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Mais plantas e psicadélicos, menos drogas legais. Entrevistámos o vereador Armando Soares

O autarca lançou o livro "Estados ampliados de consciência: plantas, psicadélicos, som e meditação como instrumentos para a transcendência".
Armando Soares, no dia da apresentação oficial do livro.

“O nosso maior problema neste momento não são as drogas ilegais, mas sim as legais”. A afirmação é de Armando Soares, vereador da Câmara Municipal de Oeiras. Na verdade, esta é uma apresentação redutora, já que Armando é um homem de muitos ofícios. Entre os desafios profissionais, comunitários e de lazer, são várias as áreas que lhe suscitam interesse, da escrita à música, da meditação à política, da sociologia aos estados ampliados de consciência. 

Este último tema, desperta surpresa e curiosidade com quem se cruza com o autarca. Principalmente, desde que lançou, em junho de 2023, o livro “Estados ampliados de consciência: plantas, psicadélicos, som e meditação como instrumentos para a transcendência”, que resulta de uma pesquisa com mais de uma década. “Sempre me interessei pelas alterações no cérebro e na mente”, aponta Armando.

Crítico assumido dos números elevados de medicação para tratar certo tipo de doenças e defensor de terapias não convencionais, Armando Soares rejeita a ideia de que um político não possa assumir e falar publicamente de áreas que lhe interessam, a nível particular. Principalmente daquelas que podem ajudar a mudar vidas.

Armando Soares nasceu em 1977. Vive e trabalha no concelho de Oeiras onde, desde jovem, assume cargos que o ajudem a conseguir fazer a diferença na comunidade. Nos anos 90, foi presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária José Augusto Lucas, em Linda-a-Velha. Na faculdade, foi presidente da Associação Académica do ISCTE, apesar de se ter licenciado depois do curso de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, na Universidade Nova de Lisboa. Foi nessa época que decidiu filiar-se na Juventude Social Democrata.

“Fui seguindo esse percurso. Fiz as campanhas a apoiar o Isaltino Morais, desde essa altura. Desempenhei muitas funções ao nível da JSD, tendo chegado até à Comissão Política Nacional. Na altura, dentro das funções que tinha, acabei por ser candidato a deputado municipal e assumir essa função, em 2001. Já nas eleições de 2005, quando o Isaltino Morais se torna candidato independente, convidou-me para assumir as funções de adjunto, cargo que ocupei no mandato de 2005 a 2009. Mais tarde, fui também deputado da Assembleia da República e Presidente da Concelhia de Oeiras do PSD”, conta Armando à NiO.

Atualmente, é vereador da Câmara Municipal de Oeiras, com os pelouros de Gestão de Pessoas e Promoção Socioprofissional; Empreendedorismo; Atividades Económicas; Feiras, Mercados e Cemitérios. A New in Oeiras falou com Armando Soares sobre a sua ligação ao concelho de Oeiras, a diferentes instituições locais e, principalmente, sobre o livro lançado, que se debruça sobre uma área que o apaixona e que defende acerrimamente. 

Além do cargo político, está ligado a outras entidades do concelho de Oeiras. Que funções ocupa?
Desde 2009 sou presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Dafundo e, por enquanto, vou continuar. É um cargo que ocupo de forma voluntária, o meu pai foi comandante dos bombeiros, por isso decidi continuar o seu legado. Sou também Grão-mestre da Confraria de Enófilos do Vinho de Carcavelos. Fui fundador e presidente da Associação Cultural Luchapa (hoje em dia, como vereador da autarquia, achei que tinha de me afastar de alguns cargos, já que a função exige uma postura mais isenta), que tem como objetivo dinamizar a cultura no concelho. Tenho um passado ligado à música, estudei bateria e percussão na escola de jazz do Hot Clube. E, como também estou ligado às terapias não convencionais, quer como professor de meditação e terapeuta de algumas técnicas, na altura fundei essa associação para juntar um pouco toda essa cultura em Oeiras. A minha história é a de um líder associativo, que acaba por se filiar num partido político, pela vontade de conseguir mudar o que achava que não estava bem. Identifico-me mais como líder associativo do que como militante partidário. Nas associações não temos direita, esquerda, as pessoas juntam-se para fazer coisas. Mas sentia que, para fazer algo na comunidade, tinha que estar ligado a um partido, para acrescentar mais valor. Hoje não estou filiado em partido nenhum.

É comum ter-se uma imagem um pouco mais formal de quem trabalha em política e o Armando desconstrói-a. É importante fazê-lo, de forma a conseguir estar mais próximo da comunidade? Acaba por despertar uma curiosidade extra política nas pessoas. 
Há a ideia de que os políticos estão afastados da população. Mas os culpados somos nós. Temos dois caminhos: confiar em quem está no desempenho das funções ou, se não concordarmos com as posições que esses protagonistas têm, temos nós que passar a ser os protagonistas e essa é a história da minha filiação. Fi-lo porque senti que os que lá estavam não eram os protagonistas que me representassem e que tinha eu próprio de assumir esse papel. Assim o fiz durante muito tempo. Os políticos não são perfeitos, são cidadãos como os outros que, num determinado momento, decidem intervir na sociedade, nessa perspetiva. Sou um cidadão comum igual aos outros. Gosto de música, de tocar, gosto de terapias e estudei várias, gosto de sair à noite, beber um copo, jantar fora, portanto, não há incompatibilidade ente uma coisa e outra. Temos que sentir que, qualquer um de nós, se achar que consegue acrescentar algo à sua comunidade, município, o que for, pode inscrever-se num partido, ou criar um movimento de cidadãos.

Este livro “Estados ampliados de consciência: plantas, psicadélicos, som e meditação como instrumentos para a transcendência” aborda uma área que o Armando acompanha há muito tempo. 
Isto já vem de uma pesquisa antiga. Diria que demorou uns dez anos até surgir, efetivamente, a publicação. Com dois ou três anos de pesquisas mais acentuadas. Cito mais de 500 referências bibliográficas e socorro-me das maiores universidades do mundo na área da Medicina, a Johns Hopkins University, o Imperial College of London, Cambridge, Harvard, entre outras, não só ligadas à Medicina, mas também a outras áreas de investigação científica. Comecei a analisar artigos, a passar para outros que rapidamente ficavam desatualizados, porque saíam novos. Enfim, a um dado momento pensei que nunca ia ser capaz de lançar o livro e tive que parar, balizar no tempo e pensar é agora. E é agora porquê?

E porque é que “agora”, neste caso em 2023, foi a altura certa?
Primeiro, porque nunca a sociedade portuguesa, especificamente, esteve tão viciada em medicamentos à conta da depressão, da ansiedade, do stress e do burnout em que nos encontramos neste momento. Somos o País da Europa, que está sempre em primeiro ou segundo lugar como consumidor de ansiolíticos, sedativos, hipnóticos e todo o tipo de medicamentos antidepressivos. Somos um dos maiores, senão o maior consumidor. Significa que a sociedade portuguesa está completamente intoxicada. Desde a altura da Covid-19, às guerras à porta da Europa, há temas que nos tocam mais, pela proximidade e pela força com que nos chegam pelas redes sociais, pela televisão, a comunicação passou a estar mais presente em todos os cenários e, em dado momento, vivemos mais essas situações do que no passado. Chegam-nos ao segundo e fazem com que as pessoas estejam mais deprimidas, mais tensas, mais ansiosas. E pensei, caramba, a tecnologia, medicina e ciência evoluíram tanto nas últimas décadas, existe um manancial de possibilidades a que as pessoas se podem socorrer para mudar as suas vidas e para terem melhor qualidade de vida e ser felizes, (que é o nosso maior objetivo), então porque é que continuamos a diabolizar determinadas coisas em detrimento de outras? Por falta de informação. Senti que, se estou numa função política e no meu ponto de vista a política não deve adormecer as pessoas e sim despertá-las, devia trazer estes temas a público. Sei que para algumas pessoas foi uma grande novidade, ser uma pessoa em funções públicas a escrever sobre este tema. Sei que é um tema polémico. Mas entendi que tinha de o fazer até por um imperativo de consciência. Mesmo estando em determinadas funções, se de facto acreditamos em alguma coisa, se está devidamente provado, se é validado pela ciência, se tenho um prefácio de um dos maiores professores de psiquiatria em Portugal, Mário Simões, se tenho essa chancela de qualidade, porque não haveria de o fazer? Entendo que não podemos esperar mais. É possível melhorarmos a saúde mental, termos uma vida mais feliz e saudável, sem estar tão dependente de certo tipo de medicamentos, basta informamo-nos melhor. E este livro surge como uma pedrada no charco ao nível daquilo que são os estados amplificados de consciência.

Alguns destes instrumentos faz parte da sua rotina de forma recorrente?
A meditação está presente na minha vida todos os dias. Neste momento, estou até a conduzir um grupo de meditação dos funcionários da Câmara de Oeiras, uma vez por semana. Toda a gente consegue meditar desde que o queira, tem é que praticar. É como aprender a andar de bicicleta ou a nadar. É preciso ter uma técnica que seja séria, um professor que saiba o que faz e repetir. Resolvi criar um grupo, às segundas-feiras, ao inicio da manhã e meditamos durante cerca de meia hora. É mais um instrumento para relaxar e encarar melhor a semana de trabalho. 

O que é que a meditação trouxe à sua vida?
Para além dos benefícios que são conhecidos, como baixa a pressão sanguínea, os batimentos cardíacos, diminui o stress, ajuda a dormir melhor, de forma mais repousante e tranquilizante, chegamos ao sono profundo mais rapidamente, com prática continuada, a dado momento, podemos criar novas sinapses neuronais, novas ligações entre os neurónios que fazem com que tenhamos ideias fora da caixa, encontrar soluções para problemas com novos ângulos de que nunca tínhamos pensado. Foi o que trouxe à minha vida. Maior aceitação de mim próprio. Ajuda-nos a pacificar as áreas da nossa vida, a ter mais força e energia para encarar os desafios que temos pela frente. Cada pessoa tem a sua experiencia, mas há benefícios que são transversais a todos.

A capa.

Quanto aos outros instrumentos para a transcendência, como as plantas e os psicadélicos, que tipo de experiências já viveu?
Uma das experiências mais intensas que tive foi com uma planta, aliás, uma solução de duas plantas, que é a ayahuasca, muito popular hoje em dia, conhecida a nível milenar. É utilizada como instrumento de ampliação da consciência. Já fiz vários retiros, a primeira vez que tive contacto com a planta e que a experimentei foi há mais de dez anos, numa cerimónia, conduzida por um xamã, um profissional habilitado para guiar esse momento. Fi-lo segundo a tradição de uma tribo que vive na Amazónia, a Shipibo-Conibo, uma das que melhor conhece a planta, há séculos que a utiliza e passa os conhecimentos de geração em geração. A ayahuasca que experimentei era a fusão de duas plantas. O que faz é regastar-nos deste universo onde nos encontramos e conseguimos chegar às nossas memorias mais recônditas. Pode também mostrar-nos linhas de futuro possíveis. Mas ninguém a deve tomar numa vertente recreativa e cultural, pode causar mau estar. É uma experiência nobre. É algo sério, que deve ser utilizado do ponto de vista terapêutico. Os povos índios utilizam esta planta na sua cultura diária. Tive experiências altamente intensas com isto. Tomei decisões de vida. Escrevi muitas coisas. Acedi a memórias de quando era miúdo. Há artistas como o Sting ou a Maria Bethânia que também a experimentaram e não ficaram indiferentes, entre outros.

O que mudou?
Deu-me uma vontade ainda maior de viver. Uma das visões que tive foi ver-me na minha escola primária a esconder os carrinhos, no intervalo. Foi uma memória que me fez chorar. Desperta-nos áreas da mente que estão fechadas, informação que esta lá guardada e que é despertada. Mas há um outro lado, que é fazer-nos observar uma mesma situação de ângulos diferentes. Voltamos a certas situações ou conversas e conseguimos ver coisas que na altura não notámos, reparamos em expressões. É como aceder a informações gravadas com acesso a todas as condicionantes. A que conclusões é que podemos chegar? Algumas mirabolantes, como perceber melhor certas pessoas, sítios, permite leituras que não temos no primeiro momento, acedemos à informação total. É uma acessibilidade total que, inevitavelmente, vai trazer uma mudança necessária a seguir.

Entre os psicadélicos de que fala no livro, destaca algum?
Há um por acaso que não falo no livro e é usado, neste momento, em clínica cá em Portugal, a cetamina. Há clínicas a utilizaram-na, é um anestésico para tratar traumas. Mas preferi escrever sobre outras que não são tão faladas. Não consigo escolher uns em detrimento de outros. A mensagem que tenciono passar no meu livro é diferente: não é pelas coisas serem legais que nos fazem bem. O tabaco, álcool e a cafeína são legais e têm um lado B. O maior problema do nosso País é o álcool. O nosso maior problema, neste momento, são as drogas legais, não as ilegais. E não é verdade que estas últimas fazem só mal. Há muitas coisas que são ilegais, com componentes utilizados nos medicamentos legais que compramos. Provavelmente se alguns tratamentos usassem algumas dessas substâncias, devidamente acompanhados por profissionais, já se tinham resolvido, em vez de as pessoas ficarem viciadas para o resto da vida em medicamentos legais. Temos que desconstruir isto. Se temos instrumentos que podemos utilizar e que nos prejudicam menos que os legais e até com efeitos superiores, porque não os utilizamos, ou pelo menos, aceitamos experimentá-los? Paralelamente, temos a meditação, que não tem efeitos secundários, entre outras. Temos uma data de plantas conhecidas na natureza, reconhecidas pela ayurveda, pela medicina tradicional chinesa, são milhares, e nós continuamos a fugir para os médicos que nos passam ansiolíticos, damos substâncias às crianças para ficarem quietas, estamos a drogar as nossas crianças. Temos que tomar o controlo da nossa vida, as nossas decisões e deixar de acreditar em tudo o que lemos só porque alguém nos disse que é assim. Temos que pesquisar os assuntos mais profundamente. Temos que nos especializar em determinadas matérias.

É esse o grande objetivo do livro?
O que fiz com este livro foi uma pesquisa que outros não têm tempo para fazer. Assim, levamos a informação a mais pessoas que não sabem o que procurar e onde procurar. A minha intenção é fomentar o debate, ir atrás da informação. Aqui selecionei informação que é credível, peguei na ciência e passei-a pelo crivo de quem é da área. O livro é agora uma espécie de manual, de enciclopédia que pode ser consultado à la carte, uma tema de cada vez, não se precisa ler tudo seguido. Há muitas referências bibliográficas. E vai ajudar as pessoas a explorar outras opções. 

Resumindo, este é o livro que Armando Soares procurou durante anos e não encontrou. Então, decidiu ele mesmo escrevê-lo. Com edição da Zéfiro., Encontra-o online e nas livrarias habituais, pelo valor de 29,90€. 

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