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Os coentros sabem-lhe a detergente da loiça? A ciência explica porquê

Parece uma bizarria, mas existem várias pessoas que se queixam do sabor da erva. Afinal, há mesmo um motivo para isso.
O sabor causa discórdias.

“Por onde passa a linha que separa o uso dos coentros do uso da salsa?” A questão feita por Miguel Esteves Cardoso coloca em perspetiva a eterna discussão, entre o norte e o sul, sobre qual destas ervas aromáticas é a melhor. Normalmente, a divisão de preferências de paladar está associada às regiões onde as plantas são cultivadas. Os coentros, por exemplo, são mais comuns no Alentejo, enquanto que a salsa é típica de Trás-dos-Montes.

Porém, esta escolha e gosto ultrapassa, muitas vezes, os limites da cozinha e origina outro tipo de discussões entre amigos e familiares. Nestes casos, há sempre alguém que odeia coentros, porque “sabem a detergente da loiça”. Debates regionais à parte, a verdade é que não gostar de coentros não tem a ver com capricho, já que há mesmo uma explicação científica para este argumento. 

A planta partilha um composto químico presente no típico sabão que usamos para lavar os pratos e em algumas espécies de — não se assuste — insetos malcheirosos. Há pessoas que são mais sensíveis a esta substância e é aí que a medicina entra para explicar tudo.

“A genética determina quase tudo o que somos. No entanto, o ambiente também acaba por ter impacto e moldar-nos”, começa por explicar Marta Amorim, médica especialista em genoma do Hospital Lusíadas de Lisboa. Antes de provarmos um prato novo é normal cheirá-lo para perceber se o aroma nos agrada. Isto acontece, segundo a profissional, porque estes sentidos estão “ligados”.

“As papilas gustativas da língua identificam os sabores, ao passo que os nervos localizados no nariz identificam os odores. Ambas as sensações são transmitidas ao cérebro, que integra as informações para que os sabores possam ser reconhecidos e apreciados.”

Isto é possível porque, no nosso genoma, temos cerca de 400 genes dedicados ao olfato, e cada um deles contem a receita para produzir uma única proteína – que, por sua vez, deteta uma única molécula. Um desses exemplares, o OR6A2, produz uma substância responsável por reconhecer compostos orgânicos chamados aldeídos — presentes normalmente em perfumes — que dão o cheiro característico dos coentros.

“Algumas pessoas podem ter predisposição genética que os torna mais sensíveis a esses químicos e acabam por reconhecer um sabor diferente desta erva aromática”, refere a clínica.

Cerca de 15 por cento dos europeus sentem o tal sabor a detergente nos coentros, segundo um estudo publicado em 2012 na revista “Nature”. Os investigadores perguntaram a 30 mil pessoas se gostavam daquela erva e a que lhes sabia. No final concluíram que quase “metade dos europeus possui duas cópias desta variante do OR6A2”, mas que só uma parte sente, efetivamente, no palato esta singularidade da erva.

Os benefícios dos coentros

Se faz parte do grupo de pessoas que não gosta deste sabor característico, é uma pena, porque a erva aromática tem vários benefícios para a saúde. “São excelentes substitutos do sal e muito versáteis”, começa por explicar a nutricionista Mariana Abecassis. “Diversos estudos apontam para benefícios na prevenção de doenças neurodegenerativas e, muitas delas, como fontes antioxidantes”, refere.

Constituídos por mais de 90 por cento de água, são pobres em calorias, gordura e hidratos. “Apresentam apenas 20 calorias por 100 gramas e uma quantidade apreciável de fibra de quase três gramas”, refere a especialista em nutrição. São ainda uma boa fonte de vitaminas A, B e C, por isso, têm poder antioxidante e contribuem para fortalecer o sistema imunitário. “Têm uma função hepatoprotetora. Nesse sentido, o chá de coentros pode ajudar a melhorar a digestão”, conclui. 

Ricas em micronutrientes, que vão desde as vitaminas aos minerais, tanto os coentros como a salsa têm uma importante função na regulação de vários aspetos no organismo. Carregue na galeria para conhecer algumas receitas com estas ervas aromáticas.

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