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Já vimos a série da Netflix com Albano Jerónimo (e não nos convenceu totalmente)

“The One” tem oito episódios e centra-se numa premissa muito simples, mas que muda a sociedade como a conhecemos. Leia a crítica.
Albano Jerónimo faz uma personagem secundária relevante.

Chama-se “The One”, tem oito episódios e é a nova série britânica da Netflix, que chegou esta sexta-feira, 12 de março, à plataforma de streaming. O público português vai ter uma razão especial para querer ver esta produção: há dois atores nacionais que participam na história, Albano Jerónimo e Miguel Amorim.

Baseada no livro com o mesmo título, escrito por John Marrs e publicado em 2017, “The One” centra-se numa premissa muito simples, mas que muda a sociedade como a conhecemos. Num futuro muito próximo — poderia ser no final do dia de hoje — uns cientistas descobriram que todas as pessoas podem encontrar a sua alma gémea através de um teste de ADN.

É uma descoberta revolucionária, claro, que tem implicações gigantes na sociedade. Qualquer pessoa pode pegar num cabelo seu, preencher um formulário e enviar a amostra para ser testada nos laboratórios de The One, a empresa-serviço que dá o título à série. Algum tempo depois, recebe a notícia de quem é o seu match.

Esta nova possibilidade levou a uma subida recorde do número de divórcios — e provavelmente até vai mexer com as taxas de imigração, já que o match de um inglês pode ser com alguém da Somália, por exemplo — mas a empresa que controla tudo assegura que o que está a fazer é o correto: a longo prazo, estão a oferecer o verdadeiro amor a todos aqueles que se inscreverem.

A narrativa acompanha Rebecca Webb (Hannah Ware), a cientista implacável de sangue frio que é a CEO de The One — e que desenvolveu a tecnologia em conjunto com o velho amigo, e igualmente brilhante cientista, James (Dimitri Leonidas), de quem se afastou.

Aquilo que é mais entusiasmante em “The One” são todas as possibilidades que haveria para explorar com esta premissa. Mas a série coloca relativamente de lado esse terreno fértil para se centrar num assassinato supostamente misterioso (e não propriamente empolgante) que não acrescenta nada em comparação com milhares de outras séries.

A vítima em questão é Ben (Amir El-Masry), antigo companheiro de Rebecca Webb e James — e a sua morte está diretamente ligada às origens obscuras de The One. A narrativa não consegue tornar este mistério apelativo, até porque vai relevando algumas coisas cedo demais, dissipando o suspense e não guardando praticamente nada de surpreendente (pelo menos em relação a isto) para o final.

A melhor sub-história que existe no enredo de “The One” é a de Mark (Eric Kofi-Abrefa) e Hannah (Lois Chimimba), um casal feliz que tenta resistir às tentações de procurar o match perfeito, até que algo do género acontece. As implicações desta tecnologia na vida das pessoas comuns estão representadas no seu melhor com esta linha narrativa.

Outra das tais sub-histórias envolve a detetive Kate (Zoë Tapper), uma mulher bissexual que dá por si com um match internacional que rapidamente se revela problemático em várias dimensões. Ela é a agente que está a investigar a morte de Ben e o seu caminho vai-se cruzar com o de Rebecca Web. 

“The One” apresenta um conjunto de histórias diferentes — que muitas vezes estão ligadas de forma frágil entre si, quase de maneira forçada. Mark, por exemplo, está ligado à narrativa principal porque é um jornalista que tem contacto com Rebecca Webb.

A série usa bastantes flashbacks para alternar entre o passado recente, quando Ben estava vivo, e a atualidade. A grande mudança entre as duas linhas temporais tem precisamente a ver com Rebecca.

No passado vemos uma personagem mais humana, mais empática e solta; no presente ela é uma capitalista sedenta de poder, reputação e dinheiro que vive uma farsa. Mas claramente é uma calculista que nunca olhou a meios para chegar aos fins e ficamos na dúvida sobre como é que é suposto relacionarmo-nos com esta protagonista. Nunca sentimos empatia suficiente para com ela, e ao mesmo tempo também não é uma vilã que adoremos como anti-heroína pelas suas características maléficas. Rebecca Webb cai num limbo que a torna uma personagem frouxa.

Neste momento provavelmente estará a pensar em que parte da história entram os atores portugueses. Sem revelarmos muito, Albano Jerónimo e Miguel Amorim interpretam dois irmãos a viver em Tenerife, Espanha.

Albano é Matheus Silva, um surfista com ar bon vivant que tem uma ligação com a protagonista e que claramente se sente deslocado sempre que está sob as nuvens escuras de Londres. Miguel Amorim é Fábio, o seu problemático irmão mais novo. Os dois atores fazem boas prestações — tal como a grande maioria do elenco — e ainda conseguiram fazer uns quantos diálogos na nossa língua. Apesar disso, as suas personagens não são tão aprofundadas como poderiam ter sido.

“The One” termina claramente com várias pontas soltas abertas para uma possível segunda temporada. É assim que a indústria funciona, mas talvez tenha sido óbvio demais o compromisso com o futuro. Em “White Lines”, outra série com um português em destaque (Nuno Lopes), isso não correu nada bem. Depois daquele final a apontar em demasia para a segunda temporada, a série nunca foi renovada e o final deixou de ter grande sentido.

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