Há uma década, a Semana do Brasil em Oeiras cabia dentro de uma pequena gelataria. Por estes dias, a festa ocupa parte do centro histórico do concelho. O que começou na Don Pavili como uma pequena homenagem ao país cresceu de um único espaço para 38 estabelecimentos, oito deles restaurantes, e mais de 50 atividades ao longo de dez dias. A maior edição de sempre arranca a 4 de setembro, sob o tema “Uma Viagem de Sabores: O Atlântico à Mesa em Oeiras”.
Tudo começou durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, quando o lisboeta Pedro Mendanha Dias decidiu homenagear o país onde tinha vivido durante oito meses, graças a um intercâmbio universitário. O sócio-gerente da Don Pavili e curador da Semana do Brasil passou 15 dias a criar sabores de gelado brasileiros, numa altura em que ainda era difícil encontrar em Portugal produtos vindos do Brasil. “Fizemos o que deu e fez imenso sucesso”, conta. Tanto que, terminados os Jogos, os clientes continuaram a perguntar quando voltava a Semana do Brasil. A insistência esteve na base da decisão de tornar a iniciativa anual.
Em 2025, com a Don Pavili a celebrar dez anos, Pedro decidiu testar uma celebração maior. Juntaram-se a ele a livraria Gatafunho, o restaurante Frigideira Carioca e a Confraria do Polvo. Foi nessa edição que a Frigideira Carioca, que já trabalha a temática brasileira durante todo o ano, começou a fazer pastéis de feira, a pedido dos clientes. Na Confraria do Polvo, a chef Carla criou uma moqueca de polvo que nunca tinha feito antes e que, devido ao sucesso, ficou na carta durante todo o ano.
Na Gatafunho, uma montra dedicada a autores brasileiros esgotou os exemplares da “Turma da Mônica” em poucos dias. Organizado em apenas 15 dias, o projeto teve um efeito que se sentiu em todo o Centro Histórico, mesmo nos espaços que não participaram diretamente. O sucesso da experiência, sentido na faturação dos quatro espaços envolvidos, mostrou a Pedro que o formato tinha espaço para crescer. Nesse mesmo ano, a Semana do Brasil em Oeiras completava dez anos e foi essa coincidência que o convenceu a alargar o convite a todo o Centro Histórico em 2026.
Pedro falou com dezenas de estabelecimentos do Centro Histórico e conseguiu a adesão de 38. Preferiu deixar de fora as lojas de cadeias, para manter o evento orgânico e próximo dos comerciantes locais. Oito desses espaços são restaurantes. Os restantes 30 vão trabalhar a temática à sua maneira, através de workshops e masterclasses.

A ligação de Pedro ao Brasil remonta a 2010, quando o então estudante de engenharia de materiais do Instituto Superior Técnico fez um intercâmbio na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, no sul do Brasil. Chegou em maio, meses antes do início normal das aulas e apanhou um inverno gelado que não esperava.
“Os primeiros tempos foram muito complicados”, recorda. Chegou a pensar em regressar a casa logo na primeira semana, mas o bilhete de regresso só tinha data para dezembro. Foi lá que reencontrou Michele Pavan, colega do Técnico que também tinha feito Erasmus em Portugal e estava a terminar a tese na mesma universidade brasileira. Anos mais tarde, tornar-se-ia seu sócio na Don Pavili.
Apesar dos primeiros meses desafiantes, acabou por ficar até dezembro e voltou com uma perceção do Brasil bem diferente daquela que tinha à chegada. “É um continente, não se pode dizer que é um país, é uma escala completamente diferente”, diz a propósito das diferenças na gastronomia, no clima e até nas pessoas de estado para estado. Ficou-lhe, sobretudo, um carinho grande pelo país, que trouxe consigo no regresso a Portugal.
A relação com o Brasil e, agora, também com a comunidade brasileira em Oeiras não passou despercebida. Este ano, foi convidado pelo embaixador do Brasil para a festa do dia 7 de setembro, no Jardim da Embaixada. Para a ocasião, vai usar uma jaleca preta com as bandeiras de Portugal e do Brasil, uma de cada lado.
Detentora, desde 2018, do título de melhor gelado de Portugal, atribuído numa prova cega organizada pela Camera di Commercio Italiana per il Portogallo, a Don Pavili quer elevar a fasquia nesta edição da Semana do Brasil: passa de 16 sabores brasileiros no ano passado para 25 em 2026. Entre os clássicos que se mantêm estão goiaba, cajá, caju, graviola, umbu e cupuaçu, mas também haverá estreias, como licor de jabuticaba e cachaça com melado de cana. Volta ainda o morango do amor, criado em 2025 com a pasteleira Carolina Sales, que se tornou um dos sabores mais pedidos da casa ao longo do ano. Os sabores serão alternados durante os dez dias porque, como sublinha Pedro, nem todos os clientes brasileiros procuram as opções mais exóticas. Os preços vão de 3€, por um sabor, a 6€, por quatro sabores.
Nos restantes sete restaurantes, a regra é adaptar e não forçar. As ementas ainda estão a ser fechadas, com valores a divulgar mais perto da data, mas os pratos já permitem perceber o rumo de cada casa. O Chá da Barra prepara maminha com puré de mandioca e leite de coco, vatapá de camarão e um bolo de crepes com açaí e brigadeiro de coco e maracujá. A Confraria do Polvo mantém a moqueca de polvo criada em 2025. A Tasca do Bem e do Mal, que abriu recentemente e tem grelha própria, aposta na picanha brasileira e convida, no primeiro domingo, a Carol do Acarajé para cozinhar na esplanada durante todo o dia.
O restaurante peruano vizinho Dom Zé’viche vai criar um ceviche de inspiração brasileira e inverter as suas bebidas típicas: em vez do habitual pisco sour, vai servir um cachaça sour e, em vez da caipirinha brasileira, uma caipirinha feita com pisco. Já a trattoria italiana La Dolce Vita, cujos sócios têm uma pizzaria em Paraty, vai servir pizzas calabresa e portuguesa, as mais vendidas no Brasil segundo os próprios.
Entre os restantes 30 aderentes, os workshops seguem a área de cada negócio. A imobiliária vizinha da Don Pavili organiza uma masterclass sobre investimento imobiliário para brasileiros interessados em comprar casa em Portugal. A loja Lãs da Júlia propõe um workshop de croché com os fios da marca Círculo. A recém-aberta clínica Prime Tails corta gratuitamente as unhas dos animais de estimação ao som de música popular brasileira, além de promover uma masterclass sobre a burocracia necessária para levar um animal entre os dois países. A Gatafunho também tem um papel central na programação cultural, com apresentações de autores brasileiros e sessões de contos, entre elas uma visita de Flávia Lins, autora do “Diário do Pilar”.
Quem gastar 10€ ou mais em qualquer um dos 38 estabelecimentos aderentes, seja um restaurante ou a farmácia do Centro Histórico, recebe um cupão para o sorteio final, com pelo menos 38 prémios em vales, um por cada espaço participante. A programação inclui ainda uma roda de samba no Largo, no primeiro sábado à noite, e um bloco de samba-reggae que sai da Frigideira Carioca e sobe até ao Largo, em frente à igreja, sem palco nem iluminação montada. “A ideia é ser algo mesmo raiz”, diz Pedro.
Carregue na galeria para espreitar como foi a edição passada da Semana do Brasil na Don Pavilli.







