Dois miúdos envolvem-se numa luta, um deles perde dois dentes e os pais decidem encontrar-se para resolver o assunto de forma civilizada. À partida, nada que uma conversa à volta de uma mesa, com chá e bolos, não possa resolver. O problema é que as boas maneiras duram pouco e, à medida que a reunião avança, os quatro adultos começam a revelar um lado que preferiam manter escondido. É este o ponto de partida de “O Deus da Carnificina”, peça da dramaturga francesa Yasmina Reza que chega pela primeira vez a Oeiras, com estreia marcada para sexta-feira, 25 de setembro, numa produção do Teatro Independente de Oeiras (TIO), em coprodução com a estrutura A Rafeira.
Escrita em 2006, a peça já foi encenada em mais de 30 países e traduzida para dezenas de idiomas e valeu à autora prémios como o Tony, o Molière e o Olivier. Em 2011, ganhou uma adaptação ao cinema, realizada por Roman Polanski, com o título “Carnificina”. A nova produção tem encenação de Carlos d’Almeida Ribeiro, diretor do TIO há 36 anos, que falou com a New in Oeiras sobre o desafio de levar a palco um texto marcado pela tensão crescente entre as personagens. “Não fui eu que criei a tensão. Eu só não deixei que ela fugisse”, diz.
Na origem do conflito está uma agressão entre dois rapazes de 11 anos: um bate no outro com um pau e parte-lhe dois dentes. Os pais das crianças combinam encontrar-se em casa de um dos casais para discutir o sucedido. A conversa começa com chá, bolos e palavras educadas, mas depressa dá lugar a acusações, interrupções e discussões cada vez mais acesas.
Em vez de uma sala de estar tradicional, Carlos d’Almeida Ribeiro escolheu um cenário branco, sem esconderijos, com o público a apenas dois metros dos atores. “Quando não há quarta parede, não há intervalo emocional”, explica. Ao longo dos 90 minutos de espetáculo, sem intervalo, o ritmo acompanha a deterioração da conversa: as primeiras falas ainda incluem expressões como “com licença”, mas, ao fim de meia hora, surgem as interrupções e, aos 60 minutos, as quatro personagens já gritam umas por cima das outras. O rum que bebem durante a reunião também contribui para essa transformação. “A cada copo, uma camada de verniz cai”, explica o encenador.
Bruno e Fernando, os dois miúdos que desencadeiam o conflito, nunca aparecem em palco. São os pais que discutem em nome deles, apesar de as crianças nem sequer estarem presentes para assistir à discussão. “Fizemos uma peça sobre como todos nós, quando nos sentimos atacados, voltamos a ter 11 anos e queremos pegar num pau e bater”, resume Carlos d’Almeida Ribeiro.
A encenação trouxe desafios que exigiram atenção ao mais pequeno detalhe. Uma cena de vómito, que marca um ponto de viragem na história, precisou de dois dias de ensaios para encontrar o equilíbrio entre o grotesco e o verosímil. Evitar a caricatura foi outra preocupação constante e por detrás das gargalhadas, estão dois casais cujos casamentos se começam a desfazer, e cada momento de humor deixa entrever uma mágoa maior.
Nos últimos 15 minutos, o espetáculo muda de registo. “O público começa a ficar desconfortável porque se reconhece”, conta o encenador. “O final tem de ser cruel.”
Quase duas décadas depois de ter sido escrita, a peça ganhou, segundo Carlos d’Almeida Ribeiro, uma nova leitura. Um dos exemplos é o telemóvel de Alberto, que não para de tocar durante a reunião. “Estamos todos numa reunião sobre o dente partido do filho enquanto respondemos a um email de trabalho, a um grupo do WhatsApp da escola e a fazer scroll no Instagram”, diz.
Para o encenador, a história também aborda a parentalidade como uma forma de exposição pública. “Se o meu filho for o agressor, o que é que isso diz sobre mim?”, questiona. Mostra ainda como um discurso educado, cheio de expressões como “mediação” e “comunicação não violenta”, pode desaparecer assim que alguém se sente encurralado. “O deus da carnificina somos nós”, resume.

Habituado a dirigir musicais e comédias familiares, Carlos d’Almeida Ribeiro aceitou o desafio lançado por Clara Passarinho, responsável pela estrutura A Rafeira, coprodutora do espetáculo, e apaixonou-se pelo texto ainda antes do primeiro ensaio. Encontrou nesta história o oposto dos finais felizes a que estava habituado. “Aqui o final é dois casais destruídos e dois miúdos que afinal já fizeram as pazes no parque e nem querem saber”, diz.
A passagem de produções com dezenas de intérpretes para uma peça com apenas quatro atores também representou um regresso ao essencial. “É como passar de uma orquestra sinfónica para um quarteto de cordas. Ouve-se tudo.”
O encenador admite reconhecer-se nas quatro personagens e encontrar semelhanças com pessoas que conhece. “Tenho amigos e conhecidos que são estes casais. Gente culta, bem intencionada, que leu os livros certos, que separa o lixo, que vai a ver exposições, e que de repente, num jantar por causa da escola dos filhos, diz coisas horríveis que pensava que já não estavam dentro deles”, conta. “Eu já fui o Alberto ao telefone. Já fui a Bernardete a tentar acalmar.”
É precisamente esse reconhecimento que espera provocar em quem assistir à peça. “Depois que o espetáculo acabar, quero que saiam com aquele desconforto bom, aquele que fica”, diz Carlos d’Almeida Ribeiro. “Quero que um casal, no carro a caminho de casa, comece a fazer o jogo perigoso: ‘tu és mais qual deles?’”
O encenador gostaria que o público saísse com uma mistura de vergonha e alívio: vergonha por identificar os próprios excessos nas personagens e alívio por não os ter cometido à frente de estranhos. Deixa ainda uma última provocação, ligada ao desfecho da história, em que os dois miúdos já fizeram as pazes muito antes dos pais. “Quantas guerras minhas é que eu estou a travar e que o meu filho já esqueceu?”
O elenco reúne Miguel Migueis e Maria Toscano, nos papéis de Miguel e Verónica Fonseca, e Gonçalo Lima e Clara Passarinho, que também coproduz o espetáculo, como Alberto e Bernardete Cardoso de Menezes.
“O Deus da Carnificina” estará em cena entre sexta-feira, 25 de setembro, e domingo, 18 de outubro, no Teatro Independente de Oeiras, no Edifício Parque Oceano, na Rua Dr. José Joaquim de Almeida, 2, em Santo Amaro de Oeiras. As sessões acontecem às sextas-feiras, às 21h30, e aos domingos, às 17 horas.
Os bilhetes custam entre 15€ e 18€ e estão à venda na Ticketline, Fnac, Worten, El Corte Inglés e C. C. Dolce Vita.








