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Algés é a casa de Harry Styles. Nós só tivemos o privilégio de lá entrar

O cantor reforçou o seu estatuto de estrela pop em Portugal, com uma tour de dois anos e meio perto do fim.
Foi uma festa.

Harry Styles terminou a sua atuação de sorriso estampado no rosto. “Este é o período mais feliz da minha vida”, afirmou, com a sua digressão de dois anos e meio prestes a chegar ao fim no Passeio Marítimo de Algés, esta terça-feira, 18 de julho. Com “Harry’s House” a cimentar a sua posição como artista pop sério, Styles lançou-se num longo périplo para espalhar a sua música ao vivo. No decurso das suas jornadas, o cantor deu dois saltos a Portugal, ambos em nome próprio: além deste concerto, esteve a 31 de julho de 2022 na Altice Arena.

Quer isso dizer que não se previam grandes surpresas para esta noite, à exceção de algumas alterações no alinhamento. Com três álbuns lançados, Styles também não tem assim tanto por onde escolher. Em nada a falta de novidade fez esmorecer o entusiasmo. O recinto lotou com fãs repletos de adereços preparados para a ocasião, das boas de penas à volta dos pescoços às afamadas pulseiras da amizade.

“Esta sensação de ser um indivíduo solitário e separado é uma alucinação”, proferida pelo intelectual budista Alan Watts, ecoou pelo Passeio Marítimo de Algés enquanto surgiam os grafismos da Love on Tour nos ecrãs. A escolha de tal citação tem uma forte razão de ser. Um concerto de Harry Styles é suposto ser mais do que performance musical, é um espaço de comunhão. Pais e filhos, mães e filhas, adolescentes ao rubro e millenials em igual desvario gritaram as letras tão alto quanto possível ao longo de praticamente duas horas de concerto.

E quando não era a música a provocar esse sentimento de pertença febril, era Styles a vestir o papel de mestre de cerimónias e a puxar pelo público. Qualquer gesto, qualquer interação foram motivo de gritos enérgicos, fosse com o artista a fazer poses sugestivas enquanto dançava, fosse quando levantava ou baixava o braço para controlar o volume da sua audiência.

Em sentido contrário, os espectadores também ajudaram a criar essa ligação: foram incontáveis os momentos em que o cantor se riu e quase perdeu a compostura enquanto cantava em reação a alguém do público. Dirão os mais ortodoxos que um cantor deve ser capaz de controlar-se, mas mais importante mesmo é esta ligação gerada. Na tradicional paragem do concerto para falar com os fãs da fila da frente e ler cartazes, ajudou uma espectadora a fazer o seu “coming out”, ou seja, a assumir-se como alguém com uma orientação sexual ou género diferentes da norma. Para tal, ele e a sua banda improvisaram um momento em que carregou consigo a bandeira trans e LGBT.

No que toca aos elementos que acompanharam Styles, o artista muniu-se de uma secção de sopros portentosa que veio dar outro colorido às suas composições — tornando-as, aliás, mais interessantes e dinâmicas que as gravações de estúdio. Mas a sua verdadeira arma secreta reside na baterista Sarah Jones. Além de conferir propulsão ao concerto, canta em quase todas as músicas e tem o condão de demonstrar presença de palco apesar de estar ocultada pela sua bateria.

“Daydreaming” deu início à festa, com o artista a surgir em palco vestido com uma peça de inspiração dos 70s, misto de pop com o cabedal à Rob Halford. Essa década tem sido claramente a que mais inspira Styles neste momento, sendo que o concerto pendeu principalmente entre “Harry’s House” e o anterior “Fine Line”. De guitarra na mão, “Golden” fê-lo competir com o público a ver quem cantava mais alto, seguindo-se “Adore You”, cantada num tom mais grave.

A sequência inicial do concerto não arrebatou: em parte porque o som estava fraco (principalmente ao nível das guitarras, que chegaram a soar como se viessem de um rádio estragado), e em parte porque o artista guardou o seu melhor material mais para a frente. Destacaram-se “She”, coroada com a luz das lanternas enquanto os seus solos iam sendo tocados, “Matilda”, um momento de descanso na sua folk despojada e vulnerável e “Late Night Talking”, que sinalizou com o seu jeito brincalhão o que se seguiria.

Auxiliado pelo vento, que amainou e permitiu que o som melhorasse, Styles lançou-se numa sequência de músicas praticamente sem interrupções que subiu o nível. “Cinema” passou para “Music for a Sushi Restaurant” com direito à introdução da “YMCA” pelo meio, e o seu funk maroto deu lugar ao manifesto que é “Treat People With Kindness”, A coisa, porém, não ficou por aqui: o artista não esqueceu o seu passado nos One Direction e ofereceu aos fãs de longa data uma versão “What Makes You Beautiful”, bem mais requintada que a original.

Antes do encore, Styles aproveitou para apresentar a banda, que foi introduzindo “Grapefruit”, antes de “Watermelon Sugar” banhar o público de frutose auditiva e “Fine Line” fechar com um clímax emocional. Este, porém, pecou perante a reação tida a “Sign of the Times”, o seu primeiro grande single a solo e que estudou os pergaminhos das baladonas rock. Com o público totalmente em êxtase, atirou-se a “Medicine” — tema não gravado que só toca ao vivo — e a “As It Was”, o mega single tão melancólico quanto dançável com que surgiu no pós-pandemia. “Kiwi”, desavergonhadamente rock and roll tão retro que quase cheira a naftalina, terminou o regresso de Styles a Portugal em apoteose.

A abrir o concerto estiveram as Wet Leg, com quem Styles já tinha história antes da banda britânica ser convidada para esta fase da digressão. “Wet Dream”, um dos seus grandes singles, foi cantado pelo artista no Live Lounge da BBC, o que ajudou a propalar a popularidade da banda. Esse espírito de comunhão foi recordado com o artista a convidar as guitarristas e vocalistas Rhian Teasdale a Hester Chambers a cantar esse tema durante o seu concerto.

Se as duas não desperdiçaram a oportunidade quando chamadas ao palco, a sua atuação de abertura ficou a saber a desperdício. Com um indie rock algures entre o espírito debonair de Nova Iorque e a descontração solarenga californiana, foi tanto o relaxamento que se tornou letargia. O som não ajudou, mas ficou a parecer que a banda estava cansada antes mesmo de entrar em palco, e nem mesmo o seu êxito “Chaise Longue” ajudou a combater essa sensação.

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