Muito antes de Vicente Palma subir a um palco ao lado do pai, Jorge Palma já lhe tinha dedicado uma música. O primeiro filho do cantor nasceu em Lisboa, em 1983, numa altura em que o músico se preparava para regressar aos estudos de piano. No ano seguinte, quando lançou “Asas e Penas”, incluiu no disco “Castor”, um tema instrumental escrita para Vicente.
Quase duas décadas depois, o bebé que tinha inspirado aquela composição estava do outro lado do piano. Vicente tornou-se músico, cantor e compositor e começou a acompanhar o pai em palco no início dos anos 2000. A ligação artística manteve-se durante mais de duas décadas e tornou-o no elemento mais antigo da banda de Jorge Palma.
Nos últimos anos, juntou-se aos dois Francisco Palma, o filho mais novo do cantor, com 31 anos, num projeto familiar que acabou por marcar a fase final da carreira do intérprete português.
Jorge Palma morreu esta segunda-feira, 21 de setembro, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. A notícia foi comunicada pela família e pela agência do músico. Vicente, hoje com 43 anos, perde assim não apenas o pai, mas o artista com quem partilhou grande parte do seu próprio percurso profissional.
A música entrou cedo na vida de Vicente. Cresceu rodeado por ela e começou a explorar o piano ainda em criança. A ligação ao instrumento não surpreendia numa casa onde o pai tinha começado a estudar piano aos seis anos e acabaria por concluir o curso no Conservatório. Vicente seguiu um caminho parecido durante a infância, embora mais tarde procurasse construir uma identidade própria.
O momento decisivo na relação profissional entre os dois chegou em 2002. Nesse ano, Jorge Palma deu três concertos no Teatro Villaret, em Lisboa, nos quais revisitou a própria obra num formato despido. Em vários temas teve Vicente ao lado. As atuações ficaram registadas em “No Tempo dos Assassinos — Teatro Villaret”, álbum ao vivo editado nesse ano.
Foi o início de uma parceria que ultrapassaria os 20 anos. Vicente passou a aparecer ao lado do pai na guitarra, nas teclas e nas vozes, tanto com a banda como em formatos acústicos. Em 2017, por exemplo, a rádio Antena 1 apresentava-o, juntamente com o acordeonista Gabriel Gomes, como um dos músicos que acompanhavam Jorge nos concertos mais intimistas e recordava que pai e filho já tocavam juntos há mais de uma década.
Vicente esteve também ao lado do pai naquele que viria a ser o último concerto de Jorge Palma. Aconteceu a 18 de julho deste ano, no Festival Artes à Vila, no Mosteiro da Batalha. Jorge apresentou-se num formato acústico acompanhado por Gabriel Gomes, no acordeão, e pelo filho mais velho, na guitarra e voz. Sem que ninguém o soubesse na altura, mais de duas décadas depois de começarem a tocar juntos, pai e filho partilhavam um palco pela última vez.
A relação também funcionava em sentido contrário: Vicente nunca quis limitar a carreira ao apelido que carregava. Em outubro de 2012 lançou “Parto”, o primeiro álbum em nome próprio, composto por 14 temas. Treze eram assinados por ele; a exceção era uma versão de “Para Rosalía”, tema associado a Adriano Correia de Oliveira, que Vicente já tinha gravado para o disco de homenagem Adriano: “Aqui e Agora”.
O título do álbum não tinha sido escolhido ao acaso. Vicente descreveu a criação do disco como um processo difícil e demorado. Havia músicas que o acompanhavam há anos e outras que lhe surgiam durante um sonho ou ao acordar. Quando uma ideia aparecia, explicou na altura, precisava de “agarrá-la antes que desaparecesse”.
“Este não foi um parto fácil”, escreveu sobre o trabalho.
Jorge estava inevitavelmente entre as influências do filho, mas Vicente foi criando o seu próprio percurso. Além do trabalho a solo, tornou-se elemento dos Tais Quais, projeto onde passou a tocar e compor ao lado de nomes como Tim, João Gil, Vitorino e Celina da Piedade. Colaborou também com artistas como Emmy Curl, Joana Alegre e Elísio Donas, dos Ornatos Violeta.
Apesar dos caminhos paralelos, Vicente nunca deixou de regressar ao palco com o pai. E Jorge não escondia o orgulho, embora gostasse de sublinhar as diferenças entre os dois.
“Tenho dois filhos fantásticos, que para além de filhos são grandes amigos e compinchas”, contou ao jornal “Diário de Notícias”, em 2022. Sobre Vicente, brincava com o contraste entre os estilos de vida: o filho mais velho era “completamente antialcoólico e antifumo” e tinha-se tornado vegetariano. Quando o assunto passava para a música, porém, falava dele como um profissional: dizia que era “muito experiente”, que tocava com outros artistas e elogiava a capacidade musical e vocal dos dois filhos.
Apesar da proximidade que mantinha com os dois filhos, Jorge Palma nunca falou publicamente de netos. Também não são conhecidas relações matrimoniais de Vicente ou Francisco, que sempre mantiveram essa parte das suas vidas longe da exposição mediática. Publicamente, o núcleo familiar do músico era sobretudo associado aos dois filhos, com quem partilhava também a paixão pela música.
Nessa altura, Vicente já não era apenas o filho que aparecia ocasionalmente nos concertos. “O Vicente faz parte da minha banda há vários anos. Aliás, é o membro mais antigo desta banda”, explicou Jorge Palma numa entrevista à FNAC.
Havia também espaço para concertos apenas dos dois. Em abril de 2022, Jorge e Vicente apresentaram-se juntos no festival Soam as Guitarras, em Setúbal. O espetáculo foi construído em torno das vozes, guitarras e de uma paixão que ambos partilhavam: o piano.
Nesse mesmo ano, outra atuação resumiu de forma invulgar a história dos dois. Num concerto no Teatro Tivoli, em Lisboa, Jorge recuperou “Castor”, a peça que tinha escrito para Vicente quase quatro décadas antes. Durante o tema ouviu-se uma gravação do filho ainda bebé. Pouco depois, Vicente juntou-se ao pai para tocar “O Meu Amor Existe” a quatro mãos no piano e permaneceu para um dueto de guitarra em “Eu Fui um Lobo Malvado”.
Entretanto, outro Palma começava a ocupar mais espaço no palco. Francisco, o segundo filho de Jorge, nasceu em 1995 e também seguiu a música. Se Vicente estava mais ligado ao piano, Francisco inclinava-se sobretudo para a guitarra. Jorge dizia que os dois tinham “vozes muito fixes” e eram muito afinados.
Foi dessa relação entre os três que nasceu “3 Palmas na Mão”. O nome começou por identificar o grupo de WhatsApp que Jorge mantinha com os filhos. Depois tornou-se uma canção. O tema foi incluído em “Vida”, de 2023, o último álbum de originais de Jorge Palma, e foi gravado pelos três apenas com guitarras e vozes.
Jorge já tinha experimentado tocar a música ao vivo com os filhos antes de o disco chegar às lojas. Numa entrevista de 2022, recordou um desses momentos. Bastava-lhe olhar para um dos lados do palco para encontrar Vicente e para o outro para ver Francisco. Descreveu a sensação como “fantástica”.
A canção acabou por crescer até se transformar num espetáculo inteiro. Em 2025, Jorge, Vicente e Francisco estrearam o formato “3 Palmas na Mão”, construído em torno das canções do pai, reinterpretadas para três músicos. O projeto continuou a passar por palcos portugueses e estava ainda ativo em 2026.
Jorge fez questão de afastar desde o início a ideia de que se tratava apenas de um número familiar feito para provocar emoção. Avisou que não queria um espetáculo “mal-alinhavado” sustentado pela relação entre pai e filhos. Os arranjos, a escolha dos instrumentos e a execução tinham de obedecer ao mesmo rigor que exigiria de qualquer outro projeto.
Talvez seja também aí que melhor se percebe a relação que construiu com Vicente ao longo de mais de duas décadas. O filho a quem tinha dedicado uma composição em 1984 já não estava no palco apenas por ser seu filho.
“Orgulho-me em tê-los comigo em palco e perceber que, de alguma forma, a música vive neles como vive em mim”, dizia Jorge sobre Vicente e Francisco. E acrescentava aquilo que, depois de tantos anos a tocar com o filho mais velho, parecia ser o maior elogio: tinha nos dois “colegas músicos”, capazes de erguer o espetáculo ao seu lado.
Mais de 40 anos separavam “Castor” de “3 Palmas na Mão”. No primeiro tema, Jorge Palma escreveu sozinho para o filho que acabara de nascer. No último projeto, já dividia com ele as vozes, as guitarras, o piano e o palco.







