Tinha apenas sete anos quando percebeu que o piano seria o seu companheiro para a vida. Três décadas depois desse primeiro encontro, Teresa da Palma Pereira é uma das pianistas mais reconhecidas do País e pode orgulhar-se de outro feito: ter criado um dos maiores eventos dedicados ao instrumento na terra que a viu nascer, Oeiras.
Nascida em Linda-a-Velha, a pianista de 40 anos fundou o Festival Internacional de Piano de Oeiras (FIPO) por sentir “falta em Portugal de um evento só dedicado ao piano” e desde 2018 que assume a direção artística do projeto, que este verão regressa para a sua nona edição com seis recitais, todos aos domingos às 18 horas, entre 5 de julho e 2 de agosto, no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Carnaxide. A entrada é gratuita, mediante inscrição prévia.
Oeiras era a única escolha possível. “Sempre estive ligada a Oeiras, de facto, porque é a minha terra”, diz. Hoje, considera que o FIPO já ultrapassou a dimensão de um simples festival de música clássica. “Tem dado a conhecer a música clássica a muitos habitantes que não costumavam ir a concertos e trazido pessoas de fora, até turistas de outros países”, conta.
“É surpreendente ver a diversidade no público e o entusiasmo que este evento gera: há pessoas que vivem este mês de julho com muita intensidade, fazendo questão de marcar presença em todos os recitais e criando grupos de convívio dentro do próprio público.”
Ao longo das nove edições, o festival consolidou-se como uma das principais referências culturais do concelho. O Auditório Municipal Ruy de Carvalho tem capacidade para 288 pessoas e, desde 2024, todos os concertos têm esgotado. “Inicialmente só esgotávamos pontualmente, com pianistas como Piotr Anderszewski ou Nikolai Lugansky”, recorda. “Progressivamente, esgotar tornou-se a regra.” Este ano, a resposta foi acrescentar mais um recital: seis em vez de cinco.
Mas o percurso também teve momentos difíceis. Em 2020, a pandemia obrigou a transmitir os concertos online e Teresa soube apenas na véspera que não poderia ter público na sala. No último concerto desse ano, já em agosto, o auditório voltou a abrir com Valentina Lisitsa em palco. Era o primeiro espetáculo com público depois de meses de encerramento, ainda com máscaras, distanciamento e todas as restrições da época. “Sem dúvida, muito emocionante”, recorda.
Com múltiplos recitais em Portugal e no estrangeiro, Teresa da Palma Pereira passou pelos principais palcos do País, do Centro Cultural de Belém ao Festival de Sintra, dos Dias da Música ao Centro Cultural de Cascais, e atuou como solista com as principais orquestras portuguesas. A discografia conta já com seis álbuns, de Schubert e Schumann a Debussy, Prokofiev, Liszt, Mussorgsky, Bartók e Albéniz. O mais recente, “Poema”, fica disponível em julho de 2026.
O doutoramento, concluído em 2015 com “Summa cum laude” na Universidade Católica do Porto, debruçou-se sobre a obra de Robert Schumann. “Escolhi Schumann para poder explorar a relação da sua música com a loucura e, sobretudo, com as emoções que se expressam de forma mais transparente no contexto de loucura”, explica. O trabalho deu origem ao livro “Carnaval de Schumann: Obra de Génio e Loucura”, publicado em 2018 com prefácio do Professor Mário Vieira de Carvalho.

Nos últimos anos, a pianista tem dedicado parte da sua atividade a levar a música erudita a novos públicos. Para isso, criou ciclos de recitais didáticos comentados em bairros sociais, livrarias e espaços culturais como a Fundação Portuguesa das Comunicações e o Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha.
Será Teresa quem estará em destaque, ao piano, logo no concerto de abertura que já está esgotado. A 5 de julho, a diretora artística apresenta o recital “Poema”, inspirado na peça homónima do compositor arménio Arno Babajanian, com um programa que percorre Mozart, Mendelssohn, Chopin, Liszt, Albéniz, Rachmaninov, Falla e Debussy.
A ocasião serve também para apresentar o seu novo álbum, igualmente chamado “Poema”, que a partir de 6 de julho estará disponível nas plataformas digitais Spotify, Amazon Music, Tidal e Soundcloud, entre outras, em CD físico para encomenda no seu site ou à venda em espaços como a Fábrica do Braço de Prata.
“O álbum digital e o CD físico têm um conteúdo musical ligeiramente diferente, por isso vale a pena adquirir os dois”, adianta a pianista. “Tem este conceito de fazer a ligação entre a poesia e a música através de momentos breves, mas de intensa expressão emocional”, diz.
A 12 de julho, Anna Fedorova apresenta um programa centrado em três intermezzos de Brahms, na Sonata “Appassionata” de Beethoven e no “Carnaval op.9” de Schumann. E a 19 de julho, Alexei Volodin regressa a Beethoven com as sonatas “Patética” e “Les Adieux”, seguidas de obras de Tchaikovsky e Liszt.
A grande estreia da edição acontece a 26 de julho. Alim Beisembayev, pianista do Cazaquistão de 28 anos e vencedor do Concurso Internacional de Piano de Leeds em 2021, toca pela primeira vez em Portugal. “Espero-o com muita expectativa”, diz Teresa da Palma Pereira. “É um virtuoso, um pianista extraordinário.” O programa inclui a Fantasia “Wanderer” de Schubert e a Sonata em Si menor de Liszt.
A 1 de agosto, e excecionalmente a um sábado, Yoav Levanon, já conhecido do público do FIPO, regressa com um recital intitulado “Ordem e Abismo”, em homenagem ao espírito de Horowitz, com Scarlatti, Beethoven, Scriabin, Rachmaninov e Liszt.
O encerramento, a 2 de agosto, ficará a cargo do britânico Paul Lewis, que traz a Carnaxide a sua digressão mundial “Mozart+”. O programa inclui duas sonatas de Mozart, a terceira “Klavierstücke” de Schubert e a “Polonaise em dó menor” de Chopin. Paul Lewis substitui Rafal Blechacz, que ficou impossibilitado de participar após um problema de saúde durante uma digressão pela China.
No final do concerto de encerramento, Maria João Pires subirá ao palco do Auditório Ruy de Carvalho para receber uma homenagem à sua carreira. “A arte de Maria João Pires é tão excecional que nos faz esquecer que o piano é apenas um instrumento que produz sons”, afirma Teresa da Palma Pereira. “A sua execução é profunda e faz-nos experimentar a simplicidade da perfeição. É uma artista pura e simplesmente incomparável.”








