cultura

Dos nazis a Marlon Brando, as melhores histórias do “pai do turismo português”

Chegou uma nova edição do livro de memórias de André Jordan. Nasceu na Polónia, cresceu no Brasil e vive há muitos anos em Portugal.
André Jordan tem 87 anos.

Aos 87 anos, qualquer pessoa terá uma vida cheia de histórias para contar. Mas poucos terão as histórias, as vivências e a memória de André Jordan, que ao longo dos anos tem sido muitas vezes descrito como o “pai do turismo português”. 

Nas últimas semanas foi publicada uma nova edição do seu livro de memórias, “Uma Viagem pela Vida”, editado originalmente em 2019. A edição revista tem um novo capítulo que se foca na pandemia, sobre os desafios que este período vai colocar à sociedade — afinal de contas, Jordan é um visionário, uma eterna pessoa de futuro. Mesmo aos 87 anos, analisa mais o presente e o que nos espera do que olha para trás. A edição da Almedina está à venda por 23,31€ e tem 740 páginas.

A ideia para escrever este livro foi-se formando ao longo dos anos. “Contava histórias como as que estão no livro e as pessoas diziam ‘tens que escrever um livro’”, conta André Jordan à NiT. O ex-jornalista já tinha outros livros publicados, como “O Rio que Passou na Minha Vida”, sobre as suas vivências no Rio de Janeiro dos anos 50.

“Uma das coisas que me motivaram é que quando eu contava como era o mundo, a vida, há algumas décadas atrás, as pessoas não queriam acreditar. Então decidi contar através da minha vida, das minhas experiências, como era o mundo. E também queria deixar um legado para a família, para os meus filhos, para os meus netos e para os meus futuros bisnetos, que não vou conhecer, mas gostaria que tivessem uma narrativa do que foi a minha vida e das motivações que me levaram a ter a vida que tive”, conta, com o sotaque brasileiro que nunca perdeu.

É assim que gostava de ser lembrado? “Ser lembrado é uma coisa relativa, porque o mundo esquece-se depressa das pessoas, mas tenho uma obra realizada que vai perdurar e que não é só minha — é dos milhares de trabalhadores. Eu ando pelo Algarve e tenho pessoas a vir ter comigo ‘Senhor Jordan, eu trabalhei consigo’, depois chega outro e diz ‘O meu pai trabalhou consigo’ e agora já estamos na fase de ‘O meu avô trabalhou consigo’ [risos].”

André Jordan criou os empreendimentos turísticos e residenciais da Quinta do Lago, Vilamoura XXI e Belas Clube Campo, entre muitos outros projetos em que esteve envolvido, em Portugal e no estrangeiro. Foi um homem que chegou a Portugal nos anos 60, um país com grande potencial mas subaproveitado em termos de turismo (e não só, claro), e que acabou por lançar as bases para muitos negócios que formaram a indústria do turismo nacional.

“O livro tem corrido bem, não tem sexo nem escândalos, é só mérito dele [risos]. Estou com 87 anos e se Deus quiser não pretendo fazer outro livro. Já contei as histórias, deixei obra, fiz os filhos, plantei árvores, como diz a regra [risos]. Penso que estou quase no descanso do guerreiro. Ainda estou ativo mas basicamente estou retirado.” O grupo Jordan é agora gerido pelos filhos.

Aquilo de que fala em relação às transformações na sociedade é bem real. “Em 1957 participei num seminário em Ohio da maior empresa de máquinas registadoras do mundo. Foi na altura em que começaram a aparecer os centros comerciais nos Estados Unidos, nas pontas das cidades. E havia sempre as department stores. E eu trouxe esse conceito para o Brasil, o que era muito útil. Hoje o Brasil é um dos países que têm mais shoppings. 60 anos depois, estou a ver o declínio dos centros comerciais por causa do comércio digital. Está a afetar as lojas tradicionais. Assisti praticamente ao nascimento e agora ao declínio, é curioso.” O livro está cheio de exemplos destes. A NiT selecionou algumas das melhores histórias de André Jordan (há muitas outras para conhecer no livro).

A fuga aos nazis

Nascido em 1933 em Lviv (cidade que atualmente pertence à Ucrânia, e onde nunca voltou), Andrzej Franciszek Spitzman Jordan tinha seis anos quando a família judaica fugiu da Polónia, no mesmo dia em que a Alemanha nazi invadiu o país. A família, de produtores de petróleo, era abastada.

“Não percebi nada, era muito criança, não sabia porque estávamos a sair. Nós saímos da Polónia via Roménia, fomos para Itália, para Veneza e Roma, depois fomos para Paris e percebi que havia uma guerra e que estávamos a fugir dela. Percebi perfeitamente nessa altura. Depois viemos para Portugal, onde estivemos uns seis meses no Estoril, eu estive no colégio St. Julians, que era semi-interno.”

A família veio para Portugal porque era um ponto de passagem entre a Europa e países seguros como os Estados Unidos da América ou o Brasil, onde acabaram por ir. “Portugal era um país neutro mas ao mesmo tempo restritivo à permanência de judeus. Passavam por aqui mas a maior parte teve de sair.”

Ainda assim, a família Jordan ficou para sempre ligada a Portugal e aos portugueses. “O meu pai fez bons amigos aqui e sempre mantivemos o contacto. Por exemplo, o nosso médico de família no Rio de Janeiro era português.” No Brasil, fez-se homem entre as noites boémias, ao lado da elite da cidade.

Do outro lado do oceano, a sua mãe converteu-se ao catolicismo e André foi criado sobretudo como católico — embora mais tarde tenha recuperado as suas raízes judaicas. Hoje assume-se como ambos. Só mais recentemente é que regressou à Polónia, numa viagem a Varsóvia e a Cracóvia, sendo que preferiu não ir ao antigo campo de concentração de Auschwitz.

“Sei tudo sobre aquilo, muitas pessoas que conheci, pessoas muito próximas, passaram por ali. Perdemos a maior parte da família no Holocausto. Mas não quis ir lá.”

O encontro com Salazar

O pai de André Jordan morreu em 1967. Nos anos anteriores à sua morte, vivia entre Portugal, França e o Brasil, gerindo os vários negócios da família. Foi com a sua morte que Jordan regressou a Portugal e começou a pensar estabelecer-se por cá.

“Ele tinha contactos com Salazar por razões várias, inclusive políticas — o meu pai era um homem de combate ao comunismo internacional, sobretudo na Europa de leste. Quando eu conheci o Salazar percebi que era uma atração de opostos. Porque o meu pai não era nada uma pessoa austera, e o Salazar era e achava graça ao meu pai e vice-versa. Então, quando o meu pai morreu, o Salazar escreveu uma carta, que é muito difícil de ler — porque ele tinha uma letra quase indecifrável — e eu quando vim a Portugal tratar das coisas pedi-lhe uma audiência para agradecer a carta. Fui com a minha então mulher, que era princesa do Liechtenstein e que atualmente mora em Portugal, e tivemos uma conversa extremamente interessante. Uma conversa livre. Como sou antigo jornalista e percebi que ele estava com vontade de conversar, comecei a fazer perguntas, não é? Ele foi respondendo com entusiasmo, foi muito interessante. Eu sou um homem de centro-esquerda, digamos assim, e não sentia afinidades políticas para com ele. Mas percebi que era um homem de grande carisma e entendi porque é que conseguia seduzir tantas pessoas para o lado dele.”

Um ano depois, o ditador português teve o famoso acidente com uma cadeira que o deixou extremamente fragilizado — e André Jordan nunca mais o voltou a ver. Mas ficou por cá e Portugal tornou-se a sua casa.

“Eu tenho uma declaração que é assim: a Polónia é a minha terra, o Brasil é a minha pátria e Portugal é a minha casa. O grande teste é quando há jogos de futebol entre o Brasil e Portugal [risos], fico sempre do lado de quem estiver a jogar bem. São duas equipas minhas.” Apesar de viver há 50 anos em Portugal, mantém um contacto próximo com o Brasil, onde tem família, amigos e um apartamento.

Um jogo de golfe desastroso com Otelo Saraiva de Carvalho

André Jordan é uma figura transversal, que tanto conviveu com Salazar como com Otelo Saraiva de Carvalho, por exemplo. O empresário conheceu o militar revolucionário através de Fernando Oneto, próximo de Palma Inácio, e mais tarde convidou-o para a inauguração do campo de golfe da Quinta do Lago, a 1 de novembro de 1974.

“Ele é um homem muito simpático, outra personagem de carisma, falava muito bem inglês — na altura que o conheci tinha interesse e curiosidade pela social-democracia, mas ele era muito pressionado pelo partido comunista e estava colado à extrema-esquerda.”

O encontro acabou por não correr muito bem, como recordou já no passado. “Os golfistas do Clube de Golf do Estoril ‘snobaram’ o Otelo, ninguém falava com ele. Por outro lado, estavam lá umas senhoras da realeza europeia que ficaram empolgadas por o Otelo ser um revolucionário, uma espécie de Fidel Castro. Estavam verdadeiramente alucinadas com ele e a mulher do Otelo ficou furiosa. Foi uma comédia de erros e eu consegui ficar mal com todos. Mas estava só a tentar trazer o Otelo para o nosso lado.”

Quando conheceu Grace Kelly, Marlon Brando e Ronald Reagan

Como descreve no livro, André Jordan teve a oportunidade de, ao longo da vida, conhecer algumas estrelas de cinema. É o caso de Grace Kelly, que na altura “estava a viver um momento de enorme popularidade pela participação no filme ‘Janela Indiscreta’, de Alfred Hitchcock, em que contracenava com James Stewart”.

“Incomodou-me que ignorasse o meu comentário: ‘Quando falei não tinha ideia de quem era a minha companheira de viagem. Admiro o seu trabalho e gostei muito do seu último filme, mas deixe-me que lhe diga que é muito pretensioso da sua parte achar que eu só estava tentando meter conversa por ser quem é.’ Nesta fase da nossa tensa interação, o carro pára. Estava no meu destino. ‘Pode deixar que eu pago’, diz-me ela sem sequer olhar para mim. Irritado, abri a porta, fiz uma pausa, e antes de sair respondi-lhe: ‘Thank you very much!’”

André Jordan deparou-se com Marlon Brando no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha. “Percebi que, com algum espalhafato, alguém se instalara na cadeira em frente. Desviando o meu olhar do artigo que estava a ler para o chão, por baixo do jornal, vejo o par de ténis mais sujo que jamais havia visto. Não resisti à curiosidade. Baixo o jornal e eis que deparo com a volumosa figura de Marlon Brando, que tinha ao lado um homem de idade, de reduzida estatura, talvez o seu empresário. Não os ouvi trocar uma palavra. O voo para Londres era de classe única, num avião pequeno, daqueles onde os passageiros se instalam apertados. À chamada, avancei para o embarque e encontrei-me sentado na parte detrás da cabine. Não voltei a ver o grande astro, e até duvidei que tivesse viajado connosco. À chegada a Londres, a caminhar lentamente para o desembarque, ouvi finalmente, vinda de um dos assentos, a voz inconfundível do enorme Marlon Brando: ‘I can’t get up!’”.

Ronald Reagan foi outro dos atores que conheceu — já na qualidade de presidente dos EUA. “Mais interessante foi cruzar-me com Ronald Reagan e a mulher, Nancy, em Maio de 1985, no Palácio da Ajuda. Já era então presidente dos Estados Unidos. Estavam em Lisboa, no final de um périplo por algumas capitais europeias e, como é da praxe, o presidente Ramalho Eanes ofereceu um banquete de Estado. Mais de uma centena de convidados, sentados numa grande mesa. Era então chefe de Protocolo o lendário embaixador Hélder Mendonça e Cunha. Entrei na lista dos convidados, mas é claro que fiquei sentado muito fora do alcance visual do ator, que eu me habituara a ver na juventude, sobretudo em westerns. O jantar acabou e as pessoas foram-se encaminhando pelos corredores do palácio para os seus destinos”, conta Jordan.

E acrescenta: “No final do jantar, havia uma receção mais privada noutro salão, para o qual me dirigi, à frente de todos, na companhia do pintor e decorador Pedro Leitão, saudoso amigo. Recolhemo-nos numa área de passagem, onde não havia mais ninguém, junto a uma grande porta, fumando um cigarro – como então se podia fazer. Eis que, de repente, a porta se abre e nos vemos diante de Ronald Reagan e da mulher. Alguém voltou a fechar a porta e ali ficámos os quatro, olhando uns para os outros, sem saber bem o que fazer ou dizer. Não tínhamos sido apresentados e podia parecer mal meter conversa. Atrevido como sou, e deveras surpreendido com a beleza de Nancy Reagan, decidi fazer um comentário simpático, porque pensei que os dois deviam estar esgotados de cansaço, depois de uma longa viagem e sucessivos compromissos protocolares. ‘Mrs. Reagan. you are looking so beautiful.’ A senhora sorriu polidamente, e o marido, claramente divertido pelo meu comentário, interpela-me: ‘What about me?…’ Respondi de rajada: ‘Your beauty is legendary, Mr. President…’ Gargalhadas, abre-se a porta, e entra a multidão.”

MAIS HISTÓRIAS DE OEIRAS

AGENDA