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Inês sobreviveu a um incêndio horrível: “As marcas contam histórias, são parte de mim”

Foi apanhada nas chamas e perdeu a perna. Hoje, quer apenas que a deixem viver. É uma das histórias inspiradoras do projeto +MULHER.

“Um dia, estava sozinha na rua, de cadeira de rodas, um homem parou-me e disse-me: ‘Fico sempre tão triste quando vejo pessoas como você’”, recorda com um suspiro. “É cansativo.” Há quatro anos, Inês Coias passava férias na casa de família, no Alentejo, quando um incêndio a apanhou desprevenida. Acabaria por ficar com grande parte do corpo queimado, ao ponto de ter que ver uma das suas pernas ser amputada. A recuperação demorou um ano.

Hoje, mais do que refletir nos porquês e nas consequências, prefere focar-se na luta para que todos possam viver uma vida mais livre, mais fácil, sem discriminações ou preconceitos. Foi também por esse motivo que acabou a posar em lingerie para a sessão fotográfica que deu origem à nova edição do projeto +MULHER.

Com a assinatura da fotógrafa Dai Moraes, a exposição conta as histórias de dez mulheres que, através de uma sessão boudoir, pretendem inspirar outras tantas que vivem situações semelhantes às suas. As fotografias foram acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta. A sessão está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras.

“A beleza feminina está muito associada a um corpo normativo que a sociedade entendeu que era o normal, ou certo, seja lá o que isso for”, explica. “Por isso é importante vermos corpos diferentes. Os nossos corpos não são associados à beleza ou ao feminino, o que não é verdade. Eu sou tão feminina quanto o era antes do incêndio.”

Aos 24 anos, a natural de Sintra, sente-se perfeitamente à vontade com o corpo, quase todo ele marcado pelas cicatrizes deixadas pelas chamas. Formou-se em teatro e trabalha há vários anos como atriz, sobretudo no teatro. “O meu corpo faz parte do meu trabalho, já fiz peças com nudez, estou habituada a isso.”

Para chegar até aqui, foi preciso passar por um ano de pesadelo. “Foi uma lesão complicada, estive em coma induzido e mesmo quando acordei, não estava propriamente consciente. Era anestesiada dia sim, dia não, para fazer pensos”, recorda. “Só vemos que estamos completamente enfaixados, não temos noção de onde estamos.”

Um ano depois, era altura de seguir com a vida, com as marcas no corpo e uma perna amputada. Foi “uma privilegiada”, confessa. “Estive dois anos à espera da prótese e da cadeira de rodas. Felizmente, tinha meios próprios, senão tinha ficado dois anos trancada em casa. Dois anos em casa, depois de se passar por aquilo que passei, é muito tempo e pode deixar mazelas emocionais. Nesse sentido, sou uma grande privilegiada.”

Inês olha para a vida de forma muito descomplicada, sem complexos. “Sempre tive uma cicatriz na barriga desde recém-nascida, gozavam um pouco comigo. Hoje, acho que é curioso, e até uma partida engraçada, a vida ter-me dado tantas cicatrizes. Olho para elas e elas contam histórias, são parte de mim”, diz. “[A adaptação] foi muito natural. Podia ter acontecido a mim ou a outra pessoa. Faz parte da vida.”

Para Inês, não há um antes e um depois. Irrita-a que seja essa a visão que os outros têm de si, mas foi, na verdade, o que sentiu quando regressou à vida do costume, à faculdade, aos passeios com a família. “Quando saí pela primeira vez, estava feliz, estava com a minha família, tinha saído do hospital. Só que à minha volta, toda a gente olhava para mim, parecia que tinha um holofote na testa. Porque é que uma deficiência faz comichão a tanta gente? É normal, pode acontecer a qualquer um.” Nem isso a fez ceder. Atribui a culpa da sua resiliência à “boa rede familiar”.

Voltou à faculdade, terminou os estudos e começou a trabalhar como atriz. Afirma que não sentiu discriminação. “Acho que o teatro é um meio mais inclusivo”, nota. Nem tanto “a televisão”. “Ainda há aquela ideia de que quando há um ator deficiente, esse tem que ser o traço de personalidade da personagem. Não é. A personagem pode ter uma deficiência, a protagonista também. O mauzão também. É uma característica física, não é característica da personagem. Eu tenho cabelo castanho, tenho queimaduras, mas essa não é a minha personalidade.”

Embora garanta sentir-se tão confortável quanto se sentia antes do incêndio, sente o impacto no dia a dia. “Antigamente passava despercebida, hoje não. Aos olhos dos outros, deixei de ser normal. E eu odeio essa palavra, porque somos normais somos todos.”

O problema, diz, não está em quem, por um azar qualquer, sofre um problema de saúde, um acidente que deixa marcas. “Eu tenho muitas limitações, mas elas existem por causa da nossa sociedade muito inclusiva”, ironiza. “Não é o meu corpo que me impede de ir a sítios. É a cabeça das outras pessoas.”

“Como uma pessoa com miopia precisa de óculos para viver uma vida normal, também eu preciso da minha cadeira, da minha prótese”, explica. Faltam rampas, acessibilidades, mudança de mentalidade. “Se as pessoas com corpos normativos falassem sobre os nossos problemas, era mais fácil, porque é um peso enorme para nós estarmos sempre a falar do mesmo. E as rampas não são só úteis para nós. Muitos, a certa altura na vida, poderão precisar delas.”

É também por esse motivo que prefere dar a cara, encarnar o papel de ativista. Por perceber que é por causa dessas dificuldades, do preconceito, dos olhares que “há tanta gente que prefere fechar-se em casa”. “Nós só queremos existir como todas as outras pessoas.”

Aceitou, por isso, o convite para partilhar as suas marcas e a sua experiência ao lado de outras mulheres resilientes. Mas mais do que ouvir os outros falar, Inês prefere ver outros exemplos, menos vocais, mas “mais poderosos”.

“Acho que tem mais poder ir ver uma peça em que eu entre, em que entre uma pessoa com deficiência. Diz muito mais sobre o que penso do que algo que possa estar para aqui a dizer”, nota. “Quando estava muito assustada, talvez tivesse sido importante ligar a televisão e ver uma pessoa com deficiência a ter um papel de destaque, mais do que ouvir alguém a falar. É mais real a conquista e o poder que aquela pessoa carrega.”

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