscinas rodeadas de palmeiras, templos em ruínas e o perfil de Nova Iorque ao entardecer, um convite visual permanente à viagem antes mesmo de qualquer conversa começar. A loja normalmente não abre portas ao público. O contacto faz-se sempre por marcação prévia, com apresentações personalizadas sobre destinos e hotéis, por vezes acompanhadas de um cocktail ao final da tarde.

Nas paredes, cinco quadros reproduzem o logótipo da marca, e Celeste faz questão de explicar cada símbolo com entusiasmo. Nas hélices, lê-se a referência a um avião privado ou a um helicóptero, associados a um transporte mais exclusivo e personalizado, mas que Celeste também associa, numa leitura mais pessoal, às pás de um moinho e à mitologia de Dom Quixote, ao sonho de descobrir mundos. O diamante, escolhido pela pureza e resistência do material, funciona como metáfora de um serviço de qualidade transparente e inquebrável. O barco reflete o espírito português dos Descobrimentos, as viagens que abriram caminho a novos mundos antes de tudo se fazer a pé. E as montanhas remetem tanto ao nome Transalpino como à ideia de procurar sempre um ponto mais alto, de nunca deixar de aperfeiçoar o serviço.

Viagens à medida

O gosto pela estrada é, de resto, uma marca de família. Celeste conheceu o marido, também ligado à hotelaria, no hotel Praia Mar, em Carcavelos, numa altura em que ela trabalhava como guia e acompanhava grupos franceses hospedados ali. Hoje, o marido viaja com frequência a trabalho, sobretudo para o Brasil, país que visita cerca de trinta vezes por ano. Tem dois irmãos a viver fora de Portugal, um em Angola e outro em Joinville, no Brasil, e o irmão mais novo segue também no turismo, como diretor de unidades hoteleiras em Portugal. A filha, de 25 anos, estudou numa escola internacional e fez a universidade no estrangeiro, escolheu a área financeira para a carreira, mas herdou o instinto organizador da mãe, tornando-se a amiga que trata de tudo nas viagens em grupo.

Depois de mais de quarenta países visitados ao longo da vida, com o Brasil, alguns países africanos, a Europa, os Estados Unidos e as Caraíbas entre os destinos repetidos, Celeste ainda tem uma lista longa de sítios por conhecer. Sonha com o Peru, uma passagem de ano na Argentina, a Amazónia, a Colômbia e o Equador, uma viagem de comboio antigo em África que termine junto às Cataratas Vitória, a Índia, o Vietname, o Camboja e os templos de Angkor Wat, além de um regresso ao Egito. Na Europa, gostava ainda de fazer um cruzeiro pelo Danúbio, viajar num comboio ao estilo do Orient Express, entre Istambul e Itália, e conhecer a Escócia e os países nórdicos, incluindo a Islândia, à procura da aurora boreal.

“Nós somos todos um bocadinho, como gostamos de dizer, o verbo ir. É para ir, vamos.”, resume Celeste, sobre a família que continua a organizar a vida à volta de partidas e regressos.

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