cultura
ROCKWATTLET'S ROCK

cultura

“Caronte”. Documentário acompanha a rotina silenciosa do homem que apanha corpos no rio Douro

A longa-metragem de Tânia Teixeira, que estreia esta quinta-feira, centra-se em Gastão, figura lendária do Porto. “Se ele não fizesse isto, muitos mais corpos seriam perdidos".

Todos os dias, há um homem que olha para o Douro à espera que algo aconteça. Não para salvar quem salta, mas para garantir que ninguém desaparece sem deixar rasto. É essa rotina silenciosa que está no centro de “Caronte”, a primeira longa-metragem da realizadora Tânia Gomes Teixeira, inspirada na vida de Gastão Teixeira. 

Tudo começou quase por acaso. “Eu comecei por estudar arquitetura na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, mas só lá estive três anos. Depois percebi que o que queria mesmo fazer era cinema e, em 2016, mudei para o curso de cinema da Escola Superior Artística do Porto”, conta a realizadora, de 32 anos, à NiT. No final da licenciatura, cruzou-se com uma cadeira de documentário e com uma história que lhe ficou imediatamente na cabeça. “Na altura não tinha ideia nenhuma do que queria fazer. E uma amiga falou-me desta personagem, o Gastão.”

Sabia da existência do “Duque da Ribeira”, uma figura lendária do Porto que durante décadas recuperou corpos de pessoas que caiam no rio Douro. Mas não fazia ideia de que havia alguém a continuar esse trabalho. “Eu não o conhecia por Gastão. Foi todo um processo para ganhar a confiança dele.”

O encontro que deu origem ao filme

Esse processo começou com uma curta-metragem de fim de curso, em 2019 — “Gastão”, uma espécie de ensaio do que viria depois. Mas transformar aquela figura numa longa-metragem foi bem mais difícil. “Quando tive financiamento do ICA, fui ter com ele e disse-lhe que queria fazer um filme. Ele disse que não queria. Passado uma semana, voltei lá com a câmara e disse-lhe: ‘sei que não quer, mas eu vou filmar as pontes e os turistas’. E fui ficando.”

A persistência resultou. Aos poucos, Gastão habituou-se à sua presença. “Percebemos depois que ele tinha andado na escola com a minha tia. Tudo isto foi um processo longo. Comecei a filmar o ‘Caronte‘ no final de 2021”. Gastão Teixeira, de 74 anos, não é um herói clássico. Não está em cima da ponte a impedir saltos, nem aparece nas notícias a salvar vidas em direto. O que faz é mais silencioso e, para muitos, mais difícil de encarar.

A realizadora Tânia Gomes Teixeira durante a rodagem do documentário “Caronte”.

Passa os dias na Ribeira do Porto, de olhos postos no Douro. Reformado, antigo operário e oleiro, regressou ao rio que sempre marcou a sua vida e nunca mais saiu dali. Vai de mota todos os dias desde Gaia, seis dias por semana. Só ao domingo abranda, por insistência da família.

Conhece o rio como poucos. Cresceu na Ribeira, aprendeu a nadar ali, trabalhou desde cedo e, já adulto, comprou um barco — o “Lobo do Mar”. Era para pescar. Mas com o passar dos anos tornou-se outra coisa. Hoje, é com esse barco que entra em ação quando alguém se atira ao Douro.

“O Gastão passa os dias à espera que isso aconteça para rapidamente agir, recolher os corpos e devolvê-los às famílias para que possam fazer o luto”, explica Tânia. “Ele não está na parte de cima a impedir alguém de se matar. Está cá em baixo, para que essas pessoas não desapareçam.”

A zona entre a Ponte da Arrábida e a do Freixo é uma das áreas com maior incidência de suicídios em Portugal. Nos últimos anos, muitos deixaram a Ponte D. Luís I devido ao turismo, mas o padrão mantém-se. Sem intervenção rápida, os corpos são levados pela corrente e podem nunca ser encontrados. A polícia também intervém, mas o tempo é decisivo. É aí que entra Gastão. “Se ele não fizesse isto, muitos mais corpos seriam perdidos.”

Um homem que vive entre o rio e o silêncio

Ao longo de mais de duas décadas, perdeu a conta ao número de pessoas que retirou do rio. Só em 2014, contou 19. Nunca cobrou nada. Faz tudo de forma voluntária, como um “bombeiro à civil”, reconhecido pela comunidade mas longe dos holofotes.

A sua história tem ainda camadas mais duras: nasceu na Ribeira, viveu com 16 irmãos, trabalhou desde criança e carrega uma perda íntima. Uma das irmãs morreu ao atirar-se de uma ponte ao Rio Douro. Um detalhe que o filme toca, mas sem explorar em excesso.

Apesar do tema, “Caronte” não é um filme sobre suicídio. Pelo menos, não diretamente. “Eu nunca quis que este fosse um filme pesado”, sublinha a realizadora. “O tema principal é o Gastão e aquilo que ele faz.”

A abordagem é clara: a câmara nunca assume o ponto de vista de quem salta. Fica sempre em baixo, junto ao rio, ao lado de quem espera. “Eu nunca filmei um resgate de um corpo. Apenas vislumbres, coisas fugazes. A câmara fica sempre no ponto de vista do Gastão. Vemos as pontes de baixo para cima.”

Essa escolha muda tudo. Em vez de um retrato sensacionalista, o filme torna-se numa observação da rotina, dos gestos e do silêncio. “Acaba por ser acompanhar a vida de um homem”, diz Tânia.

Há também uma dimensão ficcional que suaviza o peso do tema e introduz um lado poético. É aí que entra o título. Na mitologia grega, Caronte é o barqueiro que transporta as almas dos mortos para o submundo, atravessando o rio que separa os vivos dos mortos. No filme, essa figura mistura-se com a de Gastão. “Gastão existe. Caronte não existe. Caronte é um barqueiro da mitologia cujos gestos o Gastão imita. No filme, os dois são um só.”

Algumas cenas introduzem essa dimensão simbólica, criando um diálogo entre realidade e imaginação. Mas nunca deixam de estar ancoradas no homem real: aquele que todos os dias liga o motor do barco e espera.

Para Tânia, havia algo inevitável na atração que esta história provoca. “Cada vez que falava disto, as pessoas ficavam muito interessadas, sobretudo pela parte dos suicídios. É uma atração pelo abismo.” Contudo, recusou explorar esse lado de forma direta. “Eu não tenho conhecimento sobre os suicidas. Não quis que o filme fosse sobre isso. O filme é sobre o Gastão.” E talvez seja precisamente isso que o torna mais inquietante: não mostra o momento da queda, mas tudo o que vem depois.

“Caronte” foi filmado ao longo de vários anos, com o tempo necessário para ganhar confiança e acumular material: algo típico do documentário. “São filmes feitos com pessoas fora do cinema. Implicam acompanhamento, tempo, relação”, refere.

O resultado é uma longa-metragem de cerca de uma hora, que cruza documentário e ficção, já premiada no DOC. Coimbra este ano. A estreia está marcada para esta quinta-feira, 30 de abril, com exibições em vários cinemas do país, incluindo sessões especiais em Lisboa e no Porto, onde a realizadora e o diretor de fotografia estarão presentes.

A primeira desta sessões acontece esta quinta-feira no Cinema City Alvalade às 21h30, onde será exibido o documentário e depois será realizada uma conversa sobre o filme. 

Mas, no fundo, o filme já começou há muito. Começou no dia em que alguém disse a Tânia que existia um homem no rio Douro que passava os dias à espera da morte: não para a impedir, mas para dar um fim aos que já não podem voltar. E terminou quando percebeu que essa história não era sobre morrer. Era sobre o que fica depois.

Leia este artigo da NiT para conhecer com maior detalhe a história de vida de Gastão Teixeira. 

Carregue na galeria para ver algumas imagens das filmagens do documentário e de Gastão. 

ARTIGOS RECOMENDADOS