cultura

Vanessa deixou o Direito e abriu uma padaria vegana. Agora é artista e curadora em Oeiras

Chegou ao concelho em março e já organiza workshops e uma exposição coletiva no Mercado de Oeiras, integrada na Semana do Brasil.

Vanessa Santuccione, artista de 32 anos, mudou-se para Oeiras em março de 2026, com o marido, decidida a levar a sua arte à região. Poucos meses depois, já tinha dado workshops de colagem em dois espaços da região e assumido a curadoria da exposição coletiva “Sapopemas”, integrada na Semana do Brasil. O trabalho da artista pode agora ser conhecido no Mercado de Oeiras, onde a mostra fica patente até este fim de semana.

Formada em Direito pela PUC Goiás, a curadora exerceu como advogada especializada em Direito da Saúde em Goiânia, no Brasil. Em 2018, durante um período de ansiedade ligado à dureza dos casos que acompanhava, começou a ver vídeos de pintura para relaxar. Comprou as primeiras telas e tintas numa feira da cidade, ao lado do marido, e passou a pintar relógios e telas com resina, que vendia sobretudo a colegas advogadas e expunha em cafés e hamburguerias locais.

No ano seguinte, surgiu outra mudança de rumo. Uma endometriose deixou-a mais fragilizada e levou o casal a repensar os planos. Nessa fase, o marido, também advogado, começou a investigar a ascendência italiana da família em busca da cidadania, o primeiro passo para concretizar o sonho antigo do casal de viver fora do Brasil. Durante a pesquisa, descobriu uma curiosidade sobre a bisavó italiana de Vanessa, que teria fugido de casa a cavalo para se casar, antes de emigrar. O processo levou também o marido a mudar de carreira e trocar o Direito pela área da tecnologia, mais compatível com o trabalho remoto de que o casal viria a precisar.

Seguiram-se várias mudanças de carreira até Vanessa Santuccione se encontrar e assumir como artista. Aproximou-se de práticas terapêuticas alternativas, com formações em reiki, teta healing, hermetismo e espiritismo, em paralelo com as artes. Formou-se ainda em pastelaria e panificação, especializou-se em receitas veganas e montou, com o marido, a primeira padaria totalmente vegana de Goiânia, chamada Seiva. Chegou a dar workshops de bolos e pizzas veganas antes de decidirem, em 2024, desfazer-se de quase tudo – casa, carro e negócio – e mudar-se para Valência, em Espanha, com duas malas cada e uma mochila.

Em Valência, Vanessa dedicou-se finalmente a tempo inteiro à pintura e à escrita de poesia. Fez uma exposição a solo num café e outra coletiva num centro cultural da cidade, depois de conhecer, num intercâmbio de línguas organizado num café-bar, uma anfitriã que a apresentou a um artista já ligado ao espaço. Na cidade espanhola, começou também a experimentar a colagem digital, fascinada com a possibilidade de misturar poesia, aguarela e pintura acrílica numa única composição.

Vanessa durante uma colagem ao vivo para a Max Mara em Pescara, na Itália.

Depois de um ano e quatro meses em Valência, o casal seguiu para Pescara, em Itália, na região de origem da família, com o objetivo de tratar da documentação da cidadania. A estadia, pensada para três meses, prolongou-se por nove. “Era uma cidadezinha pacata, tranquila, com comida boa”, recorda Vanessa Santuccione.

Foi ainda em Pescara que recebeu, por e-mail, o convite que mudaria o rumo da sua carreira artística. Uma agência de intermediação entre marcas de luxo e artistas procurava alguém para criar colagens ao vivo em lojas da Max Mara, para a ativação da coleção de outono “Untamed Hearing”, inspirada na poesia das irmãs Brontë. Vanessa Santuccione nunca tinha feito colagem analógica antes, mas aceitou o desafio. Sugeriu à equipa a inclusão de folhas secas e livros antigos de poesia nas composições – ideias que acabaram incorporadas no briefing enviado aos restantes artistas do projeto. “Live art é uma performance onde o público vê o invisível virar visível”, explica a curadora. “Fragmentos soltos viram narrativa em tempo real.”

De Itália, o casal mudou-se para Oeiras, concelho onde vive atualmente. Assim que chegou, Vanessa começou a apresentar-se como artista e a organizar workshops de colagem, entre eles um no Café Lab. Foi também aqui que conheceu Pedro, dono da gelateria Don Pavilli, a quem ofereceu espontaneamente uma colagem digital inspirada num novo sabor, sendo que uma das vertentes do seu trabalho passa precisamente por criar este tipo de peça para empresas.

O gesto resultou, meses depois, num convite para assumir a curadoria artística de “Sapopemas”, exposição que reúne sete artistas de Portugal, Brasil, Itália e França: Vanessa Santuccione, Giulia Scapin, Rita Grancho, Monica Rochlin, Ju Menie, Nanda Gondim e Dai Moraes. A mostra fica patente no Mercado de Oeiras até sábado, 12 de setembro. O nome Sapopemas vem do tupi e designa as raízes gigantes que se desenvolvem junto ao tronco de árvores da floresta tropical, chegando aos dois metros de altura e a dez metros de diâmetro. Entre os indígenas e caboclos brasileiros, existe a crença de que é nessas raízes que dormem os curupiras, figuras do folclore associadas à proteção da natureza. A exposição usa a imagem das raízes para simbolizar o percurso de quem, como Vanessa Santuccione, construiu uma vida longe de casa.

Antes de a mostra terminar, Vanessa Santuccione promove ainda um novo workshop. “Recortes do Brasil: Workshop Criativo de Colagem” acontece no domingo, 13 de setembro, das 10h30 às 13 horas, na Confraria do Polvo. Inspirado na estética e na cultura brasileiras, o momento convida os participantes a construir novas narrativas visuais e obras de arte originais a partir de recortes, cores e texturas. A participação é gratuita, mediante inscrição pelo Instagram da Semana do Brasil.

Entre um projeto e outro, a artista mantém um sonho a longo prazo: criar uma fundação artística, com um espaço onde outros artistas possam também dar workshops e expor os seus trabalhos. Por enquanto, é a colagem que continua a ocupar o centro do seu percurso. “Para mim, a colagem é maravilhosa, porque oferece infinitas possibilidades”, diz.

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