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“The Virtues”: chegou a Portugal uma das melhores minisséries do ano (não é exagero)

É um drama pesado e realista sobre traumas reprimidos. Tem apenas quatro episódios e vê-se numa só tarde.
Stephen Graham é o protagonista.

Chama-se “The Virtues” e é uma discreta minissérie britânica que estreou há dois anos na televisão inglesa. Esta quinta-feira, 28 de janeiro, chega finalmente a Portugal: está disponível na plataforma de streaming Filmin, que se dedica sobretudo a cinema independente e de autor.

É o mais recente projeto de Shane Meadows, realizador mais conhecido pelo fantástico filme “This is England — Isto é Inglaterra” e os vários spinoffs televisivos que resultaram daí. Meadows reuniu-se a Jack Thorne para orquestrar uma história baseada nas suas vivências reais. Mas já lá vamos.

Antes de mais, convém explicar a simples premissa para esta minissérie de quatro episódios. Um homem de meia-idade está numa fase particularmente difícil da vida quando o seu filho de nove anos se muda para a Austrália com a mãe (sua ex-mulher) e o padrasto.

Receoso que não vá aguentar a catástrofe emocional que se abateu sobre ele — e numa tentativa desesperada de não sucumbir e regressar ao alcoolismo — Joseph (assim se chama o protagonista) regressa ao país natal, a Irlanda, para voltar a estar com a irmã, que não vê desde que eram crianças.

O ponto de partida é a gota de água que colocou Joseph nesta situação de desespero. O que fazemos a partir daí — e ao longo dos quatro episódios — é desconstruir esta pessoa e perceber os problemas e os traumas que o colocaram no lugar em que está hoje, que o tornaram na pessoa que é. A viagem de regresso à Irlanda, onde vai enfrentar o passado, serve para isso mesmo.

Não podemos revelar muito mais sobre a história — pois o objetivo da série, e parte pelo qual é tão boa, é o processo de descoberta. “The Virtues” está filmada de forma exímia por Shane Meadows, com um realismo inerente que é sublime. As cenas, literalmente, não parecem de todo encenadas — não parece que foram orquestradas para um público ver em casa.

A experiência é como assistir a uma conversa entre dois estranhos; ou interromper alguém que conhecemos a falar sobre algo que não entendemos. O contexto não existe, mas, aos poucos e poucos, vamos percebendo o que está a acontecer — e não são necessárias, como na grande maioria da televisão e do cinema, pistas óbvias.

Stephen Graham é o grande protagonista enquanto Joseph. O ator de 47 anos (que já tinha trabalhado com Meadows em “This is England”) está brilhante no papel. Volta a mostrar como é um dos nomes mais subvalorizados da indústria quando se fala de grandes atores da sua geração.

É uma performance extremamente difícil, com muitos estados emocionais díspares, traumas reprimidos, ataques de pânico, bebedeiras alegres que disfarçam tristezas profundas, momentos de compaixão e de raiva. Graham é obrigado a usar quase todo o espetro de emoções em quatro episódios — e interpreta da melhor forma este homem comum, profundamente marcado pelos problemas da sua vida, que por vezes faz as coisas de maneira racional, e que noutras ocasiões, toldado pelos sentimentos, reage impulsivamente.

“The Virtues” é um melodrama sentido e pesado, carregado de tensão, que nos dá outras boas personagens. É o caso da irmã de Joseph, Anna (Helen Behan), que leva uma vida normal e não sabe o que o regresso do irmão vai despoletar; ou da sua cunhada, Dinah (Niamh Algar), ela que também tem traumas e que vai acabar por levar um caminho paralelo ao de Joseph enquanto caminhamos para o final trágico do enredo.

Tal como acontece tantas vezes na vida real, trata-se de uma história simples e linear mas cheia de nuances que a tornam complexa. É rica, densa, multifacetada e com várias reviravoltas imprevisíveis. É uma série de sensações, por exemplo, Shane Meadows filmou as cenas turvas de flashback como se fosse uma cassete de VHS dos anos 80. Há também cenas em que o protagonista está desorientado e todo o estilo de realização e direção de fotografia é adaptado à forma como ele se sente.

“The Virtues” tem menos diálogos do que outros trabalhos de Shane Meadows — o silêncio é uma parte relevante, já que conseguimos absorver os sentimentos e emoções das personagens através das suas pequenas expressões faciais e da linguagem corporal. É um trabalho de excelência dos atores.

A produção conta com uma banda sonora composta por PJ Harvey. Outro dos elementos mais fascinantes é que se inspira bastante na vida real do realizador. Shane Meadows revelou em 2019, numa entrevista ao “The Guardian” a propósito da estreia desta minissérie, como foi vítima de abusos sexuais na infância, como teve uma adolescência bastante atribulada (que, aliás, serviu de base à história de “This is England”) e como isso se reflete significativamente em “The Virtues”.

Este é mais um projeto no seu currículo que conta um pedaço da sua história. Joseph é como se fosse um alter-ego seu, alguém que mergulha no passado e que acaba a tentar resolver os traumas reprimidos que nós, espectadores, vamos descobrindo à medida que reaparecem e que ele os confronta.

É uma daquelas séries que promete acompanhar os espectadores, pela intensidade da história e das emoções, durante algum tempo depois do fim. Vale a pena embarcar nesta viagem — cada episódio tem cerca de 45 minutos, tirando o último, que chega à uma hora e um quarto.

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