Numa mesa há papéis de várias texturas, fitas em tons pastel e canetas prontas a deslizar sobre a folha. Noutra, começam a surgir palavras, todas escritas à mão. É neste ambiente intimista que Sofia Rodrigues, de 45 anos, recebe pequenos grupos de mulheres para os Encontros de Escrita, uma iniciativa da sua marca de papelaria fina, a Detail Stylist. A quarta edição acontece já em setembro, em data a anunciar, no Lounge by CafeLab, em Oeiras, onde voltará a reunir participantes à volta de uma carta por escrever.
Sofia autodenomina-se Guardiã do Analógico e critica o mundo em que vivemos, rodeados de ruído, com os telemóveis a ocupar um protagonismo que devia ser secundário. Acredita que é preciso parar para observar, contemplar e sentir. Para si, a escrita à mão não é um capricho estético, mas uma forma de salvação num mundo acelerado onde a inteligência artificial ganha cada vez mais espaço. “Escrever é emprestar as mãos à nossa alma, para que ela possa falar”, nota sobre a ideia que inspira também estes projetos que arrancaram em março, sob a marca que criou em 2021.
Aos nove anos, Sofia recebeu o primeiro diário, todo perfumado e com cadeado, e recorda esse objeto como um marco na sua relação com a escrita. No início, os diários eram sobretudo factuais, com relatos do dia, das tarefas e dos pequenos acontecimentos. Hoje relê-os com carinho e conta que reencontrar o que escreveu há anos é como fazer um balanço entre quem era e quem é agora.
Essa filosofia ganhou forma pública em julho, quando Sofia levou ao CafeLab, em Oeiras, a exposição “O Papel Conecta-nos”. No espaço, um Correio das Palavras convidava quem passava a escrever uma carta e a decidir o que fazer com ela: levá-la, entregá-la, enviá-la ou guardá-la. No final da exposição, Sofia abriu cada uma das cartas que ali foram deixadas e encontrou palavras de amizade, de fé e de amor, algumas nem sequer dirigidas a ela, mas a um destinatário maior.
Sofia nota que esta “vontade de escrever e receber cartas atravessa gerações”, mas encontra um eco particular nos millennials, que “cresceram a trocar papéis de carta decorados e correspondência entre amigas nos anos 90”, uma moda que hoje recordam com nostalgia. “Há uma magia própria no gesto de enviar e receber uma carta, algo que nenhuma mensagem instantânea consegue replica”, explica.
Nascida em Lisboa, Sofia mudou-se para Oeiras aos dez anos, quando os pais compraram casa na zona à procura de mais qualidade de vida. Descreve-se como “oeirense de coração” e foi ali que passou a infância e a adolescência.
Formou-se em Psicologia Clínica em Lisboa, atraída desde cedo pelas relações e pelo comportamento humano. Trabalhou como psicóloga na Maternidade Alfredo da Costa entre 2006 e 2007 e passou depois para a clínica privada. Ainda que o percurso profissional tenha dado voltas inesperadas, entre 2008 e 2017 trabalhou numa empresa inglesa de apoio a pessoas endividadas, ajudando a organizar planos de pagamento, a Psicologia nunca deixou de estar presente. “A Psicologia esteve sempre na minha vida através de tudo o que eu faço”, diz, notando que continua a relacionar-se com pessoas da área. Considera-a, aliás, o fio condutor por trás de tudo o que cria atualmente.
Ao longo destes anos, a criatividade nunca desapareceu. Escrevia sempre e foi fazendo pequenas peças em feltro e, mais tarde, em EVA, que partilhava no blogue “De Sofia”, onde publicava ideias de faça-você-mesmo. Foi também aí, muito antes de existir a Detail Stylist, que começou a construir uma comunidade em torno do que criava.
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A pandemia trouxe a viragem decisiva. Com as pessoas impedidas de se visitar, Sofia criou os primeiros “miminhos”, pequenos objetos magnéticos com mensagens de força, feitos de forma artesanal e com textura, que os clientes enviavam a quem quisessem. Muitos foram parar às mãos de enfermeiros que passavam longas horas nos hospitais durante esse período e Sofia recorda ter recebido mensagens de agradecimento profundamente emotivas de quem os recebeu.
Em 2021 lançou a primeira linha de cadernos da Detail Stylist, hoje vendidos a um preço médio de 32€. Percebeu depressa que o caderno era, acima de tudo, um veículo. “Os cadernos foram só um meio para eu poder chegar à mensagem principal”, diz, a de devolver às pessoas o hábito de escrever. Desde então, cada caderno nasce com um tema e um propósito próprios. O primeiro, dedicado à árvore da vida, celebrava as raízes de cada pessoa; o outro foi uma homenagem a Frida Kahlo e à forma como a pintora transformou o sofrimento em arte.
O papel é hoje a sua grande matéria-prima e é no ateliê, em Sintra, que dá forma a cadernos, blocos de notas e diários, aplicando texturas no papel liso através de uma máquina manual, uma espécie de carimbo que imprime relevo e desenho em cada folha. A papelaria que cria é personalizada e artesanal, feita peça a peça, com um cheiro característico a papel novo e fita de cetim que se sente logo ao abrir a embalagem.
Mas voltemos aos Encontros de Escrita, que nasceram da necessidade de sair da solidão do ateliê e voltar a estar cara a cara com quem a acompanha. A primeira edição aconteceu a 7 de março, véspera do Dia da Mulher, no Lounge by CafeLab, em Oeiras, e desde então Sofia tenta manter uma periodicidade mensal, sempre com um tema diferente e um grupo intimista.
Cada participante recebe um kit preparado por Sofia, com papel de carta desenhado especificamente para aquele encontro, lacre e fita a condizer. O primeiro desafio, na estreia de março, foi escrever a alguém, vivo ou não, que surgisse primeiro no pensamento e Sofia recorda bem uma das cartas. Uma participante escreveu à irmã e essa carta ajudou a resolver uma zanga – hoje escrevem cartas uma a outra de forma regular.
A ideia dos Encontros de Escrita nasceu, na verdade, de uma carta que a própria Sofia recebeu. Uma seguidora da Madeira enviou-lhe uma mensagem manuscrita, com uma caligrafia cuidada, e o gesto tocou-a de tal forma que decidiu criar um espaço onde esse tipo de troca pudesse voltar a acontecer entre mais pessoas.
Os Encontros de Escrita têm a duração de três horas e custam cerca de 60€ (valor sempre a confirmar), montante que inclui o kit que cada participante leva consigo para continuar a escrever depois de sair da mesa. Quem quiser juntar-se ao próximo, em setembro, pode acompanhar as datas e as inscrições através do Instagram ou do site.
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