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Esta nutricionista quer reduzir a infertilidade — tudo através da alimentação

Noélia Arruda criou um manual que ajuda a criar hábitos saudáveis para gravidezes mais pacíficas e sem problemas.
Está na altura de desfazer os mitos

Se a alimentação molda toda a nossa vida, seria inevitável que os hábitos alimentares não tivessem um papel absolutamente preponderante durante uma das fases mais complexas da vida de uma mulher: a gravidez.

Aos 30 anos, a nutricionista Noélia Arruda esbarrou nesta área por mero acaso. Formada em Nutrição e Engenharia Alimentar, acabaria por se especializar em Saúde Pública e por trabalhar em centros de saúde. Mas foi numa ida ao ginecologista que percebeu que havia uma grande fatia dos portugueses a precisarem de acompanhamento nutricional.

Hoje em dia acompanha mulheres grávidas, mas não só: a fertilidade é também uma das áreas onde aconselha homens e mulheres. Um setor da nutrição que considera inexplorada pelos colegas.

Numa fase da vida em que tudo o que as mulheres ingerem deve alimentar e nutrir a dobrar, é cada vez mais importante que se desfaçam os mitos. Foi também por isso que escreveu o “Manual para a Fertilidade, Gravidez e Amamentação” onde não só detalha os cuidados alimentares que se deve ter, como conta com a opinião multidisciplinar de enfermeiros, psicólogos e até um personal trainer.

A NiT falou com a nutricionista para perceber, afinal, de que forma é que a alimentação pode ajudar a promover gravidezes mais saudáveis e mais fáceis, mas também a fazer com que elas aconteçam sem sobressaltos, hoje que cada vez mais a infertilidade é uma realidade.

Nutrição, fertilidade e maternidade são áreas que nem sempre ouvimos na mesma frase. O que é que a levou a focar-se nestes temas?
Em 2010, fui a uma consulta com a minha ginecologista e ela disse-me que lhes faltava uma nutricionista na clínica. Perguntou-me se eu estava disponível, apesar de eu ter mais experiência com idosos e crianças, ao nível da saúde pública. Decidi abraçar o projeto e comecei a dar muitas consultas com grávidas. Começámos a perceber que as mulheres com esse acompanhamento tinham gravidezes muito mais tranquilas, conseguíamos que elas não aumentassem muito o peso, os partos eram mais fáceis, as consequências da diabetes gestacional eram mais controladas. E até hoje continuo a dar consultas a mulheres grávidas e não só.

Quais são as questões mais recorrentes que lhe colocam?
Perguntam o que podem fazer para não aumentar tanto peso na gravidez, o que devem comer durante o primeiro e segundo trimestre, ou até durante a amamentação para terem um leite mais saudável. Mas nas consultas abre-se um mundo de novidades ao nível da alimentação, de estilo de vida, tudo para que tenham uma gravidez mais saudável, apesar de ouvirem muita coisa, porque a mãe diz isto e a sogra diz aquilo…

A gravidez está normalmente associada a uma série de privações alimentares. É mesmo assim que deve ser?
Temos que ter alguns cuidados alimentares para não haver infeções, contaminação por bactérias. Comer alimentos crus pode provocar alterações a nível da placenta e do bebé que devem ser evitadas. Mas por exemplo, as necessidades do bebé no primeiro trimestre são diferentes da do segundo trimestre. Na fase inicial da multiplicação celular, requer necessidades nutricionais específicas, mas também qualidade de sono, atividade física, suplementação específica para que depois de implantado no útero, o bebé possa crescer. No segundo e terceiro trimestre há crescimento e ganho de peso, mais para o bebé, menos para a grávida. Só que muitas vezes, os descontrolos alimentares que as grávidas sentem têm a ver com uma carência. O bebé puxa os nutrientes para colmatar as suas necessidades — e a alimentação da mãe tem que fornecer os alimentos ricos em nutrientes para colmatar as necessidades dos dois. O bebé, no segundo trimestre, por exemplo, vai crescer muito a nível ósseo. Se não houver uma alimentação rica em cálcio, o bebé vai buscar o da mãe e a mãe pode vir a sofrer de osteoporose.

Portanto, ter uma alimentação cuidada é tão importante para o bebé como para mãe.
A natureza é muito sábia. O bebé está em carência e os nutrientes não vão deixar de ir para ele para que não falte à mãe: vai mesmo tudo para o bebé. A mãe é que vai ter que trabalhar para ter uma alimentação adequada para poder dar todos os nutrientes e também para que não lhe faltem os seus. As grávidas que vão às consultas costumam dizer que alguém lhe disse uma coisa, outros lhe dizem outra, tudo mitos. Cada gravidez é diferente e o meu livro serve para isso, não só para informar mas para formar. Que seja um documento que a grávida possa ler e ter consciência do que é verdade e do que é mentira, ficar mais segura das suas escolhas.

Fala de mitos. Quais são os que ainda permanecem, mesmo com tanta informação disponível?
Muitas vezes, as grávidas, na tentativa de não aumentarem de peso, retiram da alimentação os hidratos de carbono como o arroz, batata ou massa. A ideia não é a de deixar de comer isso, mas sim a de comer hidratos ricos em nutrientes. Comer uma batata doce é diferente de comer um puré de batata instantâneo. Comer um pão branco é diferente de comer um de centeio. É esse trabalho que fazemos para que a mulher vá ganhando consciência e educação alimentar. Nessa fase da gravidez, há uma maior motivação das mulheres para fazerem uma mudança alimentar porque sabem que tudo o que ingerem chega ao bebé. E é importante que tenham consciência dos hábitos alimentares, porque muitas vezes não há tempo para refeições mais completas.

Só?
Fala-se também muito do queijo fresco, que não se pode comer por causa da toxoplasmose. É verdade, mas que tipo de queijo fresco? O pasteurizado não tem qualquer risco de contaminação e devemos consumir porque é rico em cálcio e precisamos dele no segundo trimestre. São esse tipo de coisas que têm que ser desmontadas. Outra é o consumo de legumes e vegetais, que coloca sempre a dúvida se devem ser lavados com vinagre, limão ou Amukina. Limpá-los com água e vinagre é sempre melhor do que usar um produto químico.

Há mulheres que fazem dietas durante a gravidez. Isso é problemático?
Isso acontece muito. Há gravidas que vêm de uma rotina de dieta de restrição alimentar, muitas vezes desequilibradas. Chegam à gravidez a dizer que não querem aumentar muito peso e isso pode ser perigoso. Naturalmente, tem que haver um aumento de peso. É preciso pensar no bebé, que é preciso nutri-lo. Desde a fecundação, que é o início de tudo, que com a alimentação também vamos determinar a saúde das crianças, as patologias, os défices cognitivos. Muitas vezes as respostas estão dentro da barriga da mãe.

Explica a certa altura no livro que a ideia de que as grávidas têm que comer por dois é um disparate. Porquê?
Costumo dizer que não é comer por dois mas comer para dois. É preciso ter a alimentação de que o bebé precisa mas que também a mãe necessita para que não entre em carência. O que acontece é que por vezes há défices nutricionais, por não comer leguminosas como feijão ou grão, pode ficar com carência de ferro, porque o bebé no último trimestre vai reforçar-se em ferro para sobreviver os primeiros seis meses sem carne ou peixe. Então a mulher pode ficar com uma anemia, daí que seja preciso trabalhar a prevenção da anemia desde o primeiro trimestre. Tenho muitos casos desses, de grávidas com anemias porque não se trabalhou bem a alimentação desde o início.

Aborda também a questão da fertilidade. Quão comum é o problema e é algo que se pode resolver com a alimentação?
Cada vez mais os casais têm filhos mais tarde e depois quando querem engravidar, querem tudo para ontem. Não pode ser assim. É preciso pensar com três meses de antecedência para construirmos e nutrirmos os óvulos que vão ser produzidos. Isso leva 85 a 90 dias, porque todos os dias se deve ter cuidado com a alimentação, o sono, a atividade física. Há muitos casos de mulheres com patologias como endometriose, ovários poliquisticos, patologias naturalmente inflamatórias e quando existem, torna-se mais difícil engravidar sem uma orientação a nível da alimentação, do estilo de vida, da higiene do sono, da atividade física. Tudo isso tem que ser trabalhado. Muitas vezes os médicos, confrontados com uma endometriose ou tiroidite de Hashimoto, dizem que é preciso fazer fertilização in vitro porque não vão engravidar. Isto é mentira. Há uma série de nutrientes e mudanças alimentares que podemos fazer para minimizar a situação e tornar a mulher mais fértil, independentemente da patologia.

E que grandes alterações na alimentação devem ser feitas para promover a fertilidade?
Tenho mesmo uma dieta para a fertilidade que envolve o consumo elevado de legumes e vegetais, pelas cores, pelos polifenóis que vão dar nutrientes ao organismo para que ele fique menos inflamado. Devemos usar mais alimentos ricos em gorduras boas como o azeite, frutos secos, proteínas de alto valor biológico como o peixe e os ovos, proteínas como feijão, grão e lentilhas. As leguminosas são fundamentais para a fertilidade. Deve ser uma alimentação livre de tóxicos e processados, uma dieta clean.

Acredita que é uma área onde ainda há muito por fazer?
Sim. Sou das poucas nutricionistas profissionais a trabalharem a nutrição na fertilidade, não conheço mais colegas que o façam. Quem me dera que houvesse mais porque conseguiríamos poupar muito dinheiro a pessoas em fertilizações in vitro, que são muito caras. Com simples mudanças alimentares e percebendo a parte hormonal, avaliando o organismo, tapamos lacunas com nutrientes para que seja possível engravidar. Por vezes, há mulheres que têm uma simples disbiose vaginal, com o homem está tudo bem, e não conseguem engravidar por causa de uma coisa que se resolve com probióticos.

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