cultura

Sara Norte: de “Golpe de Sorte” a empregada de mesa. “A minha oportunidade há-de chegar”

A NiT entrevistou a atriz de 36 anos, que desde o início da pandemia não tem tido trabalho constante na área da representação.
A atriz trabalha no Albatroz.

Sara Norte tem sido um nome frequente nas notícias das últimas semanas pelo facto de a atriz estar agora a trabalhar como empregada de mesa num restaurante de praia. À NiT, explica que desde o início da pandemia tem tido poucas oportunidades de trabalho na área da representação, por isso teve de procurar alternativas.

Antes do restaurante Albatroz, na Cova do Vapor, concelho de Almada (onde está desde 21 de maio), a atriz de 36 anos trabalhou como auxiliar numa escola. Este ano já gravou uma cena na série da RTP “Fernão Lopes: A História de um Soldado Desconhecido”; uma participação na produção “Cavalos de Corrida”, também da estação pública, pnde faz de enfermeira; e em breve terá dois dias de rodagem na nova temporada de “3 Mulheres”.

Apesar de não estar na melhor fase da sua carreira, Sara Norte diz manter-se positiva e tem a certeza de que acabará por surgir a sua grande oportunidade. Entretanto está num trabalho de que gosta, ainda que o veja como uma experiência temporária. Leia a entrevista.

A Sara não tem tido trabalho na área da representação e por isso é que começou a trabalhar num restaurante, certo?
Eu tenho mas são esporádicos e não me posso dar ao luxo de estar parada, por dinheiro e pela cabeça, porque não sou uma pessoa que gosta muito de estar parada. Trabalho dois dias e os outros 28 fico a enlouquecer em casa a bater com a cabeça nas paredes? Não… Há quem consiga, eu não critico — se calhar se eu fosse rica também não me importava de estar sem trabalhar, andava sempre a viajar, a comprar coisas… quer dizer, comprar não porque também não sou muito disso. Agora, não consigo é, para a minha sanidade mental, estar quieta e parada. Para mim não dá.

E foi por não ter trabalho como atriz de forma constante que começou a procurar alternativas.
Sim, mas sempre fiz isso, desde miúda. Eu sei que esta vida é instável. Tive sorte, por exemplo, de no “Golpe de Sorte” ter uma participação na primeira temporada com mais dias de gravação. Mas quando isto da pandemia começou… porque realmente tive um ano de 2019 muito bom, sempre a trabalhar. E depois chegou 2020 e parou tudo. E depois a minha irmã morreu e eu comecei a ficar em casa, a pensar muito, e quando estamos muito tempo a pensar raramente dá bom resultado. Comecei a sentir-me mais triste e desmotivada. Na altura procurei trabalho no IEFP, no centro de emprego, e consegui uma bolsa para trabalhar nas escolas. Fui trabalhar como auxiliar. Trabalhava 12 horas — oito para a tal bolsa e mais quatro para a associação de pais. Depois, acabou a bolsa do IEFP, durou dois meses. E fiquei a fazer as tais quatro horas, mas depois não podia só receber 300 euros por mês, que não é nada. Entrava às sete e meia da manhã e às 11h30 estava despachada e ficava o resto do dia sem fazer nada. Foi quando uma amiga minha, uma professora que trabalhava comigo na escola, me falou deste restaurante que estava a precisar de pessoas. Enviei o meu currículo e passado dois, três dias estava a trabalhar. 

Por aquilo que tem partilhado nas redes sociais, tem sido uma boa experiência.
Sim, claro que sim, estou num restaurante familiar, que é impecável e é gerido por duas famílias, basicamente. São pessoas boas. Sabes que às vezes cansas-te da vida quando tens tudo, quando estás em estúdio, por exemplo, e tens um bom ordenado. E ali sou confrontada com uma realidade em que as pessoas têm problemas — e toda a gente tem na vida — em que as pessoas estão a receber um ordenado mínimo, basicamente, e vão sempre com uma alegria e pouco se queixam. Estão sempre preocupados uns com os outros. Às vezes até me emociono com essas coisas, porque são pessoas boas, simples, trabalhadoras, lutadoras, que nunca desistem. E tenho tido grandes lições.

É um mundo muito diferente do da representação?
Sim, se bem que também há pessoas muito boas na representação, não digo o contrário. Mas aqui é uma realidade diferente. Por acaso, desde miúda que gosto muito de conhecer pessoas de vários estratos, pessoas diferentes, acho que me enriquece enquanto pessoa e atriz.

Pela experiência de vida que pode carregar para os papéis?
Sim, é sempre bom e sinto-me muito afortunada porque mesmo no meio do caos que a minha vida… Às vezes penso “fogo, parece que as coisas só acontecem a mim”, mas no meio disto tudo também sou uma sortuda. Porque acabo por conhecer pessoas boas e que gostam de mim, e sei que se precisar elas estão lá, nem que seja com um abraço.

Tem tido pessoas a reconhecê-la no restaurante?
Sim [risos], muitas. Dizem que a voz e os olhos são inconfundíveis… muitas pessoas reconhecem, sim. E dão-me muita força, dizem que gostavam de me ver mais na televisão, mas dizem para não desistir, e essas palavras de apoio são sempre boas de ouvir.

Também ajudam a manter o ânimo.
Sim, às vezes fico um bocadinho emocionada e tal [risos], alguns dias estou mais em baixo, mas claro que fico contente.

A falta de trabalho na área da representação tem a ver ainda com a pandemia? Ou com outras razões?
Não sei, acho que isto é de fases. O que já aprendi, porque tenho um pai ator e uma mãe atriz, é que isto são fases, são marés. Às vezes há muito trabalho, às vezes há pouco, e se escolhemos esta vida temos que nos adaptar a ela. E eu adaptei-me da forma que achei melhor, pronto, que é arranjar outra coisa enquanto estou parada.

No geral sente que há uma falta de reconhecimento do seu trabalho, enquanto atriz?
Não, nada disso, pelo contrário. Tenho tido boas oportunidades, não tenho tido grandes papéis nem com uma grande incidência, mas mesmo com papéis pequeninos tenho tido oportunidade de fazer sempre personagens muito diferentes. O que às vezes é muito difícil, até para aqueles atores que estão a fazer de protagonistas numa novela, porque tenho conseguido explorar várias personagens. E arrisco tudo. Às vezes vejo as coisas e penso “ai meu deus, o que é que eu fui fazer?” Mas pelo menos arrisquei e tentei ser diferente, e que nenhuma personagem fosse igual a outra. Se me perguntares se gostava de ter mais oportunidades, ou uma prova de fogo, claro que sim. Gosto de trabalhar, de explorar e de arriscar. Mas também acredito que irá surgir a minha oportunidade. Tudo a seu tempo — e sempre com esperança e positividade. Não culpar os outros pelas coisas, nada disso, isso não leva a lado nenhum. A minha oportunidade há de chegar, eu acredito que sim. 

E houve algum convite ou proposta recente de trabalho como atriz que, por alguma razão, não tenha aceitado fazer?
Não, nunca me aconteceu, nunca rejeitei trabalho. Ainda não estou nesse patamar [risos]. Claro que se fosse uma coisa contra a minha integridade, ou que eu não achasse correto… Se bem que em ficção acho que tudo é possível e tudo se pode fazer.

Quais são os tipos de papéis que nunca fez mas que adorava explorar?
Um qualquer, todos… Acho que quanto mais diferente de mim, melhor. No “Golpe de Sorte” fiz papel de boazinha, que é muito difícil… Eu pensava que era mais fácil, mas é difícil ser-se boazinha e credível. Mas gostava de fazer uma vilã, já fiz uma em “Água de Mar”, a Liliana, que era completamente passada. Mas acho que qualquer papel que tenhas é um desafio. E quando recebo um papel dedico-me mesmo muito, porque sou um bocado workaholic, obcecada, imagino logo como é que ela anda, como é que fala, como é que respira, olha, ri. Qualquer papel que me deem acho especial.

MAIS HISTÓRIAS DE OEIRAS

AGENDA