Um homem transforma-se em Cupido diante do público, mas este não é um Cupido qualquer. É uma personagem inocente e sarcástica, que desafia desejos e pudores num paraíso terreno. Noutro palco, um espetáculo mistura acrobacia e comédia sobre um mastro oscilante de oito metros que se aproxima perigosamente da plateia. Estas são apenas algumas das propostas da 34.ª edição do Festival Sete Sóis Sete Luas, que regressa a Oeiras com 19 espetáculos de entrada gratuita, distribuídos entre o Parque dos Poetas e a Fábrica da Pólvora, em Barcarena.
O evento nasceu em 1993, em Pontedera, Itália, e chegou a Oeiras apenas quatro anos depois, em 1997. “A presença do festival em Oeiras deve-se ao interesse mostrado pelo presidente Isaltino Morais, que em 1996 quis enraizar no concelho um festival cultural de world music de dimensão internacional”, explica à NiO Marco Abbondanza, diretor do festival. A ligação ao concelho foi-se fortalecendo ao longo dos anos e ganhou uma nova dimensão em 2000, quando a Fábrica da Pólvora passou a integrar a rede internacional do festival. Em 2021, o festival estendeu-se também ao Parque dos Poetas, que passou a receber as apresentações de teatro e circo de rua.
A origem do Sete Sóis Sete Luas remonta a 1987, quando um grupo de estudantes de uma escola secundária de Pontedera, apaixonados pelo teatro, fundou o Gruppo Teatrale Immagini. A curiosidade levou-os até ao Alentejo, onde conheceram José Saramago. O escritor português aceitou visitar Pontedera e cedeu os direitos da edição italiana do livro “O Ano de 1993” para apoiar os jovens. Desse encontro nasceu, em 1993, o Festival Sete Sóis Sete Luas.
O que começou como uma ligação cultural entre Itália e Portugal foi crescendo ao longo das décadas. A Grécia juntou-se em 1993, Espanha em 1997, Cabo Verde em 1998, França e Marrocos em 2005, Croácia em 2008, Brasil em 2009 e Eslovénia e Tunísia em 2013. Atualmente, o festival reúne uma rede cultural de 30 cidades em 12 países, com foco na música popular, étnica e tradicional e nas artes plásticas, privilegiando territórios periféricos em vez dos grandes centros urbanos.
A missão? Promover a aproximação entre países, cidades e pessoas através da arte e da cultura. A programação cruza música, circo, teatro, folclore, gastronomia e património, convidando o público a descobrir diferentes tradições do Mediterrâneo e do mundo lusófono.
O reconhecimento internacional também chegou cedo. O festival foi aclamado por duas vezes no Parlamento Europeu, em 2009 e 2013, e, em 2023, apresentou-se na Assembleia Nacional francesa, em Paris. Ao longo da sua história recebeu duas distinções com o Prémio Caleidoscópio da União Europeia e cinco apoios do Programa Cultura da União Europeia. Entre os presidentes honorários estiveram José Saramago e Dario Fo, ambos distinguidos com o Prémio Nobel da Literatura. Atualmente, o cargo é ocupado por Jorge Carlos Fonseca, antigo Presidente da República de Cabo Verde.
Para Marco Abbondanza, os destaques desta edição são claros: as três estreias nacionais de criações multiculturais originais do festival — uma delas liderada pelo acordeonista João Barradas, reservado com dois anos de antecedência —, o regresso do Barcelona Flamenco Ballet com “Romeo y Julieta” e o circo contemporâneo nas tardes de domingo de agosto no Parque dos Poetas.
A edição de 2026 arranca no domingo, 21 de junho, às 18h30, no Parque dos Poetas, com “Somos”, da companhia espanhola Circuspunto, de Múrcia. O espetáculo reúne sete acrobatas que, através do movimento, da dança e da acrobacia, criam esculturas humanas em palco. É o primeiro de 19 eventos que vão passar por Oeiras ao longo do verão.
“O público de Oeiras merece ser homenageado”, diz Marco Abbondanza. “Em 30 anos mostrou uma grande abertura à diversidade cultural e um espírito multicultural notável. Este público é fabuloso porque não precisa de cabeças de cartaz para assistir aos nossos concertos.”
Veja em baixo a programação completa do festival.
Domingo, 21 de junho
18h30 | Parque dos Poetas
CIRCUSPUNTO (Múrcia, Espanha) — “Somos” | circo
Sete acrobatas que, através do movimento, da dança e da acrobacia, constroem esculturas vivas em palco numa linguagem comum de entendimento e confiança.
Domingo, 28 de junho
18h30 | Parque dos Poetas
CLOWN ENANO (Espanha) — “Amore” | clownerie
Um espetáculo de humor poético sem palavras, protagonizado por um Cupido clownesco, inocente e sarcástico, cheio de improviso, empatia e momentos únicos.
Sexta-feira, 3 de julho
21h45 | Fábrica da Pólvora
MED 7LUAS26 ORKESTRA (Mediterrâneo) — concerto | estreia nacional
Criação musical original do festival, sob a direção do acordeonista português João Barradas, reunindo músicos de França, Brasil, Portugal, Itália e Martinica.
Sexta-feira, 10 de julho
21h45 | Fábrica da Pólvora
PRIMITIVE ROBOT com MARCONDIRO, VALERIO CESARINI & ANDREA GERMANO (Mediterrâneo) — concerto
Um trio poderoso que une a cultura pop, a música eletrónica e a world music numa ponte entre culturas do Mediterrâneo. A sua canção “Exil Anima Migrante” venceu o concurso da Amnesty International “Voices for Freedom”.
Sexta-feira, 17 de julho
21h45 | Fábrica da Pólvora
ZIAD TRABELSI (Tunísia) — concerto
Músico tunisino, solista de oud, cantor e compositor, diretor da Orquestra Almara’a de Mulheres Árabes e Mediterrânicas. Um projeto que combina música tradicional e experimental, com forte impacto rítmico.
Sexta-feira, 24 de julho
21h45 | Fábrica da Pólvora
AGRICANTUS (Sicília) — concerto
Um dos grupos históricos da música popular siciliana, com uma viagem híbrida entre sons ancestrais, acústicos e eletrónicos, agora em formato mais intimista com a vocalista e pianista Anita Vitale.
Sexta-feira, 31 de julho
21h45 | Fábrica da Pólvora
XANTHOULA DAKOVANOU (Grécia) — concerto
Cantora e compositora com carreira internacional, cujo repertório mergulha nas tradições vocais da Grécia, dos Balcãs e do Mediterrâneo Oriental. As suas obras receberam o patrocínio do Ministério da Cultura grego por três vezes consecutivas.
Domingo, 2 de agosto
18h30 | Parque dos Poetas
DUO LAOS (Catalunha) — “Oveja Negra” | circo
Uma comédia acrobática que mistura acrobacia, tango e humor, criada pelos artistas argentinos Mercedes e Pablo, radicados em Barcelona. Já se apresentaram em festivais na Alemanha, Japão, Israel e Itália.
Sexta-feira, 7 de agosto
21h45 | Parque dos Poetas
AYOM (Angola/Brasil) — concerto
Banda multicultural com membros de Angola, Brasil, Grécia e Itália, vencedora do prémio de Melhor Grupo nos Songlines Music Awards 2021. Uma viagem emocional pelas rotas da diáspora africana, do Atlântico ao Brasil e a Cabo Verde.
Domingo, 9 de agosto
18h30 | Parque dos Poetas
VAIVÉN CIRCO (Espanha) — “Esencial” | circo
Uma companhia premiada que une circo e dança, com uma cenografia inspirada num brinquedo de arcos que se reinventa a cada momento, tal como o ser humano na sua busca pela evolução.
Sexta-feira, 14 de agosto
21h45 | Fábrica da Pólvora
JEUNESSE IX DAS CIDADES 7SÓIS (Mediterrâneo) — concerto | estreia nacional
Criação original com jovens talentos da rede Sete Sóis Sete Luas, sob a direção musical do mestre cabo-verdiano Rolando Semedo, reunindo músicos de Portugal, Valência, Grécia, Croácia e Itália.
Domingo, 16 de agosto
18h30 | Parque dos Poetas
CIRQUE ENTRE NOUS (Espanha) — “Bordeline” | circo
Um coletivo de artistas circenses unidos pela paixão pelo mastro chinês, que celebra a alegria de estar junto e provoca emoção e interação com o público.
Sexta-feira, 21 de agosto
21h45 | Parque dos Poetas
ACETRE (Extremadura, Espanha) — concerto
Um grupo lendário com quase 50 anos de carreira, formado em 1976 em Olivenza. Referência na música tradicional da Extremadura espanhola, com ritmos como perantones, fados e corridiños.
Domingo, 23 de agosto
18h30 | Parque dos Poetas
MR. DYVINETZ (Chile/Catalunha) — “Vari” | circo
Uma companhia de circo contemporâneo sediada em Barcelona que combina acrobacia, dança e teatro em espetáculos inovadores e emocionais.
Sexta-feira, 28 de agosto
21h45 | Parque dos Poetas
LUSO 7SÓIS-26 (Cabo Verde, La Réunion, Itália, Marrocos, Portugal) — concerto | estreia nacional
Criação original do festival que reúne seis artistas de culturas diversas: fado com Beatriz Felício, sanfona com Hugo Osga, música do sul de Itália com Stefano Saletti, melodias cabo-verdianas, harmonias marroquinas e percussões de La Réunion.
Domingo, 30 de agosto
18h30 | Parque dos Poetas
LES P’TITS BRAS (França) — “La Panne” | circo aéreo
Uma proeza técnica e acrobática com um mastro oscilante de 8 metros que chega perigosamente perto do público — vista pela perspetiva bem-humorada de uma personagem de palhaço.
Quarta-feira, 3 de setembro
11h | Concerto solidário no estabelecimento prisional de Caxias
LUSO 7SÓIS-26 (Mediterrâneo) Concerto
Sexta-feira, 4 de setembro
21h45 | Parque dos Poetas
BARCELONA FLAMENCO BALLET (Catalunha) — “Romeo y Julieta” | flamenco
O grande finale do festival. Uma companhia que se tornou referência do flamenco contemporâneo na Catalunha, com uma carreira internacional que passa pela China, Estados Unidos, França, Itália e muito mais.








