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O super talentoso filho de Stephen King que passou anos a esconder o nome de família

Assina como Joe Hill e é autor de contos de terror. "Queria que comprassem as minhas histórias porque eram boas, não por ter o pai que tenho."
São muito parecidos.

O nepotismo e os seus bebés é um tema que está na ordem do dia. Seja nas fileiras partidárias ou nos corredores de Hollywood, os casos de sucesso dos filhos das estrelas são mais do que muitos, mesmo quando o talento não está presente.

O caso de Joe Hill poderia ser apenas mais um caso de nepotismo, de uma carreira feita às costas do famoso apelido de família. Acontece que nem o seu primeiro nome é Joe, nem o seu apelido é Hill. São, na verdade, diminutivos dos seus nomes verdadeiros: Jonathan Hillstrom. Ocultado, por decisão estratégica, ficou sempre o último nome, revelador de uma herança pesada.

King. Joe King. Era este o nome que no bilhete de identidade o identificava e identifica como o filho do rei do terror, nem mais nem menos do que Stephen King. Mas quando quis lançar-se também como autor, o então jovem decidiu que o faria nos próprios termos, pelos próprios meios.

“Quando era adolescente tinha uma enorme falta de autoconfiança. E quando me comecei a dedicar à escrita, eu tinha que saber que se alguém comprasse uma das minhas histórias, teria que ser pelos motivos certos, isto é, por ser uma boa história, e não porque o meu pai é quem é”, revelou em 2016 numa entrevista ao jornal britânico “The Telegraph”.

Ao longo de uma década, Joe Hill trabalhou como um talento incógnito. Assumiu as dificuldades de qualquer escritor desconhecido, atenuadas naturalmente pelo dom genético que herdou do pai para a escrita e para o terror. Mais recentemente, por exemplo, viu uma das suas histórias ser adaptada a uma série da Netflix, “Locke & Key”, cuja terceira temporada foi lançada no verão passado.

Começou a publicar aos 25 anos, mas o talento começou a ser moldado muito antes. Acabaria por perceber que partilhava o gosto e o dom do pai para esculpir histórias assustadoras. Isso nunca o preocupou.

“Nunca fiquei preocupado com isso porque ninguém sabia quem eu era. Eu não era o filho do Stephen King que decidiu escrever terror — não importava que o meu pai fosse ótimo a fazê-lo. Eu podia fazê-lo também porque eu era uma pessoa diferente”, afirmou ao “The Guardian” em 2010.

Ao fim de uma década, havia reunido 15 pequenas histórias que tentou vender. Até o seu agente duvidou que isso seria possível. E não sabia, claro, que do outro lado do telefone — nunca o conhecera pessoalmente — estava o filho de Stephen King. Após inúmeras rejeições, o livro acabaria por ser publicado por uma editora britânica e lançado como “20th Century Ghosts” em 2002.

O livro foi um sucesso entre críticos e conquistou vários prémios internacionais de terror. Sempre sem a ajuda do pai e com o pseudónimo intacto, conseguira aquilo que queria: o reconhecimento completamente livre das amarras e do peso do seu apelido. Nenhum dos elogios lhe era dirigido como forma de bajulação ao herdeiro do autor de clássicos como “Carrie” e “The Shining”.

“Um dia, um amigo meu disse-me que cometeria um erro gravíssimo se me dedicasse à escrita porque nunca conseguiria escapar à sombra do meu pai. Fico feliz por nunca lhe ter dado ouvidos”, confessou Hill em 2016.

Já lançado, conseguiria abertura para lançar a sua primeira grande obra, “Heart-Shaped Box”. Por altura do lançamento, em 2007, o seu nome despertava interesse e curiosidade. O livro foi novamente um sucesso e a editora precisava de arrancar com uma boa campanha publicitária, mas isso implicava que Hill saísse da sombra e fosse conhecer os seus fãs em carne e osso.

“Fi-lo e quase de imediato, os fãs de fantasia e terror começaram a comentar: ‘A cara dele não te é familiar?’ Então começaram a apontar para o nome do meu pai, que já tinha dedicado um dos seus livros a um Joe Hill King”, recordou em 2010. “Começaram a discutir sobre isso nos blogues, nos fóruns online, e eu decidi começar a contactar quem escrevia isso pessoalmente. Pedia-lhes que retirassem a informação dos blogues e sempre o fizeram, porque toda a gente adorava a ideia de ajudar a guardar o segredo.”

Inevitavelmente, o segredo espalho-se pela Internet e tornou-se público. “Eu sabia que assim que chegasse online, ia andar a apagar fogachos com os pés, mas que nunca teria pés e mãos suficientes para chegar a todos.”

Apesar da desilusão, Hill tinha conseguido fazer aquilo a que se tinha proposto mais de dez anos antes: tornar-se num escritor bem-sucedido, enquanto mantia o seu apelido incógnito. “Achava que seria perigoso assinar como Joe King, porque um editor poderia aceitar um trabalho medíocre apenas para tentar fazer dinheiro graças ao meu nome. E senti que isso seria a receita para uma carreira curta”, justificou ao “The Guardian”. “Os leitores podem acorrer ao teu primeiro livro por causa do teu apelido famoso, mas se ele não prestar, não vão acompanhar-te no segundo. E eu quero ter a carreira mais longeva possível.”

Com quatro livros em seu nome e mais três coletâneas de pequenos contos, tem também um longo percurso na banda-desenhada. Já escreveu poesia, não-ficção e viu as suas histórias adaptadas à televisão e ao cinema — tal e qual o seu pai. Além da mais recente “Locke & Key”, em 2021 viu o seu conto “The Black Phone” adaptado ao cinema, num filme encabeçado por Ethan Hawke.

“Horns”, o seu aclamado livro de 2010, foi também transformado num filme com Daniel Radcliffe no papel principal. E desde 2019 que tem a sua própria linha de banda-desenhada na DC Comics.

“Sempre me vi como um autor de banda-desenhada, antes do resto. Quando comecei a escrever, senti logo que estava no meu elemento. Era a versão de escrita de que eu mais gostava”, confirmou à “Entertainment Weekly”.

E Joe está longe de ser o único escritor na família. Owen, o seu irmão mais novo, também escreve. A mãe, Tabitha, é a autora orgulhosa de oito romances. Os três gozam também da honra de ver os seus nomes na página de dedicatória do famoso “The Shining”.

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