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“Falling”: já pode ver o primeiro filme realizado por Viggo Mortensen

Centra-se na relação conflituosa entre um filho gay e um pai com sinais de demência. Foi inspirado na sua mãe.
“Falling” foi realizado, protagonizado, escrito e produzido por Mortensen.

Há muitos anos que Viggo Mortensen começou a escrever potenciais guiões para filmes, nos bastidores das gravações de “O Senhor dos Anéis” ou “Promessas Perigosas”. Mas, por uma razão ou outra, os projetos nunca se conseguiram concretizar.

Só em 2015, com a morte da mãe do ator, que sofria de demência, é que Mortensen começou a escrever um argumento que resultaria no primeiro filme realizado por si. O resultado é “Falling – Um Homem Só”, que estreia nos cinemas portugueses esta quinta-feira, 2 de setembro.

“Estava a tentar lembrar-me de coisas sobre ela e comecei a escrever uma história com algumas dessas coisas, sobretudo sentimentos e não factos”, explicou Viggo Mortensen ao “Observer”. “E tornou-se uma história de ficção. Foi a primeira vez que consegui o financiamento para gravar.”

A narrativa centra-se em John (Mortensen), um homem gay de meia-idade, que vive com o seu marido e filha adotada longe do mundo rural e conservador onde cresceu. Quando o seu pai antiquado, Willis (Lance Henriksen), começa a mostrar sinais de demência, John e a sua irmã (Laura Linney), trazem-no para perto deles.

Desta forma, John vai ser obrigado a confrontar o seu passado, as ideias conservadoras do pai, numa relação tensa e algo conflituosa entre duas pessoas muito diferentes, de gerações e mentalidades distintas — a comunicação entre ambos é sempre difícil. 

Apesar de ser uma história fictícia e distante da realidade, Viggo Mortensen inspirou-se na demência da mãe e em vivências com os pais para escrever o guião. Mortensen não pretendia ser o ator principal, mas percebeu que seria mais fácil para conseguir financiar o projeto. Além de realizar, escrever e interpretar, foi produtor e compôs a banda sonora.

Quem é Viggo Mortensen?

Tornou-se conhecido em todo o mundo quando interpretou Aragorn, o rei dos homens, na trilogia de “O Senhor dos Anéis”. Quando o terceiro filme — que viria a ganhar 11 Óscares — estreou no cinema, Viggo Mortensen tinha Hollywood rendida ao seu talento. O que lhe valeu várias propostas bem pagas para interpretar papéis em blockbusters — mas Mortensen decidiu fazer filmes independentes e usar o dinheiro que tinha acumulado para criar uma editora.

Esta atitude sintetiza a personalidade de Viggo Mortensen, uma estrela de Hollywood que não está interessada na fama ou no luxo. É um artista e um indivíduo com um estilo de vida muito próprio. Talvez quando a vida real e o cinema se tenham confundido mais para Mortensen foi quando interpretou o protagonista em “Capitão Fantástico”, em 2016. Era o pai de uma família de seis filhos que vivia na floresta, longe da tecnologia e da sociedade moderna.

Ele tem algumas semelhanças com essa personagem radical. Viggo Mortensen prefere estar descalço, não usa relógios, costuma andar sem telemóvel — e quando o tem, é um daqueles antigos com tampa, um “flip phone” — e a única televisão que tem na sua casa em Venice, na Califórnia, nos EUA, serve para ver filmes. E jogos de futebol.

Mortensen é um adepto do clube argentino San Lorenzo, e isso tem tudo a ver com o seu contexto. Filho de uma americana e de um dinamarquês (o pai também se chama Viggo Mortensen), o ator nasceu em Nova Iorque em outubro de 1958, mas cresceu na Argentina, com os irmãos mais novos Walter e Charles. O seu pai era um gestor na área da agricultura e, apesar de viverem na capital Buenos Aires, passavam bastante tempo no campo.

Abandonaram a América do Sul quando Viggo Mortensen tinha 11 anos. Os pais divorciaram-se e ele mudou-se com a mãe e os irmãos novamente para a zona de Nova Iorque. Foi um choque: perdeu a cultura hispânica, a televisão e o adorado futebol. Ele e os irmãos falavam sobretudo castelhano. Mais tarde, foram viver para perto do Quebeque, no Canadá, e Mortensen aprendeu a falar francês e a adaptar-se à nova realidade. Tanto foi assim que até começou a apoiar a equipa de hóquei dos Montreal Canadiens. Depois de tirar o curso de Estudos Espanhóis mudou-se para a Dinamarca — tudo isto antes de a representação ser sequer uma hipótese.

Entre a Dinamarca e os EUA trabalhou numa empresa de mudanças de mobiliário, vendeu flores na rua, foi empregado de mesa, carregou mercadorias de navios e até trabalhou numa fábrica de produção de chumbo. Tornou-se poeta — há vários livros seus e ainda hoje anda sempre com um caderno, porque nunca se sabe de onde vem a inspiração. Além disso, tira fotografias, tem discos de spoken-word, recita poesia ao vivo e pinta quadros. Mais recentemente, todos os seus trabalhos são editados pela Perceval Press, a tal editora que ele criou com o dinheiro que ganhou em “O Senhor dos Anéis”. Muitos dos trabalhos são realizados em conjunto com o filho, Henry, que hoje tem 33 anos (e fez uma pequena participação em “Falling”).

Mortensen casou-se em 1987 com a vocalista da banda punk X, Exene Cervenka. Separaram-se em 1992, mas continuaram amigos e a criar o filho em perfeita sintonia. Tornou-se um ator aos 23 anos, depois de tanto tempo a ver filmes e a perceber que era aquilo que queria fazer. O seu primeiro papel foi uma pequena participação na minissérie “George Washington”. Durante anos acumulou a representação com alguns daqueles trabalhos que lhe iam pagando as contas do dia a dia.

Henry foi a única razão para Viggo Mortensen ter aceitado fazer o papel de Aragorn em “O Senhor dos Anéis”. O filho, que na altura tinha 11 anos, era um enorme fã dos livros de J.R.R. Tolkien. Por outro lado, o pai nunca tinha lido nada sobre aquele universo. Henry convenceu-o a aceitar o convite do realizador Peter Jackson — depois de uma saída de última hora do ator que iria interpretar Aragorn, Stuart Townsend.

O resto é história. Os filmes foram um estrondoso sucesso junto do público, da crítica e dos prémios. Viggo Mortensen ficou rico e famoso — mas essa nunca foi a sua ambição. Preferiu entrar em filmes com produções menores que o fizessem sentir mais realizado profissionalmente, como “Uma História de Violência” ou “Promessas Perigosas”, ambos do realizador e amigo David Cronenberg (que Mortensen também convidou para um pequeno papel em “Falling”).

“Se o meu interesse fosse tornar-me famoso e fazer o máximo de dinheiro possível, teria feito as coisas de forma diferente”, contou à revista “Esquire” em 2006. “Não procuro por filmes com base no orçamento ou na nacionalidade ou na língua. Quero fazer parte de filmes que não me importaria de ver daqui a dez anos.”

Um ano antes, em plena ocupação americana do Iraque, o ator fez uma coisa no mínimo invulgar — sobretudo para alguém com o seu estatuto. É sabido que Mortensen se identifica com uma orientação política mais à esquerda, especialmente tendo em conta a realidade americana. Mortensen soube que uma mãe da Califórnia, que acabara de perder o filho na guerra no Iraque, tinha conduzido na sua caravana até ao Texas, onde fica a casa de família do presidente da altura, George W. Bush. Ela tinha a esperança de conseguir falar com o presidente sobre o seu filho.

O ator decidiu mostrar o apoio a esta mulher chamada Cindy Sheehan e apareceu sem avisar à porta da casa da família Bush. Levou-lhe legumes frescos, água mineral e uma cópia de “A Quinta dos Animais”, livro de George Orwell, para ler enquanto esperava pelo presidente. Mortensen falou com Sheehan durante cerca de 20 minutos, depois voltou para Los Angeles para ir buscar Henry à escola.

Cindy Sheehan ficou bastante surpreendida quando Aragorn lhe apareceu à frente, apesar de ter apreciado o gesto. Uma das últimas coisas que Cindy e o seu filho tinham feito juntos foi precisamente ver “O Regresso do Rei”, o último filme da trilogia de “O Senhor dos Anéis”. Ela diria mais tarde que sentiu “bastante a presença do filho naquele momento”.

“Eu não fazia ideia”, explicou Viggo Mortensen. “Só queria falar com ela, saber o que ela tinha a dizer. Supus que o Bush fosse demorar e provavelmente ela precisava de algo para ler.” O ator dedicou-lhe o seu álbum seguinte, “Intelligence Failure”.

Uma das coisas mais fascinantes sobre Mortensen é o seu método de representação. O americano-dinamarquês não tem problemas em entregar-se completamente à personagem. Durante as gravações de “O Senhor dos Anéis”, dormiu várias noites na rua com a sua roupa de Aragorn. Quando partiu um dente durante a rodagem de uma batalha, pediu que lhe pusessem super cola. Outra vez estava a conduzir na Nova Zelândia, onde a saga foi gravada, e atropelou um coelho na estrada. Levou-o com ele, tirou-lhe a pele, cozinhou-o e comeu-o.

Há mais histórias invulgares. Quando filmou “A Estrada”, dormiu na rua com temperaturas negativas. Só tinha uma lona e garantia sempre, antes de gravar as cenas, que os seus sapatos estavam completamente encharcados, para que ficasse mais desconfortável e a performance parecesse mais real.

Em “Good — Um Homem Bom”, interpreta um professor alemão que trabalha com os nazis. Por isso, Mortensen conduziu durante mais de 1600 quilómetros na Alemanha e na Polónia para visitar vários campos de concentração. Quando fez o papel de Sigmund Freud, em “Um Método Perigoso”, não só aprendeu a escrever como o psicanalista, como comprou as primeiras edições de livros que o médico teria nas suas prateleiras em casa. “Eu simplesmente penso que quanto mais realista e específico fores sobre os detalhes, mais a história se torna universal.”

Viggo Mortensen não é só assim para os papéis que interpreta. O ator também faz coisas deste género na sua vida pessoal. Ao jornal “Telegraph” contou que uma vez foi apanhado de forma inesperada por uma tempestade de neve na Lapónia.

“Perdi o trilho e tive de encontrar um sítio para me abrigar. Estive lá sozinho por uns dias. Estava preocupado, mas consegui encontrar um local para fazer uma fogueira.”

O ator revelou ainda que tenta evitar levar malas de viagem para onde vai — mesmo quando são gravações que duram vários meses. “Tudo o que preciso posso encontrar de alguma forma no sítio para onde vou.”

Em Hollywood, Viggo Mortensen é conhecido como o ator que não se importa de promover os seus filmes durante meses — viaja pelo país inteiro (e no estrangeiro também) para dar entrevistas e fazer presenças públicas. Apesar de não receber dinheiro extra por isso, Mortensen também já dobrou vários dos seus filmes para castelhano e francês. O ator é fluente nas duas línguas, além do inglês e do dinamarquês.

Quando passa pelas passadeiras vermelhas dos prémios de cinema ou das grandes estreias, não usa fatos feitos por estilistas famosos. Prefere vestir roupa vintage e não tem problemas em brincar com isso. Certa vez, quando lhe perguntaram o que estava a vestir, disse que o estilista era Bambino Vieira. Os repórteres apontaram o nome nos blocos de notas e ficaram satisfeitos, mas a verdade é que Vieira era um futebolista argentino.

Mortensen voltou à Argentina para gravar “Jauja”, que estreou em 2014. Foi o primeiro filme em que a sua editora Perceval Press participou enquanto produtora. “Quando éramos pequenos, nas férias de Natal costumávamos ir acampar para a zona onde gravámos o ‘Jauja’, só com os sacos-cama no carro. Fez-me muito feliz estar de volta àquelas paisagens e a montar a cavalo.”

Hoje, aos 62 anos, Viggo Mortensen passa metade do ano nos EUA (ou onde for necessário para trabalhar) e outra metade em Madrid, em Espanha. É lá que vive a sua namorada Ariadna Gil, também atriz e mais conhecida pelo papel no filme “O Labirinto do Fauno”.

Em 2018 estreou o seu último grande filme, “Green Book”, que lhe valeu mais uma nomeação ao Óscar. Viggo Mortensen teve de ganhar 20 quilos para fazer o papel de Tony Lip, que é contratado para ser o motorista e guarda-costas do pianista de jazz Don Shirley (Mahershala Ali) numa digressão pelo sul dos EUA no início dos anos 60, quando aquela zona do país ainda estava segregada e havia um grande racismo institucional.

O título do filme é uma alusão ao “The Negro Motorist Green Book”, uma espécie de manual criado em 1937 com dicas para os motoristas negros não correrem perigos na estrada nos EUA. O livro era atualizado todos os anos e só deixou de ser publicado em 1966. Recomendava restaurantes e hotéis que fossem amigáveis para os afro americanos — neste caso, apesar de o motorista ser branco, a ajuda servia para o passageiro, o famoso pianista de jazz. É um filme sobre uma amizade masculina, embora se centre neste choque de culturas, classes, raças e personalidades.

Carregue na galeria para conhecer outros dos principais filmes que vão estrear até ao final do ano.

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