Se houve uma tendência que dominou o NOS Alive esta sexta-feira, 10 de julho, não foram os calções de ganga, os óculos de sol ou os chapéus para fugir ao calor. Foram as T-shirts dos Foo Fighters. Bastava olhar à volta para perceber quem eram os verdadeiros protagonistas do segundo dia do festival. E, quando as luzes se apagaram e os primeiros acordes de “All My Life” ecoaram pelo Passeio Marítimo de Algés, já ninguém tinha dúvidas de que todos os caminhos iam dar ao Palco NOS.
Pouco importava se minutos antes o público estava no Heineken ou no WTF Club. À medida que o palco era preparado, milhares de pessoas foram convergindo para o concerto mais aguardado da noite. Os gritos começaram ainda antes da banda entrar em palco e transformaram-se num autêntico rugido quando Dave Grohl surgiu de guitarra ao ombro. “Estão prontos, caralho?”.
Não demorou mais do que alguns segundos para provar porque continua a ser uma das maiores figuras da história do rock. “The Pretender” surgiu logo de seguida e trouxe o primeiro de muitos momentos de pura euforia. “Querem dançar? Vamos cantar juntos”, pediu Grohl, antes de lembrar que Lisboa recebia a última data da digressão europeia. “Que sítio do caraças para terminar.”
Apesar de o concerto ser longo, ninguém parecia sentir o cansaço acumulado de um dia inteiro de festival. Entre guitarras, bateria e uma sucessão de clássicos, não houve espaço para sonolência durante aproximadamente duas horas e meia.
Depois de despejar uma garrafa de água sobre si próprio, Dave avançou para “Times Like These”, que praticamente dispensou apresentações. Seguiram-se “Rope” e “Stacked Actors”, dedicada aos fãs “old school” e recuperada do álbum “There Is Nothing Left to Lose”, lançado em 1999.
“My Hero” acabou por inverter os papéis e foi o público que assumiu o protagonismo, cantando praticamente toda a música numa só voz. Logo depois chegaram “Learn to Fly” e uma conversa descontraída com os fãs. “Como estão? Estão bem? Já fazia tempo, nove anos. Isto só pode ser mentira”, brincou. “Hoje vamos tocar o máximo possível de canções porque somos uma banda há 30 anos e temos muita música. Não queremos parar e não vamos parar. Se souberem alguma, têm de a cantar comigo.”
Foi precisamente isso que aconteceu durante toda a noite. Até nas faixas mais calmas, como “These Days” ou “Wheels”, o descanso era pouco. Já em “Walk”, o recinto transformou-se num mar de mãos a bater palmas acima da cabeça.
Pouco depois, Grohl voltou a mostrar o seu famoso humor ácido. “Temos aqui uns velhos. Adoro velhinhos. Eu também sou. Esta é para os idosos”, disse antes de recuperar “This Is a Call”, um dos temas do álbum de estreia da banda.
A intensidade voltou a subir com “No Son of Mine”, marcada por uma bateria tão poderosa que fazia estremecer o chão. O baterista Ilan Rubin e o guitarrista Chris Shiflett receberam longas ovações do público, recompensadas com uma vénia de Dave Grohl.
Entre músicas, o vocalista fez questão de recordar as últimas semanas da digressão. Passaram por Oslo, Berlim, Munique, Itália e Espanha antes de chegarem a Portugal. “A última noite é sempre agridoce. É bom voltar depois de tanto tempo. Este é o melhor espetáculo que já demos neste País”, confessou o vocalista de 57 anos.
Depois de, no último ano, a vida pessoal de Dave Grohl ter sido assunto de conversa em meios de todos os países por ter assumido publicamente ter tido uma filha bastarda, fora do casamento, o músico pareceu encontrar no NOS Alive uma nova família bem maior. Afinal, ao longo de mais de duas horas, cerca de 60 mil pessoas cantaram cada verso ao seu lado como se fossem filhos de sangue.
Antes da reta final, Grohl apresentou “os melhores amigos”, como descreveu os restantes elementos da banda. Chris Shiflett incendiou o recinto com um solo de guitarra enquanto desafiava Lisboa a fazer mais barulho do que Madrid. Nate Mendel recuperou “Seven”, dos Sunny Day Real Estate, banda onde tocou antes dos Foo Fighters. Rami Jaffee, o teclista e pianista, foi protagonista do concerto com “One Headlight”, dos The Wallflowers.
Pat Smear, por sua vez, mostrou porque continua a ser uma das figuras mais respeitadas do rock com “Manimal”. E Ilan Rubin surpreendeu todos ao trocar a bateria pela guitarra de Grohl, enquanto o vocalista assumia as baquetas para interpretarem juntos “Tap Dancing in a Minefield”.
Depois dessa longa apresentação, a festa entrou na reta decisiva com “Monkey Wrench”, “Breakout” e “The Sky Is a Neighborhood”. O momento mais emotivo chegou pouco depois.
“Tocamos esta todas as noites. Esta é para o Taylor Hawkins”, anunciou Dave. Bastaram essas palavras para que milhares de vozes gritassem o nome do antigo baterista da banda, que morreu em 2022, aos 50 anos. A homenagem foi feita ao som de “Aurora”.
Se havia dúvidas de que ainda restava energia, desapareceram em “Best of You”. “Se cantarmos mais uma, temos de cantar mais duas ainda mais alto”, pediu Grohl. O público respondeu sem hesitar.
A música terminou, mas os fãs continuaram a cantar durante largos segundos. Dave Grohl, espantado, limitou-se a olhar. “Obrigado por esta noite. Foi lindo. Mas, acima de tudo, obrigado pelos últimos 31 anos. Espero voltar em breve e repetir tudo no próximo ano. Esta é a forma perfeita de acabar a tour.”
A banda ainda recuperou “Exhausted”, tema que encerrava a primeira digressão dos Foo Fighters há mais de três décadas. Mas a despedida verdadeira só chegou com “Everlong”.
No público havia lágrimas, abraços, beijos, danças e sorrisos. Acima de tudo, viam-se festivaleiros em êxtase após terem assistido àquele que foi, provavelmente, o melhor concerto dos Foo Fighters em Portugal.
Uma coisa é certa: nos próximos dias, os rebuçados para a garganta devem desaparecer das prateleiras dos supermercados. Afinal, os festivaleiros gritaram ao longo de 24 canções como se não houvesse amanhã.
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