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Viver depois do transplante: “A cicatriz diz-me que se não a tivesse, não estaria aqui”

Aos 33 anos, Ana Rita soube que iria precisar de um transplante de rim. Hoje é um exemplo para todas as mulheres com problemas de autoestima.
Ana Rita foi transplantada em 2014

Foi de forma inesperada que o diagnóstico chegou. Confrontada com os resultados que apontavam para uma falha dos rins, a médica de Ana Rita Robalo acreditava que só poderia ser um engano do laboratório. A segunda confirmação foi inequívoca: teria mesmo que ser submetida a um transplante.

A vida da lisboeta de 43 anos foi abalada em 2012, mas o que poderia ser um pesadelo teve um final feliz. Foi transplantada com sucesso em 2014 e vive desde então uma vida mais saudável. Carrega consigo uma cicatriz, marca de guerra e de vitória, que exibe com orgulho.

Também por isso aceitou a proposta de participar numa arrojada sessão fotográfica em lingerie, organizada pela fotógrafa Dai Moraes para o projeto +MULHER, que pretende contar histórias de mulheres inspiradoras, através das suas marcas e da sua beleza.

O projeto está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras para servir de inspiração a outras tantas mulheres em situações semelhantes às suas. Estas fotografias estão acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta.

A experiência de ser fotografada em lingerie não era sequer uma experiência nova para Ana Rita. Foi precisamente numa dessas sessões que se cruzou com Dai Moraes. “Sempre achei que as sessões de boudoir eram engraçadas, permite que nos vejamos de outra perspetiva. Conheci-a numa dessas sessões e foi aí que surgiu a questão da minha cicatriz.”

A vida de Ana Rita sofreu um abanão com a notícia de que teria que ser alvo de um transplante renal. “Nunca tive problemas de saúde, à exceção de uns problemas de tensão. Isso levou-me a um cardiologista, que achou isso estranho dada a minha idade. Foi quando me mandou fazer exames a tudo”, recorda.

O resultado desses exames não deixava margem para dúvidas. Os rins tinham dimensões abaixo do normal. Um deles já não funcionava. O que restava, funcionava mal.

Psicóloga de profissão, sempre levou a sua vida de forma normal, sem sintomas. Também por isso estranhou a condição, mas não perdeu muito tempo em lamúrias. Não quis sequer fazer exames complementares para aferir a causa do problema.

“Nem quis saber. Não me interessava muito. Interessava-me apenas em saber como poderia resolver isso”, nota. A solução passava por dois processos complicados: teria que se submeter a um processo de diálise, que substituiria a função renal; e ficaria em lista de espera para um transplante, sem previsão ou quaisquer prazos.

“Acho que nem lidei muito mal com a notícia. Há aquele tipo de pessoas que fica a pensar ‘porque é que isto me aconteceu?’, mas eu não sou assim”, explica. A diálise acontecia dia sim, dia não. A hora e meia de tratamento era suficiente para arruinar o resto do dia. “Cansa muito, o dia termina por ali, embora tenha conseguido sempre continuar a trabalhar.”

Depois, veio a espera. “Pus logo de parte a possibilidade de receber um rim de um dador vivo, de alguém da família. Restava esperar que alguém tivesse um acidente, que tivesse um órgão compatível.”

A espera foi menos longa do que esperava. Na madrugada de 6 de junho de 2014, o telefone acordava-a. Chegava a boa nova: havia um dador compatível e teria que estar no hospital pela manhã.

A cirurgia demorou seis horas e obrigou a um internamento de um mês. Teve que ficar ainda mais dois meses em isolamento em casa. Saídas, só mesmo para ir às consultas. Mas tudo tinha corrido bem: os valores estavam todos estabilizados e a saúde parecia normalizada.

“Claro que é preciso sempre recordar que é uma solução a prazo. Os médicos dizem que a média dos transplantes de cadáver é de cerca de 30 anos, mas há aí pessoas que já vão nos 40”, diz. “Agora só tenho que ter alguns cuidados, tomar a medicação imunossupressora todos os dias, durante o resto da minha vida, para garantir que o organismo não rejeita o órgão.”

Sem se deixar abalar, voltou à sua vida normal, sem quaisquer complexos com a enorme cicatriz deixada pela cirurgia. “Lido muito bem com isso. Assim que saí, até queria mostrar logo a cicatriz, mas no hospital disseram-me que não podia apanhar sol. Tenho muito orgulho nela.”

A quem não encontra a mesma força e autoestima, deixa um conselho. “As pessoas olham para as marcas e pensam em tudo pelo que passaram. Olham para as cicatrizes de forma negativa, quando deviam olhar para elas e pensar que, se não as tivessem, provavelmente não estariam vivas”, sublinha.

E o que mudou na vida de Ana Rita? “Muda a nossa perspetiva de vida. Vivia muito focada no trabalho, noutras coisas. Isto ensinou-me que poderia viver mais o dia a dia. Focar-me mais em mim. É isso que tenho feito.”

Carregue na galeria para ver mais imagens da produção fotográfica de Ana Rita Robalo.

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