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Madalena Sá Fernandes: “Enfrentar o fantasma é colocá-lo diretamente nas páginas”

Falámos com a escritora sobre "Leme", onde relata a juventude vivida sob violência doméstica, qual o próximo livro e o passado de influencer.
Créditos: Filipe Ferreira

“No seu funeral, a ex-mulher dele, a última, abraçou a minha mãe, a penúltima. As duas choravam muito. Ela disse-lhe ao ouvido: ‘Era um filho da puta'”. Foi este primeiro parágrafo, o único do primeiro capítulo, que convenceu inúmeros leitores — sem saberem muito mais do que tratava o livro — a lerem “Leme”, assim que foi lançado, em maio deste ano. A propósito da vinda de Madalena Sá Fernandes ao Café com Letras, na Biblioteca de Oeiras, nesta quarta-feira, 6 de dezembro, falámos com a escritora sobre o passado, o presente e um futuro que se espera sem violência e com novos livros. 

Não é fácil falar de violência doméstica, principalmente quando é uma realidade vivida na primeira pessoa. Aos seis anos, quando Madalena Sá Fernandes conheceu o homem que seria seu padrasto, não sabia que a vida, como a conhecia até então, mudaria, e como ele, um desconhecido a princípio, a iria marcar de forma definitiva. “Há experiências que deixam marcas no corpo que nunca desaparecem. O Paulo deixou-me marcas em tinta permanente”, escreve, no livro, onde conta episódios de violência psicológica e física que ela e a mãe sofreram. Viveu com ele até aos 18 anos. 

Hoje, prestes a fazer 30, ainda neste mês de dezembro, conta-nos o motivo por que este livro foi escrito: “Não porque precisava de me curar, mas de elaborar o meu sofrimento”. Garante que pensar e escrever sobre algo tão profundo é também uma forma de cuidar, e fê-lo aos olhos de milhares de leitores que, nos últimos meses, transformaram o “Leme” num verdadeiro sucesso de vendas e uma das grandes estreias literárias do ano em Portugal. 

Madalena Sá Fernandes deixa nas 166 páginas do livro, editado pela Companhia das Letras, um retrato dilacerante e cru — sem cair na tentação de o tornar dramático—, como foi crescer dividida pelo amor e pelo ódio que se pode sentir pela mesma pessoa, numa ambiguidade de sentimentos que marcou a sua relação com o padrasto. O caos familiar, os maus-tratos, o desamparo, o consolo das pequenas vitórias e o escape nos livros fazem parte da sua história, mas não definem a pessoa que escolheu ser. 

Na infância, quando é que percebeu que o que vivia em casa não era normal?
Foi cedo. As crianças percebem. Ninguém precisa explicar que certas coisas não estão certas. Isso estava claro para mim. Apesar de tudo, pensava “será que isto acontece noutras casas?”. Mas sabia que era errado pela maneira como me fazia sentir. É algo muito intuitivo. Na altura, não comentava com ninguém porque havia muita vergonha envolvida. Não queria levantar ondas, tinha medo. Mas esse medo desvaneceu-se no livro. 

O livro foi uma forma de libertação desse passado?
Há uma frase do Hemingway que usei no livro. Diz: “Escreve de forma dura e clara sobre o que dói”. Isto foi fundamental para a escrita do livro. Tocar nos pontos traumáticos, dolorosos, passá-los de forma direta, sem floreados, ir ao osso, como se costuma dizer. Algumas coisas ficaram de fora, também é importante, mas a maioria está ali. Escrevê-lo libertou, sim, mas alguma coisa fica para sempre. O trauma imprime uma cicatriz. Mas que cicatrizou e hoje consigo elaborar melhor esse sofrimento. Dar-lhe um nome é fundamental. 

Não era este o primeiro livro que planeava escrever. 
Comecei dois romances, um deles esteve quase terminado. Tentei inventar histórias, ir pelo caminho da ficção, mas sentia sempre que eram muito artificiais, não estava a ir para onde queria. Num desses romances tinha uma figura que me perseguia, era ele. Acabei por desistir, largar tudo e escrever sobre a realidade e não ficção. Percebi que enfrentar o fantasma é colocá-lo diretamente nas páginas. A partir desse momento não parei, escrevi de rajada, foram três ou quatro meses para concluir o livro.

Vem a Oeiras participar na iniciativa Café com Letras, numa sessão especial dedicada ao Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, que se assinalou a 25 de novembro. É-lhe importante participar nestes eventos e abordar o tema com o público, mesmo que nunca tenha querido levantar esta bandeira para proveito próprio?
Acho que, no caso da violência doméstica e abusos, uma das coisas mais comuns é não se falar do assunto. Por ser algo que está dentro do campo da intimidade, não se fala. E é importantíssimo. O facto de o “Leme” estar a tocar tanta gente tem a ver com isso. Há que combater a perpetuação destes comportamentos e passa muito por se falar disto. Porque existe uma aura de impunidade das pessoas que o fazem, pela vergonha que as vítimas sentem. Falar é tornar as pessoas mais conscientes. É fundamental falar sobre os traumas. 

Nestes meses, desde que o livro foi lançado, que tipo de histórias lhe têm chegado?
É muito comovente toda a partilha que tenho recebido. Chegam-me relatos de muitas mulheres que passaram pelo mesmo na infância, ou que estão a passar agora, e essas são as que me custam mais. Mas também recebo mensagens de muitos homens que passaram pelo mesmo na infância e acabam por perpetuar esses atos. Toca-me muito. Recebo muito feedback até de pessoas que nunca passaram pelo mesmo, mas que se sentiram muito tocadas pelo livro. Desde mensagens, aos encontros, o que tenho sentido é uma grande onda de apoio, uma coisa quase terapêutica. A partilha de vulnerabilidade é muito bonito de ver e sentir. O que vem de falar da minha experiência, só têm sido coisas boas. 

Como é que a sua família recebeu o livro?
Confesso que estava com medo, mas toda a família recebeu muito bem, foi surpreendente. 

Podemos esperar um próximo livro em breve?
Em breve não digo. Mas adianto que vou fazer uma compilação das crónicas que escrevi para o jornal “Público” em livro. E estou a trabalhar num outro livro, que será um romance.

Na literatura, quais foram as maiores inspirações para a sua escrita?
Descobri a Annie Ernaux uns dois anos antes de ela ganhar o Nobel da Literatura e tive uma epifania, “é isto!”. Ela comenta que os livros dela nem sequer são autoficção, são só auto. E foi uma enorme inspiração enquanto escrevia o meu livro. A Elena Ferrante também, apesar de escrever maioritariamente ficção. Há um livro especificamente, chamado “Consentimento”da Vanessa Springora que me marcou muito, fala de uma história real de uma menina que passa por um abuso. É tenso, um livro curto, muito bem escrito. Marcou-me imenso e influenciou a escrita do meu. Também sou fã dos ensaios da Natalia Ginzburg, da Joan Didion, da Rachel Cusk, da Virginia Woolf, entre outras.

A Madalena estudou Línguas, Literaturas e Culturas na Unidades Nova de Lisboa e tem uma enorme paixão pela linguística, algo que herdou da sua avó, com quem aprendeu a origem de muitas palavras. Tem alguma preferida?
Mar. Sei que é comum, mas é a primeira que me vem à cabeça, pela minha ligação emocional também ao mar, seja em Portugal ou no Brasil, onde vivi. Ia durante quatro meses, fiquei quatro anos. Estive lá ente 2013 e 2017, no Rio de Janeiro. Trabalhei em vários sítios e acabei por tirar um MBA de Marketing e trabalhar também numa agência de publicidade. 

Nessa época conheceu vários sítios do Brasil, viajou pela América do Sul e continua hoje a viajar muito, sempre que pode. As viagens começaram por ser uma fuga, em alguma altura da sua vida?
Totalmente. Tenho noção de que ir para o Brasil era uma fuga. A minha noção de casa estava distorcida e encontrei casa no mundo. As viagens faziam-me sentir livre. Estar na natureza, não condicionada. Adoro viajar e, mesmo hoje, com as minhas filhas, continuo a fazê-lo. Faz parte de mim. A única diferença é que agora consegui criar uma casa e sentir-me bem nela. É o meu sítio preferido. 

Voltou do Brasil em 2017 e abriu uma agência digital. Nessa época tinha também uma forte presença como influencer nas redes sociais e chegou a fazer parte do programa “It Girls” da MTV. Sente que é outra vida?
Completamente, era uma Madalena diferente. Confesso que a vergonha existe, mas não o arrependimento, porque foi uma fase muito divertida. Começou no Brasil, ia partilhando a minha vida por lá no Instagram, fui sendo contactada por marcas. E isso permitiu a minha continuação no Brasil. E a verdade é que, tanto lá como cá, as oportunidades foram surgindo e eu fui aproveitando. Foi uma fase solar, estava feliz. Mas o meu objetivo sempre foi escrever. É isso que quero, viver entre livros, ler e escrever. Quanto às redes sociais, não as demonizo, mas uso-as hoje para este propósito. Um sim, implica muitos nãos. É saber fazer um equilíbrio. 

Foi lançado em maio de 2023.

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