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“Scenes from a Marriage” é uma obra-prima — e uma das melhores séries do ano

A produção da HBO tem 5 episódios e é protagonizada e produzida por duas estrelas, Oscar Isaac e Jessica Chastain.
Jessica Chastain e Oscar Isaac são os protagonistas.

Estreou na HBO Portugal há cerca de um mês, a 13 de setembro, e só tem cinco episódios — mas bastaram para que “Scenes from a Marriage” seja uma das candidatas a série do ano. Esta é a história de um casal ao longo dos anos, que culminou com um capítulo final esta segunda-feira, 11 de outubro.

Jonathan é um professor de filosofia conformado com a sua relação de cerca de 15 anos. Mira é uma ambiciosa executiva das empresas tecnológicas, que se sente perdida no seu casamento. Têm uma filha pequena, mas, acima de tudo, o que os une é um amor inegável e a inevitabilidade de viverem um com o outro. Mesmo quando também se odeiam, mesmo quando tem tudo para correr mal.

A NiT dá-lhe quatro razões para começar a ver a série que tem passado relativamente abaixo do radar.

O remake de um clássico de Ingmar Bergman

“Scenes from a Marriage” é um remake de “Cenas da Vida Conjugal”, minissérie do lendário cineasta sueco Ingmar Bergman, que estreou em 1973 na televisão local — antes de ser lançada uma versão cinematográfica compacta que percorreu o mundo. O texto também foi interpretado inúmeras vezes no teatro.

É uma série do realizador de “Terapia”

A ideia de fazer uma adaptação moderna partiu de um dos nove filhos do sueco, Daniel Bergman, que apresentou o projeto ao realizador israelita Hagai Levi (criador da também série intimista “Terapia”), cujo trabalho tinha sido assumidamente influenciado por “Cenas da Vida Conjugal”.

“É de longe a peça de arte que mais me influenciou. Vi acidentalmente quando tinha 18 anos, era um jovem e religioso rapaz judeu numa cidade remota, que não sabia nada sobre cinema, relações ou sexo. E lembro-me de pensar para mim mesmo: então, isto é que é arte”, diz Hagai Levi num comunicado enviado pela HBO.

“É honestidade brutal, minimalismo radical, a confiança absoluta no texto e na performance. (…) Numa era narcisista de sociedade de consumo, que nos encoraja a estarmos constantemente atualizados e à procura de uma liberdade vazia, também vale a pena recordar o quão traumática é uma separação, normalmente. Ainda assim, esta é uma história de amor. Duas pessoas que se salvaram uma à outra quando se conheceram, morreram juntas quando viveram juntas, e não conseguem desistir uma da outra, mesmo quando chegam ao fundo do poço”, acrescenta o cineasta.

A história foi completamente transformada em relação à original. No centro desta narrativa está um casal contemporâneo americano, de classe média (muito) alta, e os diferentes detalhes sobre a sua relação são distintos. Além disso, os papéis de género foram trocados. No original, o homem é a figura mais dominante, que está de saída da relação — aqui acontece ao contrário, embora uma das críticas que se possa fazer é que é claramente mais difícil empatizar com a personagem de Jessica Chastain, sobretudo no início.

Os dois atores protagonistas, Oscar Isaac e Jessica Chastain

Oscar Isaac e Jessica Chastain encantaram os fãs no Festival de Cinema de Veneza, em setembro. Na passadeira vermelha, o ator aproximou o rosto do braço da sua colega, inspirou fundo e beijou-o. A troca de olhares e a evidente cumplicidade entre ambos foram os elementos que levaram a que milhares de fãs comentassem e partilhassem as imagens nas redes sociais. Os dois, que são amigos próximos há 20 anos (estudaram juntos e protagonizaram “Um Ano Muito Violento”), estavam presentes para a estreia mundial de “Scenes from a Marriage”.

Quase todas as cenas da minissérie têm os dois atores presentes. Tudo depende do seu trabalho. Isaac interpreta Jonathan, um professor de filosofia conformado com a sua relação de longa data, mergulhado na sua rotina, impermeável aos sinais de insatisfação vindos da sua mulher. Chastain é Mira, uma ambiciosa executiva das empresas tecnológicas, que se sente perdida na sua relação. Têm uma filha pequena.

É uma abordagem rara sobre a complexidade das relações e emoções humanas

Ao longo da história, que se desenrola durante vários anos, uma série de acontecimentos vai colocá-los em posições diferentes, com estados de espírito muito distintos. O que parece óbvio é que se amam e que não conseguem viver um sem o outro — mesmo quando também se odeiam. 

Embora não faltem exemplos de outras séries ou filmes (recentes ou antigos) com um registo intimista que abordem relações humanas realistas e complexas, nesse sentido “Scenes from a Marriage” é uma das melhores produções dessa lista. Dotada de uma grande sensibilidade e inteligência emocional, tem a abordagem difícil de conseguir retratar a enorme complexidade que pode ser a relação entre duas pessoas. Raramente vemos algo assim transposto num ecrã de televisão.

Mesmo quando as emoções são contraditórias, quando os estados de espírito mudam radicalmente de um episódio para o outro, a minissérie consegue espelhar isso de forma exemplar. Embora a realidade dos espectadores possa ser completamente diferente, a minissérie é facilmente relacionável em diversos aspetos.

Hagai Levi terá tido dúvidas sobre como recriar uma história tão emblemática, mas acabou por aceitar o projeto e — tal como Bergman fez — basear-se nas suas próprias experiências pessoais. Bergman inspirou-se na relação atribulada que manteve com Liv Ullman, atriz da versão original, para escrever o texto. Levi estava recém-divorciado quando começou a trabalhar na adaptação desta minissérie. Debruçou-se sobre as próprias emoções e sentimentos, muitas vezes contraditórios, para transformar o texto já existente. Jonathan, uma personagem judaica com uma relação atribulada com a sua cultura e fé, deverá certamente ir buscar muitas das suas características a Levi.

 

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