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“Mais Uma Rodada” é um filme divertido e luminoso sobre aproveitar o melhor da vida

Venceu o Óscar de Melhor Filme Internacional e estreia esta quinta-feira em Portugal. Mads Mikkelsen é o protagonista.
Mads Mikkelsen é o protagonista.

Da última vez que o realizador Thomas Vinterberg e o ator Mads Mikkelsen trabalharam juntos, nasceu o brilhante “The Hunt — A Caça”. Oito anos depois, a dupla reuniu-se para concretizar “Mais Uma Rodada”, que venceu no domingo o Óscar de Melhor Filme Internacional e que estreia nos cinemas portugueses esta quinta-feira, 29 de abril.

Mais uma vez, a história passa-se no seio da classe média dinamarquesa e tem professores como protagonistas. Contudo, os paralelismos com “The Hunt” ficam por aí. Inspirado por uma conversa a que assistiu, entre a sua filha e uma argumentista americana, Vinterberg apercebeu-se do enorme consumo de bebidas alcoólicas na sociedade dinamarquesa — e, em particular, na camada dos jovens adolescentes.

A partir daí, construiu uma história centrada num professor que está a atravessar uma espécie de crise de meia idade. Perdeu o ânimo para dar aulas e é gozado pelos alunos, baralha-se naquilo que diz, tem uma relação distante com os filhos e a mulher. Parece dormente, sonâmbulo, como se estivesse a passar pela vida de forma passiva.

Um dia, num jantar com outros velhos amigos professores, aceita beber uns copos a mais para desanuviar. Rapidamente, um deles fala da teoria de um psicólogo norueguês sobre o défice de álcool que os humanos têm no sangue — supostamente, um índice de 0,5 era o ideal para estarmos desinibidos e no nosso pico de produtividade e animação. Assim, os quatro amigos decidem começar a experiência.

Ironicamente, a regra é que só podem beber no horário laboral. Têm de ir medindo o nível de álcool no sangue para saberem se estão com o grau certo ou se precisam de beber mais um copo — de tomar “mais uma rodada”.

Esta premissa meio surreal faz com que os quatro professores mudem os seus comportamentos nas salas de aula e na relação com as famílias em casa — inevitavelmente, também vai levar a que o filme explore os problemas trágicos que o alcoolismo pode causar. Há vantagens e desvantagens, mas na verdade este não é um filme sobre álcool.

Esse é apenas o veículo usado para contar uma história sobre estarmos despertos para a vida e darmos o nosso melhor no dia a dia — porque, lá está, se calhar todos nós vivemos um bocado dormentes durante o quotidiano. 

Tal como noutros filmes de Vinterberg — e mesmo de outros cineastas europeus contemporâneos — “Mais uma Rodada” é visualmente bonito, sofisticado, elegante. O tom é divertido, mesmo que também inclua momentos de profundo drama. Mads Mikkelsen volta a provar que, mesmo que seja mais conhecido por parte do grande público como um vilão nato, ele é um ator completo, que interpreta muito bem a mais monótona e terrena das personagens.

O filme tem ainda um lado especial por ter sido marcado por uma tragédia pessoal (que valeu o discurso mais emocionante dos Óscares). A filha de Thomas Vinterberg — a tal que inspirou o guião de certa forma — ia participar no filme. Mas um acidente de carro tirou-lhe a vida de forma abrupta, poucos dias antes do início das gravações.

Na pior altura da sua vida, Thomas Vinterberg agarrou as poucas forças que tinha e canalizou-as para o filme que a sua filha queria ver concretizado. A sua personagem foi retirada da narrativa, mas tudo o resto se manteve. A escola usada para as gravações foi a mesma que a filha frequentava — e muitos dos seus amigos adolescentes aparecem ao longo do filme como figurantes.

Apesar da originalidade da história, o maior problema do filme é que talvez encontre pelo caminho uma espécie de beco sem saída. Dá a ideia de que o objetivo não foi concluir o filme com nenhuma mensagem muito concreta (e percebe-se porquê), mas ao mesmo tempo a conclusão é algo ambígua, e o último terço da história não é tão satisfatório. Ainda assim, a cena final é libertadora e, de alguma forma, mágica. 

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