cultura

Nirvana Studios celebram 20 anos e estão todos convidados para a festa deste sábado

O Festival Open Day do centro cultural alternativo, em Barcarena, tem um programa surpreendente. A entrada é livre.
Fica em Barcarena.

Quando, em 2003, a companhia de teatro Custom Circus chegou àquele que era um antigo depósito militar abandonado, em Barcarena, a ideia era apenas ter um lugar para estacionar os camiões e guardar material utilizado nos espetáculos do grupo, nómada até então. Sem saneamento, água ou eletricidade, o espaço foi sendo recuperado e constantemente melhorado ao longo das últimas duas décadas. Assim nasceram os Nirvana Studios, hoje considerado um centro cultural alternativo, repleto de atividades.

Em 2023, o espaço celebra 20 anos e a festa será em grande. Para isso, foi criado um Festival Open Day, que vai acontecer este sábado, 3 de junho. Com uma programação cultural muito diversificada, centrada maioritariamente nas artes menos convencionais, o evento conta com um programa recheado, desde música, gastronomia, dança, artes plásticas, performances artísticas, lançamento de um livro especial e muito mais. 

A partir das 16 horas, as portas estão abertas para receber o público que quiser conhecer todos os cantinhos dos Nirvana Studios, desde o Teatro Custom Café, à Galeria Strange, algumas salas de ensaio de músicos, os vários espaços onde tudo acontece, e vai estar realmente muita coisa a decorrer. “O festival é uma celebração, juntamos a equipa toda que trabalha aqui, convidamos todos os artistas e a comunidade Nirvana Studios a apresentar o que quiser, para comemorarmos todos juntos”, começa por contar Rui Gago à New in Oeiras.

Desde logo, não podia faltar música. “Os visitantes vão encontrar seis palcos de música com géneros diferentes. Vamos ter um autocarro em que o palco é uma metade dos bancos e a plateia a outra metade. Vamos ter um palco dedicado só a rockabillies. Um palco só com performances, dança, artes performativas”, revela. 

“Tudo vai estar a acontecer ao mesmo tempo. Vamos ter na galeria uma série de projetos, com uma mostra de artistas plásticos e visuais muito engraçada, mas também live acts durante a tarde toda, demonstrações de skate, exposição de surf, vamos ter no mesmo espaço uma série de culturas ligadas. Por todo o lado o público vai encontrar a nossa essência, desde o costumize, carros transformados, etc. Tudo faz parte do universo criado por nós”, acrescenta o cofundador do centro cultural.

Pode contar também com um espaço infantil, com atividades para os miúdos. Durante a tarde, é um evento para toda a família. Interdito à entrada de carros, para maior conforto do público que visita o espaço, haverá um estacionamento grátis à frente dos Nirvana Studios, do outro lado da estrada, para que a visita ao espaço seja feita tranquilamente. Entre as 16 e as 20 horas, o programa é mais familiar. 

Às 20 horas começa a grande final do concurso Oeiras Band Sessions, criado pelos Nirvana Studios, que há 14 anos dá palco a novos talentos, com o apoio do Município de Oeiras. “Vamos ter uma banda convidada a abrir o palco e depois as três bandas finalistas do concurso vão atuar perante o júri e vamos descobrir qual será a grande vencedora desta edição. Ao longo do tempo, vamos notando que os projetos cada vez têm mais qualidade”, explica Rui. Um dos prémios passa por ganhar uma band box, isto é, uma sala de ensaios exclusiva, durante um ano nos Nirvana Studios.

A seguir, por volta das 23 horas, vai poder assistir a uma performance que se chama “Poetas da Metamorfose”. À NiO, Rui Gago levanta a ponta do véu: “É uma performance do Custom Circus, que vai acontecer em cima de um autocarro, terminando com um piromusical, que vai por trás do autocarro. É uma performance intensa, que dura cerca de 15 minutos e vai surpreender o público”. 

Depois dos espetáculos, vai decorrer o lançamento de um livro muito especial. É a obra que conta toda a história dos Nirvana Studios. Com o nome “Poetas da Metamorfose”, o livro fala da companhia de teatro, revelando em texto e imagens, tudo o que foi feito nas últimas duas décadas. “Na verdade é um livro dois em um. Dá para começar de um lado ou de outro. De um lado, encontra-se um livro fotográfico, com imagens destes 20 anos, dos vários espetáculos, de todos os elementos envolvidos, os vários projetos que fomos desenvolvendo. Do outro lado está a história documentada. Para nós, este livro é um repositório de toda esta informação, é um documento oficial que fica para a posteridade. É uma publicação do Município de Oeiras e vai ficar nas bibliotecas municipais”, desvenda Rui.

No entanto, a noite não fica por aqui. A partir das 23h30 e até “pelo menos às duas da manhã”, vai poder participar na Full Moon Party. “Curiosamente, a festa da lua cheia foi o primeiro evento que fizemos em 2003 quando aqui chegámos. É simbólico. Estava lua cheia, nessa altura, e neste fim de semana vai estar também”, conta o artista. Pode conhecer em pormenor todo o programa no site dos Nirvana Studios. 

O ambiente de open day nos Nirvana Studios.

Como um depósito militar do Estado Novo se transformou num centro artístico

Rui Gago, Daniela Sousa e Michel Alex — ou melhor, Dr. Apokalipse, Danella Vol e Michel Gigolo, personagens e alter egos do trio — são os fundadores do Custom Circus. “Ao contrário do que as pessoas pensam, o nome não tem nada a ver com circo, mas sim com circunferência, porque fazíamos uma circunferência com os nossos camiões todos e essa arena que ficava dentro da circunferência, era o nosso palco”, revela Rui Gago, lembrando a época em que a companhia era nómada. “Nós andávamos um pouco por todo o País, Espanha e por aí fora”, conta. 

“O público entrava para dentro da circunferência e os performers atuavam em cima dos camiões, dentro deles, havia motas que atravessavam essa arena, era uma coisa assim ao estilo Mad Max. E a companhia foi crescendo, até que sentimos a necessidade de termos um poiso minimamente organizado, especialmente no inverno quando existiam menos espetáculos. Precisávamos de um sítio para parar os veículos todos”, conta Rui.

“Este espaço era um paiol de munições do exército do Estado Novo, porque era afastado de tudo. Era um depósito militar que teve o auge nos finais dos anos 40. Aliás esta estrada onde estamos, era de uso exclusivo militar, que servia de defesa à capital. O auge foi na época da Guerra Colonial, mas a partir de finais da década de 70 entra em declínio e o Estado, a determinada altura, decide que já não faz sentido mantê-lo e fica ao abandono. Vende-se o espaço a uma empresa de construção civil que vai à falência, passa para outra que também não subsiste. Até que nós decidimos comprar a propriedade enquanto companhia de teatro”, garante Rui. 

“Quando aqui chegámos em 2003, os armazéns estavam todos partidos, saqueados, não existia alcatrão, não havia eletricidade, água ou saneamento, não existiam infraestruturas nenhumas. Fizemos tudo do zero, foi tudo construído e criado por nós. Este espírito é a essência que vinha da estrada, ou seja, toda a gente faz um pouco de tudo, trabalhamos no sentido de comunidade. Fomos montando as nossas infraestruturas, foi assim que tudo começou”, informa.

Rui, Daniela e Michel assumiram o risco e, desde logo, o compromisso de tornar este espaço em algo mais. “Comprámos o terreno para ser o porto de abrigo da companhia, mas dada a dimensão, percebemos que o que tinha sentido era que fosse também porto de abrigo para outros artistas. Daí o nome Nirvana Studios. Studios porque remete para tudo o que tem a ver com a parte artística, desde o cinema, às artes plásticas e por aí fora. E Nirvana, não tem nada a ver com o grupo musical, mas sim com o estado de espírito. O que queremos dizer às pessoas é que isto é o mais perto do céu que podem estar em termos artísticos. E acabou por ser muito acarinhado por vários artistas ao longo destes anos todos”, sublinha. 

“Durante muito tempo dedicávamo-nos mais a trabalhar os artistas. Depois houve uma viragem para que o público também pudesse participar e usufruir do espaço. Hoje é quase um espaço público, embora seja privado. Até fomos distinguidos recentemente pela Câmara Municipal de Oeiras como um espaço de utilidade cultural”, afirma o responsável. 

O Teatro Custom Café.

A comunidade Nirvana Studios e tudo o que encontra por lá

Ao passar os portões dos Nirvana Studios, vai sentir-se a entrar num outro universo. A mística do espaço passa por uma estética “entre o steam punk e o pós apocalíptico”, como descrevem os fundadores, que encontra não só nos elementos que compõem visualmente todo o recinto, mas também nos espetáculos criados pelo Custom Circus, um dos projetos-chave do espaço. 

“O teatro Custom Café não foi o primeiro teatro que fizemos, ao início era mais rudimentar, mas fomos trabalhando para conseguir criar este espaço inaugurado em 2012, que é hoje o coração dos Nirvana Studios. É aqui que fazemos os nossos espetáculos, temos sempre um em cena. Mas é também uma sala polivalente, porque recebemos outros espetáculos e eventos aqui”, revela a companhia. 

Atualmente, pode assistir ao “Le Cabaret Rock”, um espetáculo extravagante e alucinante, “pura dinamite em palco”, onde tudo é possível. Perguntámos se poderíamos defini-lo como um show de variedades, ao que Rui Gago respondeu: “Tem uma série de estéticas com que trabalhamos, que passam pelo bizarre chic e o absurdo. É difícil definir e isso para nós é uma vantagem. Na maioria das vezes, quem vem assistir, regressa para ver uma segunda vez, porque é um espetáculo muito enérgico, feito em 360 graus e na maioria das vezes está a decorrer mais do que um polo de ação ao mesmo tempo, o que faz com que o público tenha que estar sempre a olhar de um lado para o outro”.

São espetáculos aluciantes.

“Com doses surpreendentes de loucura, terror, paródia e decadência poética, detonadas pela irreverente troupe criadora deste fantástico imaginário teatral”, como descreve a companhia, este espetáculo estreou originalmente em 2012. “Neste momento, queremos que seja ‘O’ espetáculo da companhia. Vai sendo alterado, mas a base é a mesma”, conta o artista. Ao todo são oito artistas em palco.

O próximo acontece no dia 17 de junho e tem a possibilidade de apenas assistir ao espetáculo (18€), às 22 horas, ou incluir jantar para uma noite completa (38€), com início às 20 horas. Pode comprar os bilhetes online

Outro dos espaços mais importantes dos Nirvana Studios é a Galeria Strange, que também serve de plataforma multiusos para vários eventos. “Esta galeria é construída à nossa imagem e semelhança. No nosso teatro tudo é possível, descer por cordas, passar por cima do público, entrar por várias portas, ou seja, o palco não é bem o tradicional. E a nossa galeria também não”, sublinha o artista.

“A maior parte das galerias tinha muita dificuldade em que pudéssemos expor lá as nossas peças. A própria natureza das galerias não permitia, por exemplo, pregar pregos, etc, há muitas normas. E queríamos criar um espaço onde pudéssemos expor coisas diferentes. Por isso, criámos a nossa própria galeria. Na exposição que vamos ter agora no open day de dia 3, a peça central é um carro e vai ter uma banda a tocar ao vivo. Este tipo de fusões só são possíveis num espaço diferente. Dá mais liberdade aos artistas que queiram expor aqui”, conclui. 

Além do teatro e da galeria, há outro projeto dos Nirvana Studios de que Rui Gago muito se orgulha. “Criámos um projeto que foi pioneiro, as band boxes, que são salas de ensaio permanente. Reinterpretámos o que seriam salas de ensaio, dando a possibilidade aos músicos de poderem trabalhar 24 horas por dia. Os Nirvana Studios estão ativos 24 horas por dia, 365 dias por ano, é uma grande diferença de outros espaços culturais”, revela.

“Sabemos que muitos artistas têm outras profissões, infelizmente, e conseguir casá-las com criatividade e tempo para tudo nem sempre é fácil. A nossa ideia é que não seja por falta de horário que os músicos não vão treinar. Se for das três às seis da manhã, podem vir. Domingos, feriados, Natal, tudo. É o conceito base da comunidade artística dentro do Nirvana, estamos sempre de portas abertas”, convida.

Aliás, os Nirvana Studios têm hoje “a comunidade de músicos mais ativa do País”, como garante o responsável. “Temos cerca de 100 salas de ensaio, cada uma com dois projetos musicais. Cada banda tem uns quatro músicos, em média, ou seja, são 200 bandas, 800 músicos ativos aqui. Isto quer dizer que estão sempre projetos musicais a acontecer”. Este é também um dos prémios para a banda vencedora do Oeiras Band Sessions, ganhar um ano com direito a usar uma sala de ensaios, com horário permanente. 

O futuro é promissor. Ou, pelo menos, os Nirvana Studios vão trabalhar nesse sentido. “Somos transversais em termos artísticos. Temos uma companhia, atuamos, também escrevemos, compomos as músicas, fazemos os nossos filmes, as nossas artes plásticas, as nossas cenografias. É uma companhia multidisciplinar, criamos tudo cá e estamos rodeados por muitos artistas. Tivemos muitos projetos parados na pandemia, mas este ano já estamos em ebulição total. Além disso, queremos também apostar muito na internacionalização”. 

Sem nunca esquecer o estilo e o conceito que fazem parte do ADN da companhia e dos Nirvana Studios. “O pai do steampunk é o Júlio Verne, daí termos uma locomotiva à porta. Já no pós apocalíptico pensámos muito no Mad Max. Estamos entre estes dois estilos. E o pseudo futuro, do século XXIII, é a estética em que vamos continuar sempre a trabalhar”, remata Rui.

Os Nirvana Studios ficam na Estrada Militar de Valejas nº, 66, em Barcarena. Pode seguir a página de Facebook e Instagram para ficar a par de todas as novidades.

Carregue na galeria para conhecer melhor o universo dos Nirvana Studios. 

ver galeria

MAIS HISTÓRIAS DE OEIRAS

AGENDA