Em 2020, durante a pandemia da Covid-19, Frederico Felicíssimo percebeu que não se sentia realizado a trabalhar na área tecnológica, para a qual estudou. Decidiu mudar de rumo e dar início àquele que seria, até à data, o projeto mais aleatório da sua vida. O jovem de Paço de Arcos, que se formou em programação e tecnologias de gestão de sistemas operativos, em 2019, acabou por abrir uma livraria — diferente dos modelos habituais.
“Tinha acabado o curso profissional, já tinha feito o estágio, mas senti que não estava enquadrado na área. Percebi que o meu propósito não era trabalhar num escritório sem contacto humano. Tive essa experiência e não gostei”, conta Frederico, de 25 anos.
Na tentativa de fugir do stress e da incerteza que se vivia durante a pandemia, decidiu ir viver para Tomar e foi lá que viu nascer a sua paixão por literatura. “Na altura trabalhava num part-time, tentava ser independente, pela primeira vez, e numa folga conheci um espaço que me encantou. É uma livraria-café chamada Insensato. Vendia livros em segunda mão. Achei o conceito incrível e surgiu-me logo a ideia de ter uma livraria minha”, refere.
Foi assim que nasceu o projeto Ecolivros. “Queria ter uma livraria online, numa primeira fase, para vender livros em segunda mão e que se distinguisse das restantes por ser mais económica”, conta à NiO.
Sem uma grande estrutura inicial, decidiu juntar as poupanças e investir naquilo que acreditava ser o rumo certo. “Em março de 2023 aluguei uma arrecadação de quatro metros quadrados, perto da minha casa em Paço de Arcos. Comecei com mil e poucos livros e totalmente sozinho. Os primeiros meses foram muito complicados, porque comecei o projeto com todo o dinheiro que tinha. Sempre que vendia livros acabava por ter de investir para continuar a crescer, para pagar os anúncios, o espaço, as estantes, tudo”, explicou o jovem.
Através do Facebook, Frederico procurava colecionadores e pessoas que vendessem lotes de livros para conseguir comprar. Foram surgindo novos contactos e hoje em dia tem uma lista fixa de fornecedores. “São pessoas que estão ligadas à compra de recheios de casa, que incluem móveis com livros”, esclarece.
Começou por vender os livros em plataformas online, como o OLX e a Vinted, mas rapidamente percebeu que não ia conseguir suportar os custos. “Comecei por vender no OLX, mas cheguei ao ponto de ter de pagar 180€ para conseguir continuar a vender. Depois passei para a Vinted, começou a correr melhor, mas os custos de transporte aumentaram. Tornou-se insustentável”, diz.

Com os primeiros tempos a serem mais difíceis do que esperava, Fred, como é conhecido entre os amigos, teve de se afastar por uns tempos, sem nunca desistir por completo. Aquilo que o fez voltar a pegar na ideia foi, como seria de esperar, um livro. “Deixo até como sugestão ‘O Alquimista’, de Paulo Coelho. Foi este livro que me ajudou naquela fase. Com ele consegui ver que era este o meu propósito e aquilo que queria fazer”, conta.
Quando decidiu voltar à livraria, Frederico percebeu que o seu projeto tinha mais futuro se conseguisse juntar alguns dos seus conhecimentos na área de tecnologia. “Tive a facilidade de ter uma visão mais dinâmica do negócio por ser programador. Consegui juntar essas bases e usá-las no projeto, tirando também proveito da Inteligência Artificial (IA) para melhorar o meu serviço”, esclarece.
“Quando cheguei aos quatro mil livros, em junho de 2024, comecei a fazer implementar a Inteligência Artificial no meu site, ou seja, tirava uma fotografia à capa dos livros e automaticamente o programa fazia os anúncios e colocava-os no site”, diz, garantindo que este método o ajudou a tornar o processo mais prático e rápido.
“Se fizesse ‘à mão’ e sozinho demorava cerca de dois anos. Acredito que sou a primeira pessoa em Portugal que tem uma livraria em segunda mão a utilizar a Inteligência Artificial online”, confessa o jovem.
Demorou cerca de três meses a programar o site e a tratar dos anúncios. Em dezembro de 2024, conseguiu finalmente ter a plataforma pronta. “É graças à Inteligência Artificial que consigo ter o meu negócio lucrativo, o que me colocou ao nível do mercado. Não tive de arranjar outra pessoa porque arranjei um computador que faz tudo”, nota.
Na Ecolivros encontra obras de 28 categorias diferentes, desde romances, biografias, a livros de autoajuda. Os mais procurados são os de espiritualidade, de direito e literatura clássica.
“Tenho livros muito diferentes e alguns muito antigos, mas todos em bom estado. O mais antigo que tive foi uma Bíblia em latim, de 1740. Estava na casa de um médico que também era escritor. Ele tinha falecido e fiquei com a obra, estava em mau estado por ser muito velha, mas mesmo assim consegui vendê-la a um advogado”, conta.
Neste momento, a Ecolivros tem disponíveis cerca de 10 mil livros que estão guardados numa garagem com 15 metros quadrados. Num futuro próximo, Frederico tem planos para abrir um espaço físico, com atendimento ao público na zona de Oeiras, mantendo sempre a opção online. Durante o mês de fevereiro, todos os livros estão com um desconto de 20 por cento.
Carregue na galeria para conhecer o espaço onde os livros estão guardados.







