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Andreia Lima: “Viver com uma colostomia não é o fim. É sempre o princípio”

Vivia fechada em casa, aprisionada por uma colite ulcerosa. Hoje, a jovem leva uma vida normal graças ao saco que lhe salvou a vida.
É uma das histórias contadas no projeto +Mulher.

Ao fim de cinco anos de uma luta inglória que transformou o seu dia a dia, Andreia Lima tomou uma decisão: passaria o resto da sua vida acompanhada de um saco de colostomia. Para a maioria, a mudança seria vista como um pesadelo. Para Andreia, foi um abrir de portas para um regresso à normalidade.

Fora sempre uma jovem saudável, até à morte da avó, a “pessoa de quem era mais próxima”. O trauma, que abalou o seu sistema nervoso, foi o gatilho para o surgimento dos primeiros sintomas.

“O luto que não fiz espoletou a situação”, confessa à NiT. Diagnosticada com uma colite ulcerosa que a incapacitou ao ponto de ter que ser internada de urgência, Andreia é hoje o exemplo de como a doença não tem que ser um sentença de uma vida passada entre a depressão e agonia.

Ainda na cama do hospital, onde enfrentou um internamento de mais de meio ano, criou um blogue, o “Uma Barriga Renovada”, que depois saltou para o Instagram, onde ajuda a desmistificar as ostomias e as doenças inflamatórias intestinais.

É também uma de dez mulheres com histórias de vida desafiantes que aceitaram o desafio da fotógrafa Dai Moraes, para serem estrelas de uma sessão em lingerie que pretende empoderar cada uma delas — e servir de inspiração a tantas outras. A exposição, que conta também com testemunhos em vídeo feitos pela produtora Janela Discreta, está presente desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras.

“O propósito do projeto fez todo o sentido e aceitei de imediato”, conta a jovem de 29 anos, que hoje fala sem grandes mágoas da luta contra a doença que foi surgindo aos poucos e, sorrateiramente, lhe foi roubando a alegria de viver.

À morte da avó, seguiu-se o surgimento de pequenos sintomas, tantas vezes desvalorizados. “É uma doença que se mascara de muitas outras. O diagnóstico não é fácil e os sintomas são tão comuns e simples, que a maioria os associa ao cansaço, a má alimentação”, conta. Começou com idas à casa de banho cada vez mais frequentes. Depois começou a perder peso, a sentir-se cansada, a ter dores articulares, ao ponto de por vezes nem conseguir movimentar-se.

Tinha algumas perdas de sangue, dores abdominais. Como estudava e trabalhava ao mesmo tempo, associava os sintomas ao cansaço. Só ao fim de três ou quatro meses é que procurou ajuda médica. “O médico de família disse que eram hemorroidas. Receitou-me laxantes e as coisas pioraram. Acabei nas urgências, completamente desidratada. Já não conseguia andar. Internaram-me logo e fiquei lá durante duas semanas, até que me diagnosticaram uma colite ulcerosa”, recorda.

Não era uma doença totalmente desconhecida. Anos antes, Andreia vira o seu irmão mais novo sofrer de um problema semelhante, uma doença inflamatória intestinal que obrigou à realização de uma ostomia — a abertura de um órgão interno para o exterior — com apenas 12 anos.

“Não está ainda provado que seja uma doença hereditária, embora existam muitos casos de mães e filhos, de irmãos com o mesmo problema”, nota. “Como não vivia com o meu irmão, não tive muito bem a noção do que era a doença. Quando a enfrentei, ia completamente em branco.”

O diagnóstico era difícil e, para haver certezas absolutas, teria que ser feita uma cirurgia. “Só na operação é que se confirmou que era uma colite. Poderia ser doença de Crohn, que é outra doença inflamatória intestinal”, refere.

Sujeitou-se a diversos tratamentos que, infelizmente, nunca produziram os efeitos desejados. O seu estado de saúde agravou-se. As idas constantes à casa de banho impediam-na de viver uma vida normal, as dores eram constantes e a artrite que provocava o inchaço de pés e mãos dificultava a locomoção. “Cheguei a um ponto em que nem sequer conseguia ir à porta de entrada do prédio sem me sujar”, conta.

O trabalho era o seu escape. Ligada à restauração desde os 15 anos, viu-se impedida de trabalhar e esse foi o momento decisivo para Andreia. Decidiu então tomar a decisão mais difícil, mas também aquela que ainda hoje agradece ter tomado.

“Para mim, era impensável deixar de trabalhar. Não conseguia fazer nada e marquei uma consulta. Estive mais de uma hora a chorar ao lado da médica, a dizer-lhe que não aguentava mais”, confessa. Havia ainda mais algumas possibilidades de tratamento, antes de se avançar para a última etapa, a ostomia, mas Andreia não quis esperar. “Sabia que iria recuperar a minha qualidade de vida, recuperar o meu dia a dia. Foi por isso que decidi fazer a ostomia.”

A operação foi feita em 2017. Deveria ter sido “um procedimento simples” com um tempo de internamento “inferior a duas semanas”, caso “corresse tudo bem”. Não correu. “Houve muita negligência da equipa de cirurgia, surgiram complicações e acabei por ficar sete meses no hospital.”

Só à quarta cirurgia é que a ostomia foi feita. A partir daí, teria que ir ao bloco operatório “mais de vinte vezes”. “Ainda tive que fazer um mês de reabilitação, tive que reaprender a andar. Fiquei com 30 quilos, tive que recuperar toda a massa muscular.”

Recusou sempre a ajuda psiquiátrica, embora hoje reconheça que tudo teria sido mais fácil se tivesse dito que sim a esse apoio. “Acho que até lidei demasiado bem com a ostomia. Queria lidar com aquilo sozinha. Não fazia sentido estar dopada e depois, quando acordasse, levava com tudo em cima. Sempre quis saber tudo no momento, custasse o que custasse.”

Foram meses difíceis, onde por vezes não sabia se sobreviveria a mais uma visita ao bloco operatório. “Cheguei a ter uma paragem cardíaca. Mas eu sabia que ainda havia muita coisa cá fora para fazer, foi a isso que me agarrei. Queria comprar uma casa, voltar a trabalhar.”

Nem a previsão de uma vida agarrada a um saco de colostomia a assustava. “Sabia que iria valer a pena. Foi curioso, mas nunca estranhei nada. Para mim, já tinha nascido assim e a ostomia iria ajudar-me a ter melhores condições de vida.”

“Os prós são muito mais do que os contras. Agora que penso nisso, acho que nunca me foquei no lado negativo. Sou uma pessoa muito prática”, explica. “Os tratamentos provocavam muita queda de cabelo e sempre disse que se tivesse que o rapar, rapava. Se tivesse que tirar uma perna, tirava, desde que isso me permitisse viver.”

Ultrapassado o pesadelo hospitalar, chegara a altura de regressar à vida normal que tanto desejava. À sua volta, alertavam-na que essa normalidade poderia não existir. “Ainda no hospital, diziam-me que teria que usar camisolas mais largas, trocar o biquíni pelo fato de banho. Aquilo para mim não fazia sentido nenhum.”

Teve alta. Poucos meses depois, chegava o calor do verão. Saiu de casa com o seu saco de colostomia, comprou um biquíni e foi para a praia. Os olhares de estranheza eram inevitáveis, mas não a incomodaram. Estava apenas feliz por poder voltar a fazer uma vida normal — mais uma vez, pesavam os prós esbatiam os contras.

“Foi uma coisa muito natural para mim. Não me senti incomodada com os olhares. Estava contente e agradecida por estar viva, por estar na praia.” Sabe, contudo, que a sua “personalidade revolucionária” ajuda nesses momentos, mas que nem todos serão como ela.

“Hoje em dia, teria aceite o apoio psiquiátrico que recusei no hospital. Acho que é fundamental e é um tema que abordo muito na minha página. Ninguém aceita bem esta doença, desgasta-nos a todos os níveis, psicológico e físico. Com ajuda psicológica, tudo seria mais fácil.” É também por esse motivo que hoje se expõe e procura servir de exemplo a outras pessoas na mesma situação.

“Acho que depois da ostomia, aquilo de que as pessoas sentem mais medo é das relações íntimas”, nota. “Sinto que as pessoas acreditam que a sua vida vai terminar depois da ostomia, que é o fim de tudo. Entregam-se ao lado negativo e não procuram as coisas boas que a ostomia pode trazer.”

Para trás, ficaram os dias de clausura em casa, sem trabalhar. Hoje veste o que quer. “Podemos usar tudo, calças justas, vestidos. A minha vida é completamente normal, seja a nível pessoal, profissional e íntimo”, declara.

Claro que a ostomia traz consigo alguns cuidados. A atenção ao saco, o cuidado em ter sempre um kit extra e uma muda de roupa. “Obviamente que há dias mais complicados, em que a pele inflama, ou quando o saco abre, embora isso seja muito raro.” Feita a equação, o saldo é sempre positivo, mesmo com as sequelas das cirurgias ainda bem presentes.

“Os problemas operatórios feriram a minha parte ginecológica. Essa parte não está tratada nem vai ficar, haverá sempre episódios maus, mas é uma gota no oceano. A vida que eu tinha antes e agora, são vidas completamente opostas.”

Cinco anos depois da operação e de um longo trabalho de recuperação, está quase no sítio onde, em 2017, sonhava estar. Foi com isso em mente que tomou a decisão de avançar com a ostomização: recuperar a sua vida.

Hoje está de volta ao trabalho. Trocou o trabalho fisicamente duro na restauração por um menos exigente como rececionista e que acarreta “menos risco de criar situações que compliquem o sistema nervoso”. Ainda há objetivos por cumprir, mas esse é apenas mais um dos motivos para continuar a lutar.

“Costumo dizer que a ostomia não é o fim, é sempre o princípio. É preciso é que as pessoas se permitam a ter uma melhor qualidade de vida, sem que sejam elas próprias a anularem essa possibilidade. É difícil, sim, mas é possível.”

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