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Ilídio Teixeira: o comerciante de Algés que fotografou Salazar e Marcello Caetano

A loja do fotógrafo está aberta há 61 anos. Atualmente, é o filho que a gere, mas, todas as manhã, Ilídio passa por lá.
Ilídio Espada Teixeira.

Chegamos ao número 110A da Avenida Combatentes da Grande Guerra, em Algés, e vemos seis pessoas à porta. É terça-feira, dia 4 de maio, e o relógio marca as 11 horas. Dentro do pequeno espaço está Ilídio Espada Teixeira e o seu filho, José António.

No bairro são conhecidos como Os Espadas. Atravessamos a rua e sentamo-nos na esplanada de um café com Ilídio. Durante a nossa conversa, toda a gente que passa pela rua, qualquer seja a idade, o cumprimenta.

A sua loja, Foto Artebela, ocupa o mesmo espaço há 61 anos, menos 26 do que o seu proprietário. Tudo começou, como tantas paixões que todos temos, com o pai. Era fã de fotografia e não largava a sua Kodak de 1917 (que hoje se encontra num expositor na loja). Nas raras vezes que não a utilizava, emprestava ao pequeno Ilídio que se ia apaixonando cada vez mais pela captação do mundo que o rodeava.

Tinha apenas 14 anos quando se tornou aprendiz de fotografia. “Trabalhei em duas firmas em Alcântara e depois fui para a Conde Valbom, para o Hotel Avis. Onde o Calouste Gulbenkian tinha um piso inteiro. Eu era assistente de um fotógrafo que tinha exclusividade com o hotel. Fotografávamos tudo o que era festas e eventos”, conta-nos.

Aos 19 anos, Ilídio começou a trabalhar por conta própria, em sociedade com um amigo. Tratava da fotografia, enquanto que o sócio ficava com o laboratório de revelação. “A nossa dupla arrasou, todos tinham medo de nós [risos]. Éramos sempre os primeiros a chegar”, explica, referindo-se ao trabalho de reportagem.

Por causa dos “feitios diferentes”, acabaram por terminar a sociedade. Ilídio montou um laboratório em casa, na Ajuda, e continuou a trabalhar, sozinho. Durante a semana fazia mais reportagens, aos fins de semana eram os casamentos e batizados.

Foi então que, com 26 anos, vendeu o seu carro, por “cinco contos de reis”, e abriu a Foto Artebela. “O comércio todo de Algés estava concentrado na zona do mercado, e acabava ali. Toda a gente achou que eu estava doido por vir abrir nesta avenida. Não havia aqui nada, era muito diferente na altura. Mas correu sempre muito bem.”

Na comemoração dos 60 anos da loja.

Enquanto fotojornalista, captou a imagem de governantes, como Salazar, ministros, como Marcello Caetano, diversas inaugurações e grandes acontecimentos, sobretudo na área de Lisboa e arredores. Os trabalhos, eram vendidos a jornais e revistas, que os publicavam para ilustrar artigos.

Até que chegou a década de 1980, e com ela o “boom da fotografia digital”. “Eu fui sempre apanhando o comboio. Senão não me tinha conseguido manter na profissão.” O pico do trabalho acontecia na altura das matrículas escolares.

A obrigatoriedade de entrega de várias fotografias tipo passe de cada criança, levava a que os pais fizessem fila à porta da loja para que os filhos fossem fotografados. “Nessas semanas trabalhávamos até à meia-noite.” Outro dos acontecimentos do ano era o Bebé Nestlé, uma iniciativa da marca com sede em Linda-a-Velha, em que os pais dos participantes apresentavam a melhor fotografia do seu bebé, na esperança de ganhar o prémio composto por vários produtos Nestlé.

“Antigamente nunca fechávamos ao domingo. As lojas fechavam sempre à segunda-feira. Ao domingo, as famílias vestiam-se bem e muitas vezes gostavam de fazer um retrato para depois recordar. Não era como hoje, em que ao domingo toda a gente se veste com roupa confortável [risos].”

O horário atual, por causa da pandemia, é de segunda a sexta-feira, das 10 horas às 12h30, e das 15 às 18 horas, e aos sábados, entre as 10 horas e as 12h30. Também no mundo da fotografia, a pandemia do novo coronavírus teve consequências.

“Está a ter um impacto tremendo. Como em todos os negócios. Mas eu já tenho a minha vida feita”, responde-nos o proprietário que chegou a ter sete funcionários no pequeno espaço. Atualmente, e desde 2010, é apenas o filho, formado em Economia e Finanças, que o gere, mas Ilídio não deixa passar uma manhã sem ir até à loja.

Composta por dois andares, o de cima é onde as fotografias são retocadas, impressas e cortadas — destacando-se o estreito móvel em vidro, com várias câmaras fotográficas bem antigas, como a Kodak de 1917. No piso debaixo, fica o estúdio onde são captadas as imagens.

“Passei aqui grande parte dos meus verões de infância. Eu e a minha irmã. Carimbávamos os envelopes, cortávamos as fotografias na guilhotina, íamos aos correios enviá-las, ajudávamos no que fosse preciso”, conta-nos o filho, José António Espada Teixeira.

O pai, Ilídio Espada Teixeira, ou Espada para os amigos, foi dirigente do Grémio Nacional dos Industriais de Fotografia durante 50 anos, 20 deles na presidência. Uma vida dedicada à fotografia e a Algés.

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