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A livraria oeirense que vendia publicações proibidas pela PIDE

A Espaço é a livraria mais antiga do concelho de Oeiras. Já tem 57 anos de história e recebeu grandes nomes do século passado.
O piso inferior, direcionado para a venda de livros.

“Mãe, então estes senhores levam os livros todos e não vão pagar?”, disse inocentemente a jovem Elsa Cordeiro, uma das filhas dos proprietários da Livraria Espaço, quando viu uma dupla de agentes da PIDE a levar uma pilha de livros confiscados. A atual livraria mais antiga do concelho de Oeiras está localizada no número 51 da Avenida Combatentes da Grande Guerra, em Algés, há 57 anos. O nome significa “espaço para sonhar”. Durante o antigo regime, era ponto de encontro da população que se opunha às regras restritas de Salazar e de quem queria comprar livros proibidos à socapa. 

“A livraria nasceu em 1964, foi formada pelos nossos pais e era uma sociedade que juntava outras pessoas, sendo que era livraria e galeria de arte. Posteriormente, esses sócios saíram e ficaram apenas o nosso pai e mãe, tornando-se uma atividade familiar. Uma das coisas que me recordo é a recorrência com que passava aqui uma equipa de elementos da PIDE. Vinham fazer censura às publicações que eram proibidas pelo regime e não podiam sequer estar à vista ou à venda. Na realidade, nós tínhamos cá essas publicações que estavam muitas vezes escondidas para os clientes que sabiam dessas publicações pedirem discretamente. Recordo-me dos dois elementos da PIDE que cá vieram. Confiscarem os livros e fizerem uma pilha grande em cima do balcão. Fizeram questão de levar os livros todos. Fiquei muito indignada”, acrescenta a responsável de 57 anos. 

O que acontece é que esta livraria é bastante diferente das restantes a que estamos habituados. A Espaço divide-se em dois pisos, sendo que os artigos de papelaria estão à vista a partir da montra de vidro, porém os livros só são acessíveis através de uma escada discreta e rente à parede. Por vezes, os clientes ficam surpreendidos com esta descoberta. 

“Todos os dias aparecem pessoas aqui que não conhecem a Espaço. E temos até uma forma de fazer com que os clientes desçam, porque as pessoas passam na avenida e julgam que só temos a parte de cima, nem lhes passa pela cabeça que temos uma livraria na parte de baixo. Então arranjámos uma artimanha de venda para as pessoas descerem. Por exemplo, têm de vir cá abaixo por um postal, uma cartolina, um caderno ou pagar com multibanco. E as pessoas por norma dizem ‘e eu que moro aqui há tantos anos e nunca tinha dado por isto?'”. 

A verdade é que esta pequena cave é uma verdadeira janela aberta para o mundo. Não só os visitantes se sentem à vontade para comprar as publicações que quiserem desde sempre — até as que não encontram, pedindo por encomenda —, como também se sentiam à vontade para debater questões políticas noutros tempos. Seria algo perigoso e era necessário não perder de vista a expressão “as paredes têm ouvidos”, porém na Espaço isso nunca foi um problema.

“Como era uma cave, as pessoas sentiam-se mais seguras para conversar e falavam sobre a política e o regime, admitindo que eram contra. Queriam que as coisas mudassem. As pessoas conversavam abertamente quando sabiam que estavam em segurança, até sobre livros que não podiam ser publicados cá ou sobre pessoas que estavam presas. Ainda hoje, há quem se encontre aqui e depois acaba por gerar a conversa. Ou porque compram um livro em comum ou porque acharam piada a alguma frase que se disse. E também é ponto de encontro das pessoas que já se conhecem”, continua Liliana Cordeiro, de 51 anos, uma das irmãs igualmente responsável pelo negócio.

Personalidades que se cruzam

Depois de tantos anos com as portas abertas não apenas para os oeirenses, mas sobretudo para qualquer pessoa que seja fã de um bom enredo, são várias as histórias que ficam na memória da família Cordeiro. Vários nomes que tão bem conhece, já desceram aquelas escadas que dão acesso a um mar de livros.

“Um dos fundadores da Espaço foi Armando Caldas, o ator e encenador português, mas esteve muito pouco tempo connosco, acabando por sair. Foi fundar o Teatro Primeiro Acto, em Algés, agora Escola de Teatro Musical. Na altura, o espaço aqui começou a ser pequeno para todas as atividades que existiam, então as mesmas foram transportadas para o próprio teatro”, revelam as irmãs.

Efetivamente, estava tudo ligado ao encontro de escritores, sendo que muitos passaram pela mesma porta de vidro estreia. Só para mencionar alguns, falamos-lhe do escritor Alves Redol, opositor feroz dos regimes totalitários, mas também de Mário Castrim, considerado o primeiro crítico de televisão em Portugal. Até José Saramago, galardoado com o Nobel da Literatura em 1998, foi cliente da Livraria Espaço devido à proximidade com o teatro de Algés. “Aliás, este chegou a ser o sócio 213 do Teatro Primeiro Acto”, reforça Liliana em conversa com a NiO.

De repente, a mesma recorda-se de um escritor famoso que já marcou presença na livraria e deixou o espaço “completamente à pinha”. Por ter, na altura, cerca de oito anos, não se lembra do nome do autor, mas sabe que “não conseguia descer as escadas porque era gente por todo o lado”. Eis que a irmã pergunta: ‘não estás a falar do Art Sullivan?’ Pois é, o cantor belga era famoso pela sua música, mas ainda assim era mais conhecido pelo seu amor a Portugal. 

“O Art Sullivan era muito conhecido na altura e ele veio cá à loja por volta de 1968. Ele foi convidado a vir porque nós tínhamos uma parte que era discoteca onde vendíamos vinis. As adolescentes estavam completamente loucas e gritavam por ele. Ele entrou aqui com um guarda-costas e um polícia com um cão pastor alemão. Assinou umas coisas e foi embora”, conta Elsa. 

Depois do 25 de abril de 1974, logo em maio ou em junho, houve um livro que chamou a atenção de toda a gente e fez com que fosse necessário mudar a disposição da Espaço. “Um livro chamado “Portugal e o Futuro”, do António Spínola, nós recebíamos às resmas. As pessoas já nem desciam para a cave, tivemos de meter a banca lá em cima. Era chegar e levar, parecia pão. As pessoas queriam saber o que se passava, afinal de contas foi o primeiro Presidente da República após a Revolução dos Cravos”. 

A Livraria Espaço no ano de abertura, em 1964.

“O livro tem um efeito terapêutico”

A Livraria Espaço ganhou o título de “livraria mais antiga do concelho de Oeiras”, porque todas as outras têm vindo a fechar ao longo dos anos. Na zona de Algés, tornaram-se também na única papelaria, tendo em conta que outros locais que vendam esse tipo de artigos não o fazem de forma exclusiva. “O segredo é trabalhar muito na parte local e gostar do ramo também”, revelam as irmãs que agora gerem o negócio anteriormente dos pais.

Ficarem conhecidos na zona e arrecadarem este estatuto foi um trabalho progressivo que demorou vários anos. São vários os visitantes que aparecem apenas para colocar a conversa em dia, mas acabam sempre por dizer “vocês não vão embora, não saiam daqui!”. Outros sabem perfeitamente que este é o local ideal para comprar uma boa história

“Muitas vezes, só de olhar para a pessoa já sabemos o que ela vai levar. Também ao conversar, temos a perceção do que a pessoa gosta. Vai-se puxando um bocadinho pelos clientes. Aliás, há ainda muita gente que acha que um livro é capaz de resolver os problemas daquele dia. Ainda no outro dia, tivemos uma senhora que vinha comprar um livro para oferecer à amiga porque o marido tinha falecido. Há livros para tudo e todos os gostos. O livro tem um efeito terapêutico”.

Quando questionadas sobre a forma como se gere um negócio tão antigo, as irmãs responderam que foi necessário fazer algumas colaborações para manter o espaço de pé. “Por exemplo, a partir dos anos 90, começámos a fazer bastantes parcerias com as escolas da zona. Também fazíamos várias feiras do livro onde convidávamos autores e ilustradores. Havia concursos, prémios, várias coisas que na altura se começaram a fazer. As escolas também vinham cá e até mudámos de embrulhos para uns mais sustentáveis. Somos nós que os decoramos, mas existe uma atividade com as escolas onde os mais pequenos levam o seu embrulho e fazem a sua decoração. Depois realizamos exposições com os pacotes nas paredes”.

Há cerca de dois anos atrás, mesmo no início da pandemia, a Livraria Espaço foi uma das fundadoras da Rede de Livrarias Independentes (RELI). Esta é uma associação livre que apoia as pequenas livrarias em Portugal, procurando enfrentar a crise no mercado livreiro. Além disso, criaram a tão famosa página de Facebook Algés Acontece. Quando sentiram que a zona estava a ficar muito dispersa e que muitos negócios estavam a fechar, aperceberam-se que existia uma necessidade de conhecer melhor o comércio local e divulgar as atividades culturais que acontecem na freguesia. A ideia era dar a conhecer aos residentes e aos novos visitantes, o que se passava na zona. “As publicações são imensas e diárias. Neste momento, já contamos com 15 mil membros. Foi criado há cinco anos e não pára de crescer”, confidencia Liliana. 

Uma livraria é, sem sombra de dúvidas, uma janela aberta para o mundo e esta em particular transporta qualquer um para outra era que não a atual. A Espaço viu, desde o dia 6 de junho de 1964, o evoluir de Portugal, mas sobretudo do município de Oeiras. O comércio tradicional mantém-se vivo e forte em Algés — e ainda bem.

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