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“Ser diabética não é estar destinada a ter uma vida infeliz”

Luciane Schadek viu a sua vida mudar radicalmente com o diagnóstico da doença. Hoje, dá o exemplo no projeto +MULHER.
Descobriu que era diabética aos 20 anos

O pequeno círculo branco que carrega sempre consigo no braço não é propriamente discreto. Para os mais incautos, é um objeto estranho. “As pessoas viam aquilo e olhavam para mim como se eu fosse um extraterrestre. No início, incomodava-me”, conta à NiT Luciane Schadek. Para os diabéticos, a geringonça branca não só é facilmente reconhecível, como é uma das ferramentas mais valiosas na luta contra a doença.

A brasileira usa-o há quatro anos, tempo suficiente para se habituar e “já não ligar nenhuma” aos olhares indiscretos. Foi esse um dos motivos que lhe valeu um convite da colega e amiga Dai Moraes, a fotógrafa por detrás do projeto +MULHER. Luciane faz hoje parte do grupo de dez mulheres que aceitaram fazer uma sessão boudoir, em lingerie, para servirem de inspiração a outras tantas em situações semelhantes à sua. As fotografias foram acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta. A sessão está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras.

“Fiquei logo tentada e aproveitar a oportunidade de ser inspirada pela Dai e também inspirar tantas outras mulheres diabéticas que não se veem a si próprias além da doença”, explica. Aos 43 anos e a viver em Oeiras, acumula já quase duas décadas de convivência com a diabetes.

“Esta sessão fotográfica foi importante para perceber o que muitas vezes fica esquecido dentro de nós, mulheres que fazem tudo, todo o tempo. Perceber que uma doença degenerativa não significa que no meu corpo não habite a beleza”, nota. Sobre a sessão em lingerie, sublinha que foi a oportunidade certa para provar que no seu corpo “não habita só doença”.

Descobriu a patologia com apenas 20 anos. Primeiro, veio a perda de peso sem justificação, depois a sede. As dores nas pernas, sobretudo durante a noite, tornaram-se “insuportáveis”. A primeira análise detalhada ao sangue revelou um número assustador: a glicemia, em jejum, estava nos 500. O valor normal deveria estar abaixo dos 100. “Foi por pouco que não tive mais complicações. Podia até ter morrido.”

A medicação não ajudou e foi mesmo forçada a tomar insulina. “Precisei de fazer alguns ajustes complicados na minha vida, contar nos hidratos de carbono, fazer uma alimentação mais cuidadosa”, recorda. Enquanto se adaptava à doença, a curiosidade levou a melhor.

“No começo era tudo novidade e cada pesquisa no Google dava resultados assustadores. ‘A diabetes mata. O pé dos diabéticos é amputado. Há uma enorme percentagem de casos de cegueira em diabéticos.’ Com todo esse medo à minha volta, comecei a ver-me doente, feia, demasiado magra, demasiado branca, tudo era mau.”

Enraiveceu-se. Colocou-se a questão cliché. “Porquê a mim?” Passou por um período difícil até perceber como poderia controlar a doença. Ainda no Brasil, recebeu a ajuda de uma orientadora que a guiou no uso da caneta de insulina. Soube depois que, também ela, era diabética.

“Fiquei em choque quando percebi que aquela mulher, toda poderosa e dona de si mesma, também tinha a mesma doença que eu e, mesmo assim, tinha uma vida aparentemente plena”, recorda. Ver bons exemplos ajudou-a a perceber que, também ela, era capaz de lutar contra todas as dificuldades.

O apoio não foi sempre positivo. “Quando descobri que tinha diabetes, uma médica super insensível disse-me que ‘teria que lamber os beiços’ se conseguisse ter um bebé. Aquela frase, dita durante um exame ginecológico, não me saía da cabeça. Sofri durante anos, na incerteza de engravidar e de poder segurar um bebé dentro de mim.”

Aos 32, finalmente engravidou, e apesar de ter sofrido uma gravidez atribulada, devido a uma pré-eclâmpsia às 35 semanas, deu à luz uma menina que hoje tem 11 anos e é perfeitamente saudável — “não é diabética”, desabafa.

A alimentação, que poderia ter sido o maior inimigo da doença, foi na verdade a mudança “mais fácil” de implementar. “Deixar de comer doces não foi nenhum sofrimento. Hoje como-os com moderação porque sei fazer a contagem dos hidratos.”

Acertar na quantidade de insulina foi mais problemático. “Não era só a alimentação que influenciava a glicemia. Era o meu humor, o meu estado de espírito, o sono, o exercício físico. Era tudo uma novidade, mas revelou-se uma oportunidade para poder olhar para mim própria e cuidar do meu corpo.”

Depois, veio a geringonça que lhe “mudou a vida de forma radical”. “Foi uma bênção”, diz do pequeno círculo branco que carrega sempre no braço. É, na verdade, um medidor de glicemia que funciona 24 sobre 24 horas — e que evita que tenha de se picar várias vezes ao dia para saber como está o seu organismo.

“Poder medir, de segundo em segundo, à hora que quiser e sem picar dedos, sem sangue ou agulhas, e ter tudo num aparelho, é uma espécie de milagre.” Admite que “não é discreto”, muito menos porque decidiu protegê-lo com uma fita adesiva, para evitar quaisquer desprendimentos.

“A fita adesiva é mais indiscreta (risos), mas uso a que encontrar. Pode ser rosa, preto, camel. Já nem ligo muito a isso. Só quero o sensor sempre colado a mim.”

Hoje, Luciane é um caso de sucesso de convivência com a doença, mas admite que possa ser mais complicado para outras pessoas na mesma situação. “Digo sempre que devem procurar um médico que os acolha, que não se contentem com qualquer um”, nota. “A diabetes assusta e revolta, mas não mata. O que mata é a falta de informação, a falta de aceitação da doença e, consequentemente, a falta de cuidados.”

Carregue na galeria para mais imagens da produção fotográfica realizada por Dai Moraes.

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