Durante 20 anos, Ana Sofia Caetano sonhou ter uma escola de ioga, mas os filhos eram pequenos e a altura nunca parecia a certa. Só em janeiro de 2024, já com os miúdos já crescidos, é que finalmente abriu o Yoga Sādhana, junto à Fábrica da Pólvora, em Barcarena.
Por lá, as aulas começam às sete horas, para quem tem de estar cedo no emprego, e só terminam às 21 horas, a pensar em quem sai tarde do trabalho. Entre uma e outra, há sempre tempo para um chá e uma conversa. “Aqui na escola não há pressa absolutamente nenhuma”, diz Ana Sofia, de 54 anos.
Encontrar o espaço certo é que não foi propriamente uma tarefa isenta de stress. “Há cerca de quatro anos, decidi que estava na hora e comecei à procura de um espaço acolhedor”, conta. Depois de muito procurar, acabou por ficar na Rua Ferrarias Del Rei, perto da Fábrica da Pólvora de Barcarena e do Oeiras Golf & Residence, num local sossegado, rodeado de árvores e com estacionamento gratuito à porta. Nem todos acharam que era uma boa ideia. “Muitos aconselharam-me a desistir e disseram que o local era isolado, mas vi o potencial do espaço desde o primeiro dia.”
Seguiram-se as obras e a decoração. Hoje, a escola tem uma sala de prática ampla e luminosa, vestiários, uma pequena copa e duas salas onde podem ser feitas consultas de ayurveda e outras especialidades. Quanto aos alunos, foram chegando aos poucos, à medida que o passa-palavra se espalhava.
Quando ainda era criança, Ana Sofia queria mesmo era dançar e chegou a pedir à mãe para a inscrever em aulas, mas eram três irmãos e não havia dinheiro para mais uma atividade. Aos 22 anos, já era mãe e procurava um trabalho de que gostasse e que lhe permitisse sustentar a filha. No ano seguinte, começou a dar aulas de fitness, entre cycling, step, aeróbica, localizada, alongamentos e Pilates. Com o tempo, chegou a organizar convenções nacionais e internacionais na área.
Foi só aos 34 anos, já com o segundo filho, que o ioga entrou na sua vida, quase por acaso. “Inicialmente, investi na formação de yoga apenas para enriquecer o meu currículo e abrir novas possibilidades profissionais”, explica. Acabou por ser a filosofia a prendê-la, sobretudo o estudo do Vedanta, uma das escolas de pensamento da Índia antiga, dedicada à compreensão da natureza do eu e da realidade. “O ioga vai para lá da prática em sala de aula. Transborda para a vida.”.
Fez a primeira formação em Swásthya Yoga e deu aulas na escola onde estudou, que acabou por deixar por considerar o ambiente demasiado comercial. Seguiram-se mais duas formações, a última com Pedro Kupfer, professor uruguaio que vive em Portugal e ensina ioga há mais de 40 anos. Pelo caminho, foi deixando o fitness e, mais tarde, o Pilates. “Senti, a determinada altura, que não podia perder mais tempo com outras disciplinas. O autoconhecimento tornou-se a missão da minha vida.”
Quando finalmente avançou com a escola, fê-lo sozinha, mas com o apoio do marido, engenheiro e habituado a gerir negócios e clientes. Por enquanto, a equipa conta com quatro professores de ioga e três de Pilates. Cada aula tem um máximo de 12 alunos e, como as turmas são fixas, o ambiente depressa se torna familiar. “Ao fim de pouco tempo, todos se conhecem”, diz Ana Sofia. No final das aulas, é comum ficarem a conversar sobre a prática ou simplesmente a conviver.

Entre os alunos, há quem tenha 18 anos e quem esteja perto dos 80. A maioria vive nas redondezas, embora alguns venham de propósito de Carcavelos, Paço de Arcos ou Sintra. Procuram sobretudo alívio para o stress e a ansiedade e há também quem chegue por indicação médica.
As mulheres continuam a ser a maioria, mas já houve aulas com mais homens do que mulheres. Uma das alunas, curiosamente, praticou com Ana Sofia quando tinha quatro ou cinco anos. Hoje é adulta e continua a aparecer na escola sempre que pode. Outra chegou com artrite reumatoide grave, muitas dores nas articulações e nenhum gosto por exercício físico. “Hoje não parece a mesma. Não falta às aulas e está mais apta para a vida, com mais força, mobilidade e equilíbrio. Já é uma amiga.”
Além das aulas regulares de ioga e meditação, a escola tem um estilo de ioga mais suave dirigido à população sénior ou a quem está a começar, mas também para crianças através de workshops ocasionais, ioga pré e pós-parto, treinos personalizados e Pilates.
O Yoga Sādhana também organiza workshops sobre alimentação saudável e funcional, meditação e kīrtans, cânticos devocionais, além de satsangas, encontros onde se debatem temas relacionados com a filosofia do ioga. Há ainda aulas intensivas com professores convidados, como Pedro Kupfer, João Paulo Dias, Simão Monteiro, Marco Peralta, Gonçalo Correia e Ricardo Gil. Muitos destes encontros são oferecidos aos alunos da escola.
Quanto ao nome, vem do sânscrito. Sādhana deriva da raiz sadh, que significa ir direto ao alvo, e costuma traduzir-se como prática pessoal. Pedro Kupfer associa-o à arte do arco e flecha: tal como uma flecha segue direta ao alvo, assim deve ser o propósito da prática.
As mensalidades variam consoante o número de aulas por semana e custam 35€ para uma aula, 45€ para duas, 55€ para três e 65€ para quatro. Todos os alunos têm direito, sem custos adicionais, à aula de meditação e podem compensar as aulas a que faltam noutros horários.
“Esta escola é um sonho. Como todos os sonhos, não se construiu apenas de vitórias e facilidades. Quando sinto que começa a faltar o ânimo, questiono-me sempre: qual o propósito? E a centelha brilha novamente.”








