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A loucura por detrás da mensagem secreta que Munch deixou em “O Grito”

"Só podia ter sido pintado por um louco", escreveu o pintor norueguês na sua obra-prima.
A mente de Munch ainda é um mistério

“Herdei dois dos inimigos mais aterradores da humanidade — a herança da consumição e da insanidade —, a doença, a loucura e a morte eram os anjos negros que me vigiavam no berço”, escreveu o artista norueguês num diário sem data.

O seu estado mental foi sempre um puzzle por montar para os especialistas que, mais do que analisarem a sua obra, quiseram também analisar o homem. A última peça chegou por estes dias, com uma descoberta — ou melhor, uma confirmação — em forma de mensagem.

Uma análise recente à sua obra mais famosa, “O Grito”, confirmou que a mensagem escondida e escrita à mão na tela foi mesmo feita por Munch, contrariando as teses que apontavam para um mero ato de vandalismo.

“Só podia ter sido pintada por um louco”, lê-se com extrema dificuldade num dos cantos da pintura que, na verdade, não é única. Foram feitas quatro versões entre 1893 e 1910, bem como várias litografias.

Uma das obras-primas do expressionismo foi alvo de um extenso estudo por parte dos especialistas do Museu Nacional da Noruega. A caligrafia da mensagem foi comparada com várias cartas e páginas escritas pelo artista norueguês e o resultado não podia ser mais esclarecedor.

“A escrita é definitivamente de Munch. A caligrafia, bem como os eventos de 1985, quando Munch exibiu a pintura pela primeira vez, tudo aponta para a mesma conclusão”, revela Mai Britt Guleng, curadora do museu.

A primeira exibição da obra provocou nos críticos a mesma reação que ainda hoje provoca em quem a vê: o sentimento de ansiedade, desespero e depressão levaram, como hoje, a muitas interrogações sobre o verdadeiro estado mental do autor.

Os especialistas acreditam que a nota acrescentada por Munch é um reflexo dessas observações por quem via pela primeira vez a sua pintura. O tema não é, de resto, um exclusivo de “O Grito”. A alienação e a morte estão presentes e estão ligadas à vida de Munch.

A tragédia familiar

Munch era ainda uma criança quando a mãe contraiu tuberculose. Passou os seus últimos dias confinada a uma cama, onde haveria de morrer. Apenas com cinco anos, ficou ao cargo do pai, médico e fanático religioso com um fascínio pela vida após a morte, e a tia.

Sophie, uma das suas três irmãs, era a sua favorita. Morreu também vítima de tuberculose, tinha apenas 15 anos. A sua morte marcou de tal forma o pintor que os seus momentos finais inspiraram uma das suas mais sombrias obras: “Morte no Quarto da Doente”.

Na obra, Munch retrata a morte de Sophie em 1877. Ela que, nos últimos momentos de vida, pediu apenas para que a tirassem da cama e sentassem numa cadeira de baloiço. Assim fizeram. Na pintura, Munch retrata o luto de cada um dos membros da família. A cadeira, essa ficou sempre na sua posse até à morte.

A morte estava quase sempre presente, se não na família, no dia a dia do autor, que enquanto criança acompanhava o pai nas consultas a doentes nos seus momentos finais. Munch era também um jovem frágil, estava constantemente doente, o que o isolava frequentemente em casa.

“O meu pai era um homem de temperamento nervoso, obsessivamente religioso — ao ponto de uma psiconeurose. Dele herdei as sementes da loucura. Os anjos do medo, da angústia, e da morte estão ao meu lado desde o dia em que nasci”, escreveu.

Se não era a morte, era a loucura que o atormentava. Outra irmã de Munch, Laura, foi diagnosticada com perturbações mentais com apenas cinco anos. Andreas, o seu único irmão, morreu pouco tempo depois de casar, vítima de pneumonia. Tinha 30 anos.

A morte e a família foi novamente um tema que voltou a visitar em 1899 com “A Mãe Morta e a Criança”, onde retrata uma filha pequena, em desespero e angústia perante o cadáver da mãe, já descolorido e sereno na cama.

A loucura

Munch procurou refúgio na vida boémia, entre lutas e álcool, mas nem isso o ajudou a fugir aos problemas mentais. Era um homem preocupado com a sua fragilidade, constantemente à espera do mesmo destino da mãe e dos irmãos. De facto, só uma irmã, Inge, sobreviveu até a velhice.

A depressão crónica herdada do pai e do avô potenciaram a sua obra-prima, supostamente inspirada num passeio ao pôr do sol com amigos. A inspiração terá surgido num momento de extrema ansiedade, que descreve como o momento em que “o ar se transformou em sangue” e ouviu “um grito sem fim a atravessar a natureza”.

Três anos depois de exibir a pintura, já em Paris, recebeu por carta outra notícia trágica: a morte do pai. Foi então que entrou numa espiral depressiva, que também o ajudou a produzir mais do que nunca: tudo obras que rodeavam os temas da morte, do desespero, da ansiedade, da morte e da doença.

A época ficou também marcada por uma relação calorosa com Tulla Larsen, de quem ficou noivo. Não se sabe o que terá provocado o desentendimento, mas as consequências foram nefastas. O fim da relação envolveu um disparo que arrancou parte de um dedo ao artista. Cheio de raiva, consta que usou uma serra para destruir a meio uma pintura que o retratava a si e a Larsen.

Em 1908, percebeu definitivamente que precisava de ajuda. “Os acessos de raiva eram mais comuns e frequentes. A bebida deveria ajudar a acalmá-los, especialmente pelas manhãs, mas à medida que o dia avança, torno-me nervoso, raivoso”, escreveu num dos seus diários. Cedeu apenas quando a mente quebrou. Um episódio de alucinações e paralisia temporária levaram-no ao internamento num hospital psiquiátrico em Copenhaga.

Durante oito meses, foi sujeito a uma rigorosa dieta e a um tratamento novo que tentava curar as condições nervosas. Com um espírito renovado, entrou numa nova fase da carreira, mais famoso e já com mais posses do que o comum artista. Mais tarde decidiu isolar-se e retirar-se para uma quinta nos arredores de Oslo.

Os temas mudaram: virou-se para a natureza, para os retratos. Mas os seus anjos da morte regressaram em 1918, quando a pandemia da gripe espanhola assolou o mundo e chegou à casa de Ekely para o contagiar. A gripe atacou forte, mas Munch sobreviveu. O momento ficou eternizado na pintura de 1919, “Autorretrato com a Gripe Espanhola”.

Os últimos anos de vida foram passados em isolamento, na casa rural em Ekely, onde se tentou refugiar da invasão nazi que declarou as suas obras como arte degenerada. Morreu em 1944, perto do fim da guerra, tinha 80 anos.

Na sua casa, as autoridades descobriram um verdadeiro tesouro. Escondidas no segundo piso estavam mil pinturas, mais de quatro mil desenhos, 15 mil impressões e dezenas de litografias, fotografias e outras obras.

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