A Dona Helena não sabe viver sem o tuk-tuk. Quase todos os dias, durante o verão, a oeirense de 75 anos apanha o Oeiras Vai & Volta para ir até à praia de Paço de Arcos e, à saída, o tuk-tuk está à sua espera para a levar de volta a casa.
“Ela brinca que o serviço é o motorista particular dela”, revela entre gargalhadas Gisele Pupo, de 39 anos, uma das condutoras do serviço que nasceu em 2023 e que já faz parte do dia a dia de muitos dos moradores do concelho.
A Dona Helena está longe de ser caso único. Gracielle Netto Carvalho, de 49 anos, também já não imagina a rotina sem este transporte. “Hoje o tuk-tuk faz parte da rotina da nossa família”, explica à New in Oeiras. Lançado pela Parques Tejo em 2023 para ligar os parques de estacionamento aos centros históricos de Algés e Paço de Arcos, o Oeiras Vai & Volta tornou-se muito mais do que um serviço de mobilidade.
Gisele é brasileira, nasceu em Curitiba e vive em Portugal desde 2019. Formada em Pedagogia, trabalhou sempre em editoras no Brasil antes de emigrar. Chegou ao Vai & Volta em 2024, depois de dois anos como motorista de aplicativo. “Estava cansada do stress do trânsito todos os dias”, conta.
Um dia, viu o serviço a circular na zona onde vive, em Paço de Arcos, pediu o contacto da responsável, enviou o currículo e foi contratada na semana seguinte. Mas o que mais a surpreendeu foi a ligação criada com os passageiros. “Fiz mesmo grandes amizades”, conta.
Em Algés, outro cliente habitual, José António, oferece sempre fruta ou água aos condutores. Há também “o senhor Nunes”, antigo professor de ténis, hoje com 97 anos, que “utiliza o serviço todos os dias” e com quem Gisele conversa “sobre tudo”.
Já em Paço de Arcos, uma das passageiras mais frequentes é precisamente Gracielle. Carioca, chegou ao concelho em novembro de 2024 em busca de mais segurança e qualidade de vida e para ficar mais perto de familiares que já viviam em Portugal. Consigo trouxe o marido e a filha Manuela, de 11 anos.

Especialista na gestão de negócios, trabalha online com empresárias do Brasil e de vários países europeus, o que lhe permite conciliar uma carreira internacional com a tranquilidade que encontrou em Oeiras. O tuk-tuk foi uma das primeiras surpresas. “Não imaginava que existia uma iniciativa como esta”, conta.
Hoje, o percurso faz parte do seu dia a dia. Passa perto de casa, da casa da irmã, do ginásio, da escola da filha e do supermercado. A mãe também utiliza o serviço com frequência. “É um recurso que realmente facilita a vida de quem mora aqui.” E o que mais destaca são as condutoras.
“Elas fazem um trabalho admirável. Sempre fui recebida com muita simpatia, educação e disponibilidade. Esse atendimento faz toda a diferença e transforma um simples transporte numa experiência agradável.”
Para quem escolheu Portugal para recomeçar, o tuk-tuk tem um significado que vai além da mobilidade. “Iniciativas assim aproximam as pessoas da cidade e contribuem para uma rotina mais leve, acessível e humana. É um daqueles serviços que sentimos falta quando não temos.”
Gisele também valoriza este carinho e considera o trabalho muito gratificante. “Gosto de acompanhar as pessoas, de ajudar a tornar a rotina mais confortável”, diz.
Os números mostram isso mesmo: que o serviço conta com uma procura que continua a crescer. No primeiro semestre de 2026, os três serviços em funcionamento transportaram mais de 11 mil passageiros. Só no primeiro trimestre, Algés registou 1.898 utilizadores, mais 51 por cento do que em 2025, Paço de Arcos recebeu 1.738 passageiros, uma subida de 224 por cento, e o Parque dos Poetas contabilizou 567 utilizadores, um aumento de 91 por cento.
Em Algés, o serviço funciona todos os dias, das 9 horas às 18 horas, com ligação entre o Parque de Estacionamento Avenida e a baixa. Em Paço de Arcos, opera diariamente, das 11 horas às 20 horas, entre o Parque dos Navegantes e o centro histórico. Aos fins de semana há ainda as Voltas & Versos no Parque dos Poetas, de sexta-feira a domingo, das 9 horas às 18 horas, para percursos pelo interior do parque.
Mas mais do que um serviço utiliário, é também pretexto para convívio. No tuk-tuk há sempre conversa, sobre o bairro, sobre a vida ou sobre o dia de cada um. O serviço nasceu para ligar os parques de estacionamento ao comércio e à restauração dos centros históricos, mas foi crescendo de forma orgânica e hoje já faz parte da rotina de muitos moradores. O maior desafio, conta a condutora, é gerir as expectativas dos passageiros. “Nem sempre o tuk-tuk está disponível na altura que a pessoa quer”, explica.

Há quem peça para ser levado para destinos fora da rota, pensando que se trata de um serviço turístico ou de transporte privado. “Eu explico que tem um trajeto, como os autocarros, e a pessoa acaba entendendo.”
De vez em quando surgem também turistas, que ficam encantados com a experiência. “Muitas pessoas nunca tinham andado de tuk-tuk antes. Acham divertido, diferente”, conta.
O tuk-tuk elétrico, silencioso e sem emissões, tem uma característica que outros transportes não têm: chega onde os autocarros não chegam e mantém uma escala humana que convida à conversa. Para quem tem dificuldade em subir, existe um banco de apoio à entrada. As crianças também podem viajar, desde que acompanhadas por um adulto. Nem o mau tempo impede a circulação, uma vez que o veículo tem proteção contra o vento e a chuva.
Em Algés, a faixa etária mais representativa é a dos passageiros com mais de 75 anos, que correspondem a cerca de 27 por cento do total. Em Paço de Arcos, o perfil é diferente e o serviço atrai sobretudo pessoas entre os 25 e os 44 anos.
O serviço funciona atualmente em três operações, cada uma com o seu próprio veículo. “Temos um tuk-tuk elétrico em Algés, outro em Paço de Arcos e um golf caddy no Parque dos Poetas, são três veículos, três rotas, três comunidades diferentes”, explica Margarida Leite, de 27 anos, responsável de operações da Parques Tejo.








