fit

Nem o cancro ou o excesso de peso travaram Ana. “Decidi não adiar mais a minha vida”

Aos 38 anos, escapou a um cancro e afeiçoou-se à cicatriz que escondeu durante décadas. Diz que aprendeu a amar o corpo.

“Sempre fui gorda, desde pequena”, confessa Ana Andrade que, ao entrar na casa dos 30, decidiu finalmente parar de se esconder e abraçar o mesmo corpo que em tantas ocasiões a obrigou a recolher-se na sombra, sem sair de casa. A decisão teve ramificações que não esperava e que, reflete hoje, a salvaram de um cancro por mero acaso.

Ana odiava os médicos. Tinha medo que a julgassem. “Evitava tudo o que me expusesse. Sentia-me sempre julgada pelo excesso de peso”, recorda. Quando perdeu o medo, uma ida ao endocrinologista e um exame de rotina revelaram o diagnóstico que ninguém quer receber. Ana tinha um cancro.

O cancro na tiroide foi detetado no final de 2021 e rapidamente removido. A operação deixaria para trás uma marca, uma longa cicatriz na base do pescoço. Hoje, enverga-a com orgulho, na sessão organizada pela fotógrafa Dai Moraes.

Ana é também uma de dez mulheres que aceitaram despir-se das vergonhas, agarrar nas peças de lingerie mais bonitas que encontraram e fazer parte do projeto que está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras. O objetivo? Servirem de inspiração a outras tantas mulheres em situações semelhantes às suas. Estas fotografias estão acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta.

Aos 38 anos, a analista financeira confessa que a cicatriz não lhe faz confusão. Afeiçoou-se a ela. “Agora, quando fico mais nervosa, faço-lhe festas. Passou a ser o meu conforto. Já não me faz confusão”. O humor é quase sempre a arma que usa para lidar com seus problemas. “Quando me perguntam o porquê da cicatriz, digo-lhes que andei à luta com um urso.”

A descoberta do cancro teve origem no processo de aceitação corporal que iniciou há quatro anos. “Decidi tratar mais de mim e também foi por isso que fui fazer exames de rotina”, conta. A rotina foi quebrada com a má notícia.

“Foi uma surpresa total. Caiu-me tudo. Foi um choque, até porque durante todo o processo, diziam-me que não haveria de ser nada”, recorda. “”Quando vi a palavra maligno no resultado da biopsia, pensei em tudo, nas piores coisas.”

Felizmente, não havia quaisquer metástases e, segundo a sua médica, era “o cancro mais fácil de resolver”. Antes de ficar resolvido, era preciso remover completamente a tiroide. Assim fez. “Foi tudo muito rápido, entrei num dia no hospital, saí no seguinte.” Exames feitos, tudo o que restou desse cancro foi a cicatriz — e um “grande susto”.

Hoje, está ainda a acertar a medicação que irá compensar a falta da tiroide. Fora isso, leva uma vida completamente normal. Mas nem sempre foi assim.

“Durante muitos anos, escondi-me por causa do excesso de peso. Adiava tudo o que tinha para fazer — ia fazê-las quando fosse magra”, confessa. Foi preciso esperar até aos 35 anos para que tomasse uma decisão absolutamente transformadora.

“Chegou um momento em que disse que não podia adiar mais a minha vida.” Os exames sanguíneos revelavam valores normais, era saudável, sentia-se bem. Porque haveria de ter vergonha? “Comecei então esse processo de aceitar quem sou, o que não quer dizer que esteja sempre satisfeita com o meu corpo.”

É um processo de “altos e baixos”, sobretudo apoiado nos exemplos e amizades que foi encontrando nas redes sociais. Pessoas iguais a si, com as mesmas experiências, que passaram de conhecidas a amigas, a aliadas nesta luta.

Descreve um processo que “não foi fácil” e que obrigou ao quebrar o muro que tinha erguido entre si e o resto do mundo. Começou a sair, a ir à praia, mas o passo seguinte era mais difícil: colocar as imagens no mundo, nas redes sociais. Pelo caminho, deitou para trás também a meta de “ter o corpo perfeito”.

“Não sinto que preciso de dietas, enquanto me sentir saudável”, conta. “Aliás, antes de fazer a primeira sessão budoir, pensava que a iria fazer, mas só quando tivesse o corpo que queria. Acabei por fazê-lo muito antes, até porque poderia nunca chegar lá. Nem sequer preciso de ter o corpo ideal para o fazer, nem isso, nem outras coisas. Posso fazer tudo o que quero sem ter o corpo ideal.”

No feed do Instagram está espelhada a nova vida de Ana, na praia, a fazer queda livre, escalada, na rua com os amigos. Achava que eram coisas “que só os magros faziam”. “Antigamente, estava isolada em casa. Não ia às compras porque não encontrava roupa para mim. Não ia à praia porque não gostava que me vissem de fato de banho. Usava roupa larga para me esconder. Evitava tudo o que fosse contacto social”, recorda. “Eu adorava fotografia e passei a não querer que me fotografassem.”

A vergonha mexeu consigo “ao nível psicológico”. Diz que é “normal que assim seja”. “Quando sentimos que há uma parte de nós que é completamente visível e que mancha a imagem que os outros têm de nós…” E acrescenta: “As pessoas tendem a fazer um julgamento sobre quem somos pela forma do nosso corpo. Julgam-nos preguiçosos, desleixados. Isso afeta muito a autoestima.”

Não houve propriamente um momento decisivo para esta viragem na abordagem à vida. “Foi mais o cansaço de estar sempre insatisfeita, de tanto adiar a vida.” Relacionar-se com pessoas que estavam no mesmo percurso de aceitação pessoal foi extremamente valioso. “Fez-me ver que havia uma alternativa para mim também.”

O surgimento do cancro foi também um sinal de que em boa hora Ana tomou a decisão de não adiar a vida. Correu bem. Nem sempre é assim. Hoje, não diz que não a uma sessão mais ousada e não pondera voltar a esconder-se. “Eu sei que sou feliz por ser quem sou, independentemente do tamanho que possa ter. Não é ele que define quem sou, que define os meus valores.”

Carregue na galeria para ver mais imagens da produção fotográfica de Ana Andrade.

ver galeria

MAIS HISTÓRIAS DE OEIRAS

AGENDA