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Paraplégica aos 27, Catarina quer mudar a forma como vemos as mulheres com deficiência

A nutricionista não se deixou abater pela condição. Hoje viaja pelo País a lutar por um mundo mais acessível e justo.
Uma mielite transversa foi a causa da paralisia.

Deveria ter sido uma viagem inesquecível. No Natal de 2016, Catarina Oliveira apanhou uma avião rumo ao Rio de Janeiro para visitar uma amiga. Uma dor nas costas fez-lhe companhia durante os primeiros dias, até que a levou mesmo ao hospital. Uma semana depois, estava internada e avisavam-na de que poderia nunca mais voltar a andar.

Seis anos depois, a portuense encara a transformação radical na sua vida como algo natural, sem lamentos ou tempo sequer para calcular as probabilidades de ter sofrido de uma mielite transversa. Hoje assume-se como uma pessoa com deficiência que luta por um mundo mais justo, mais acessível. Por isso, transformou-se em ativista e consultora pela acessibilidade e representação — profissão que conjuga com a de nutricionista.

É também nesse papel reivindicativo que aceitou o convite de Dai Moraes, a fotógrafa por detrás do projeto +MULHER. A abordagem aconteceu através do Instagram, onde Catarina se identifica como Espécie Rara Sobre Rodas e tem já mais de 34 mil seguidores.

Catarina é uma de dez mulheres que aceitaram protagonizar uma sessão boudoir, em lingerie, para servirem de inspiração a outras tantas mulheres em situações semelhantes às sua. Estas fotografias estão acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta. A sessão está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras.

“Durante 27 anos, não estive propriamente alerta para estas questões. Nestes sete anos, percebi que há uma enorme falta de representação, especificamente das mulheres com deficiência. Quando temos oportunidades como estas, penso sempre nas mulheres e meninas que as veem e que percebem que podem ocupar todos os espaços que elas quiserem na sociedade”, explica.

Catarina conhece bem “os estigmas ligados às mulheres com deficiência”, sobretudo a questão corporal. “Sempre fui uma mulher padrão, nunca tive que pensar muito nisto. Sou branca, alta, não era gorda nem magra. Agora que me tornei numa mulher com deficiência, percebo a importância da representatividade, nomeadamente nesta área da beleza, do usar lingerie, de mostrar o corpo — no fundo, empoderar a mulher.”

A grande mudança na sua vida aconteceu numa atribulada semana na tal fatídica viagem ao Brasil. A pequena dor não passou com os habituais relaxantes musculares e após um internamento inesperado, os exames mais exaustivos detetaram uma inflamação na medula.

Sem causa desconhecida, a mielite transversa de Catarina apontava para uma origem autoimune. “O meu corpo terá reagido a algo de forma exagerada e destruiu parte da medula. Fiquei sem sensibilidade nos membros inferiores”, recorda sobre o processo que “foi muito rápido”. “No espaço de uma semana, fiquei internada sem sentir as pernas. Foram dois meses no Brasil e mais quatro meses em Portugal, a contar com a reabilitação.”

Nem sempre as mielites transversas conduzem a este resultado. “Há quem consiga voltar a andar, mesmo com algumas condicionantes. Depende do ponto em que se apanha a inflamação. No meu caso, a probabilidade é quase nula.”

Como se descreve a si própria, Catarina é uma “espécie rara”. Estudou medicina durante quatro anos e isso permitiu-lhe ir percebendo o que se estava a passar com maior conhecimento. Quando se percebeu que já pouco havia a fazer e que o seu futuro passaria por uma cadeira de rodas, fez apenas uma pergunta: se poderia ser mãe.

“Era a minha maior preocupação. O médico disse que sim e fui para a reabilitação”, conta. “Eu não sou um grande exemplo, porque eu não reagi mal. Temos a ideia de que tem que haver um momento triste, mas eu nunca tive ilusões. Não tive um período de luto, não consigo explicar porquê.”

Recorda apenas os longos internamentos como “momentos chatos”. “Claro que a vida é muito mais fácil quando estamos de pé, mas não tenho feitio para lamentos”, nota. “Se pudesse beber um copo de água e voltar a andar, claro que o faria. A vida seria muito mais prática, mas a minha vida é igualmente feliz. Estou perfeitamente adaptada, sou independente, vivo com o meu namorado, tenho o meu trabalho. Claro que esse foi o meu caso. Conheço muitos que não são assim.”

Ainda não foi mãe, apesar de “estar nos planos”. Pelo caminho, vai fintando as adversidades e um “mundo cheio de obstáculos”, não por causa da cadeira de rodas, “mas porque o nosso mundo não é um mundo acessível”.

“As pessoas com deficiência não têm as mesmas oportunidades a nível laboral e de educação, não só por uma questão de falta de condições de acessibilidade física, mas também atitudinal. Muitas vezes as pessoas olham para nós como pessoas menos capazes, isso já cria desigualdade.”

Catarina divide o seu dia entre as consultas de nutrição e o trabalho que a leva pelo País, a dar palestras e consultoria. Quando não está a trabalhar, está a fazer desporto. Antes da mielite transversa a atirar para uma cadeira de rodas, praticou voleibol federado. Quando isso se tornou impossível, adaptou-se, como sempre fez.

“Fiz andebol em cadeira de rodas e competi durante um ano. Depois fui tendo menos tempo e passei a fazer remo, depois crossfit adaptado. Hoje treino em casa com a ajuda de uma personal trainer”, conta.

Se estava mentalizada para ter que fazer o resto dos seus dias numa cadeira de rodas, percebeu que estava menos preparada para o regresso à vida ativa — e tudo o que isso acarretava. “Lembro-me que percebi, e isso é inevitável, que as pessoas não olhavam para mim, para nós, da mesma forma. Não olham para mim como a Catarina, veem apenas uma cadeira de rodas. É a coitadinha, a pessoa de quem devemos ter pena.”

Isso colocou um obstáculo no que toca à autoestima, à perceção da sua própria imagem, como acontece com tantas outras mulheres na mesma situação. “Não posso dizer que me tenha entristecido. Acima de tudo indignou-me. Eu sou a mesma Catarina, só que estou numa cadeira de rodas. Para muita gente, deixei de ser sexy, de ser bonita ou feia, para ser uma pessoa com deficiência”, explica.

“Não quero que vejam só a cadeira. Ela está aqui, ela existe, e ainda bem, porque permite que trabalhe e que me divirta, mas a Catarina não é a cadeira de rodas. A Catarina é uma mulher que está sentada numa cadeira de rodas.”

Os olhares perseguiam-na nos bares e discotecas e por vezes dirigia-se às pessoas. “Perguntava-lhes se precisavam de alguma coisa”, recorda. “Sempre levei a coisa na brincadeira, mas também queria chocar, para que percebessem.”

Foi assim que surgiu a inspiração para o nome do seu perfil no Instagram, a Espécie Rara Sobre Rodas. “Era isso que me sentia, uma espécie rara. Foi assim que transformei também a minha indignação em ação.”

Começou por partilhar situações do dia a dia, como o dia em que, num centro comercial, sentiu que alguém começara a empurrar-lhe a cadeira. “Parei e perguntei-lhe o que é que achava que estava a fazer. ‘Estou a ajudá-la, menina.’ Perguntei-lhe se também pegavam nele ao colo e o levavam à secção de congelados do Continente e pedi que não o fizesse comigo. Ficou muito ofendido”, conta.

Além de encarar tudo com bom humor, os relatos serviam para alertar os que “achavam que estavam mesmo a ajudar” de que não o deveriam fazer; mas também como forma de outras mulheres com deficiência partilharem as suas histórias.

A comunidade cresceu e Catarina colocou-se numa posição de relevo. Era também uma estudiosa do tema e aponta que esse é o caminho para um mundo mais justo. “Digo que estudem sobre a deficiência, o contexto histórico. Quanto mais percebemos de onde vem essa discriminação, mais poder temos para rebater todas as atitudes capacitistas que enfrentamos todos os dias.

Hoje dá palestras e consultoria em empresas, escolas, universidades e autarquias; ensina os outros como podem quebrar as barreiras que por vezes lhes são invisíveis, mas que são bem visíveis para as minorias. “São passinhos de bebé, mas há muita coisa a construir.”

A mulheres e jovens que enfrentem os mesmos desafios que teve que enfrentar, Catarina deixa um conselho valioso. “Procurem representação, procurem outras mulheres, partilhem com elas experiências e vivências.”

“Vejam que há outras mulheres com deficiências que conseguem ter uma vida, ter filhos e assim o entenderem, conduzir, trabalhar, ter uma relação. É preciso procurar essas vivências de quem representa a sua minoria e que demonstram que há vida além de uma ideia capacitista e discriminatória da sociedade que nos diz que não podemos ser como os outros.”

Segundo Catarina, esse é o primeiro passo para mudar o mundo, que nunca será perfeito, mas que pode ser justo, acessível a todos. “Temos que ser nós a exigir aquilo de que precisamos, quais são as nossas necessidades. Temos que lutar. Não estamos a pedir um favor. Estamos a pedir os nossos direitos”, afirma. “Embora a sociedade nos diga que somos um fardo, não somos. Exigir acessibilidades é um direito nosso.”

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