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A doença que o faz ficar bêbado sem ter bebido uma pinga de álcool

Ainda pouco se sabe sobre a síndrome rara identificada pela primeira vez num paciente japonês, nos anos 70.
Há poucos casos no mundo.

Já pensou no que é ficar embriagado sem beber uma gota de álcool? Pode parecer improvável, mas acontece. Existe uma condição rara, a síndrome da fermentação intestinal, que causa exatamente esse efeito no nosso corpo.

“Esta patologia também é conhecida como a ‘síndrome da autocervejeira’ e ocorre quando determinadas estirpes de bactérias e fungos — como é o caso da Saccharomyces e Candida — habitam no sistema digestivo e acabam por produzir etanol a partir dos hidratos de carbono. Neste caso, o sistema gastrointestinal transforma-se quase numa sala de destilação”, começa por explicar à NiT Gonçalo Botelho, especialista em medicina geral e familiar e medicina preventiva e funcional da Clínica Pilares da Saúde.

Ninguém nasce com este problema, é algo que pode desenvolver-se ao longo da vida. O primeiro caso foi registado no Japão, em 1970. Contudo, volvido mais de meio século, ainda se sabe muito pouco sobre esta doença.

“Em Portugal, que tenha conhecimento, nunca existiu um caso. E, no resto do mundo, existem muito pouco registos. Consequentemente, isso faz com que não existam muitos estudos sobre esta síndrome, não se conseguem fazer grandes ensaios”, explica. O número reduzido de diagnósticos, na opinião do médico, pode fazer com que não se saiba a incidência real da síndrome. “Certamente que existem mais doentes, o que acontece é que podem não produzir um nível de etanol significativo para se detetar que existe algo fora do normal.”

Mas como é possível que o corpo seja capaz de produzir álcool sozinho? Após a ingestão de alimentos ricos em hidratos de carbono, o microbioma intestinal (conjunto de microorganismos presentes no intestino) começa a fazer a fermentação. Quando o processo termina, o álcool daí resultante entra na corrente sanguínea e, posteriormente, provoca sintomas de embriaguez.

“Aqui falamos de coisas como arrastar a fala, dificuldade mesmo em falar, na coordenação motora, vómitos, mudanças de humor e, no limite, até convulsões.” Até agora ainda não há provas científicas que expliquem se existem características ou causas específicas que levem algumas pessoas a desenvolver esta patologia.

“O que já foi possível apurar é que a maioria das que a desenvolveu tinha tido anteriormente problemas gastrointestinais, como a síndrome do intestino curto ou do cólon irritável, doença de Crohn, diabetes mellitus, hepatite ou utilização excessiva de antibióticos.” Ter maus hábitos alimentares durante muitos anos também pode ser considerada uma causa, uma vez que quem o faz tem um mau microbioma, mal florestado (com bactérias prejudiciais) tem mais propensão.

Ainda assim, é importante perceber que estes fatores não significam, por si, só que vamos desenvolver esta condição. “Para causar esta catástrofe metabólica, é necessário que um doente tenha quase todas as coisas que descrevi ao mesmo tempo. E mesmo assim isso pode não ser suficiente. Todos nós temos estas bactérias e fungos, mas nem todos vamos sofrer da síndrome.”

Nas pessoas que realmente sofrem de síndrome da fermentação intestinal, quanto menor for a tolerância ao álcool, maior será a intoxicação alcoólica. Há quem chegue a produzir níveis muito elevados etanol e a doença pode não só dar origem a ter problemas no fígado, ainda que efetivamente não se beba, como também causar danos sociais.

“Basta pensarmos que podemos ficar neste estado por simplesmente comer um prato de massa. O impacto que vai ter no dia a dia é gigante. Daqui podem também surgir problemas judiciais e jurídicos. Nos casos das pessoas iam a guiar, e depois, quando sopram o balão, acusam álcool, mas não consumiram, isso é muito difícil de provar. Já aconteceram alguns casos no estrangeiro e é mesmo uma dor de cabeça.”

Um dos casos que Gonçalo Botelho recorda aconteceu na Bélgica. Um homem acabou por ser ilibado pelo tribunal após ter sido apanhado a conduzir embriagado. Foi preciso que vários médicos dessem o seu parecer para que a instância tomasse a decisão final.

“O diagnóstico é difícil de fazer, não há um exame que nos diga se a pessoa tem essa doença ou não. A forma mais fácil é mesmo observar o histórico clínico da pessoa e ter a certeza que ela não bebe. Pode tentar-se também estudar o seu microbioma e fazer testes de provocação, como se faz com a glicose, mas aqui para ver os níveis de álcool no sangue.”

A nível de tratamento, o que o médico recomenda é mesmo mudar o estilo de vida e de alimentação. Também se podem tomar antibióticos para eliminar as más bactérias que estão a provocar a doença, e probióticos para reflorestar com as boas. “Desta forma é possível que se consiga fazer uma vida tranquila e normal, dentro dos possíveis,” conclui.

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